Usyk vs Verhoeven
Lutas Boxe

Usyk vence Verhoeven, mas deixa dúvidas e liga alerta para boxeadores que fazem lutas de ‘crossover’

A vitória de Oleksandr Usyk sobre Rico Verhoeven diante das Pirâmides de Gizé, no Egito, tinha tudo para ser apenas uma luta controlada do melhor peso-pesado do boxe atual contra um campeão oriundo do kickboxing. No papel, era um confronto desigual. Na prática, foi mais desconfortável do que muita gente imaginava e abriu uma discussão importante sobre os riscos das lutas “crossover” em um momento delicado da reta final da carreira de Usyk.

O resultado oficial, com interrupção no 11º round após uma sequência de golpes do ucraniano, preservou o cinturão e a invencibilidade do campeão. Ainda assim, a luta deixou a sensação de que Usyk flertou perigosamente com um desgaste desnecessário em uma apresentação que, teoricamente, deveria servir apenas como entretenimento global.

O peso da diferença física e o desconforto de Usyk

Desde o anúncio da luta, a narrativa dominante girava em torno da superioridade técnica de Usyk. E ela existiu. O campeão mostrou mais repertório, precisão e inteligência tática. Porém, o combate revelou algo que muitas vezes é ignorado quando atletas de modalidades diferentes se enfrentam: tamanho, força física e imprevisibilidade também mudam completamente a dinâmica de uma luta.

Verhoeven chegou ao ringue cerca de 11 quilos mais pesado que Usyk. Além disso, trazia consigo anos de experiência em trocação de alto nível no kickboxing, ainda que praticamente sem bagagem no boxe profissional. A expectativa era de que essa diferença fosse neutralizada rapidamente pela técnica refinada do ucraniano. Não foi o que aconteceu.

Nos primeiros rounds, Usyk encontrou dificuldades para ler os movimentos do holandês. Verhoeven atacava de ângulos pouco convencionais, avançava sem o respeito típico que boxeadores costumam demonstrar diante do campeão e usava o corpo para desgastar o rival nos clinches. Em vários momentos, o desconforto de Usyk ficou evidente.

O problema não era apenas técnico. Era físico. O campeão parecia incapaz de impor a distância ideal durante longos trechos da luta. Em alguns rounds intermediários, especialmente entre o sétimo e o nono, houve sinais claros de desgaste e até certa frustração do ucraniano diante da resistência inesperada do adversário.

O risco que o boxe insiste em correr

O duelo em Gizé foi vendido como espetáculo. E, de fato, cumpriu esse papel. O cenário das pirâmides transformou o evento em uma produção cinematográfica, ampliando ainda mais a estratégia do boxe moderno de misturar esporte, entretenimento e apelo global. Mas o combate também expôs um problema recorrente da modalidade: a insistência em cruzamentos de estilos que colocam grandes campeões em situações de risco sem retorno esportivo proporcional.

Usyk não ganhou praticamente nada em termos de legado ao derrotar Verhoeven. Era obrigação vencer. Qualquer outro resultado seria tratado como desastre histórico. Ao mesmo tempo, o combate oferecia riscos reais. A luta contra Francis Ngannou já havia mostrado isso quando o ex-campeão do UFC derrubou Tyson Fury em 2023. Desde então, o boxe passou a tratar esses confrontos híbridos com menos desconfiança.

O problema é que a linha entre espetáculo e constrangimento esportivo ficou mais tênue. Contra Verhoeven, Usyk esteve longe de dominar completamente a ação. Houve rounds equilibrados, pressão física constante e até momentos em que o campeão pareceu sem respostas claras.

A interrupção no 11º assalto acabou funcionando quase como um “alívio coletivo”. Salvou Verhoeven de um nocaute mais duro, preservou Usyk de um possível round final dramático e evitou que o boxe saísse ainda mais exposto em caso de zebra.

Um alerta para a reta final da carreira

Talvez o ponto mais importante da luta seja justamente o que ela representa para o futuro de Usyk. Aos 39 anos, o ucraniano já construiu um currículo histórico. Foi campeão indiscutível nos cruzadores e nos pesados, derrotou nomes como Anthony Joshua, Tyson Fury e Daniel Dubois, além de consolidar seu lugar entre os maiores da era moderna.

Por isso mesmo, a escolha por enfrentar Verhoeven soa contraditória. O combate parecia desenhado para uma noite tranquila, mas acabou se transformando em uma luta física e desconfortável, justamente o tipo de desgaste que um veterano deveria evitar nesta fase da carreira.

Agora, surge uma questão inevitável: vale a pena insistir nesse tipo de evento? Segundo Turki Alalshikh, principal investidor do boxe saudita, existe interesse em uma revanche. Depois do que aconteceu no Egito, a ideia deixa de parecer absurda.

E talvez esse seja o maior problema da noite para Usyk. O que deveria ser apenas uma exibição lucrativa virou uma luta competitiva o suficiente para gerar continuação. Em vez de encerrar um capítulo sem danos, o campeão pode ter criado uma rivalidade que ninguém realmente precisava ver novamente.

(Foto; Getty Images)