Usyk x Verhoeven
Lutas Boxe

Usyk x Verhoeven prejudicou o boxe em uma noite que deveria ser de espetáculo

O que deveria ser apenas mais um espetáculo de entretenimento produzido pela indústria das superlutas acabou se transformando em uma das noites mais desconfortáveis para o boxe nos últimos anos. A vitória de Oleksandr Usyk sobre Rico Verhoeven, diante das Pirâmides de Gizé, no Egito, não consolidou o domínio do campeão mundial dos pesados. Pelo contrário. O evento deixou a sensação de que o boxe saiu mais fragilizado do que fortalecido de um confronto que inicialmente parecia impossível de ameaçar sua hierarquia.

Antes da luta, o cenário parecia simples. De um lado, Usyk, considerado por muitos o melhor boxeador peso por peso da atualidade, invicto, campeão unificado e responsável por derrotar nomes como Tyson Fury, Anthony Joshua e Daniel Dubois. Do outro, Verhoeven, astro do kickboxing, mas praticamente um novato no boxe profissional, entrando em apenas sua segunda experiência relevante sob regras exclusivas do esporte.

A indústria tratou a luta como um crossover extravagante, mais próximo de um evento de exibição do que de uma disputa esportiva séria. Havia uma confiança quase arrogante de que o boxe, como modalidade, sairia reafirmado. Afinal, o argumento parecia lógico: um kickboxer jamais conseguiria competir em igualdade com um mestre técnico como Usyk em seu próprio território. O problema é que as lutas acontecem no ringue, não no currículo.

Verhoeven deu trabalho e machucou o boxe

Verhoeven desmontou boa parte das certezas pré-estabelecidas. Desde os primeiros rounds, o holandês impôs um tipo de desconforto raramente visto em adversários recentes de Usyk. Sua movimentação irregular, os golpes lançados em ângulos pouco ortodoxos e, principalmente, a combinação de tamanho físico e agressividade mudaram completamente a dinâmica esperada do combate.

Durante anos, criou-se em torno de Usyk, assim como em torno de Vasyl Lomachenko, a ideia quase mítica de que o ucraniano “baixa dados” nos rounds iniciais antes de assumir controle total da luta. Essa narrativa frequentemente serve para minimizar bons momentos dos adversários. Em Gizé, porém, ela começou a parecer insuficiente.

Usyk não estava estudando Verhoeven. Ele estava tendo dificuldade para lidar com ele. O holandês usou perfeitamente suas vantagens físicas. Mais alto, mais pesado e com alcance superior, Verhoeven transformou a luta em um confronto desconfortável para o campeão. Empurrava Usyk para as cordas, brigava nos clinches, pressionava constantemente e conectava diretos de direita que impediam o ucraniano de estabelecer seu ritmo habitual. Pela primeira vez em muito tempo, Usyk parecia reativo, não controlador.

Isso não significa necessariamente que Verhoeven era um boxeador melhor. Mas revelou algo talvez mais importante: ele era um problema diferente de qualquer outro que Usyk enfrentou na divisão. E, no boxe moderno, estilos frequentemente importam tanto quanto pedigree técnico.

O aspecto mais incômodo para o esporte foi justamente esse. Durante quase dez rounds, um kickboxer desacreditado não apenas sobreviveu contra o principal nome da modalidade, mas deu sinais reais de competitividade. Em determinados momentos, havia argumentos plausíveis para colocá-lo à frente na luta.

Ainda assim, os cartões dos juízes mostravam outro cenário. Dois deles tinham empate após dez rounds, enquanto apenas um enxergava vantagem para Verhoeven. A discrepância entre percepção pública e pontuação oficial alimentou imediatamente suspeitas sobre a condução do combate. A situação explodiu definitivamente no 11º round.

A controvérsia que fez o boxe perder ainda mais

Usyk finalmente encontrou o golpe que procurava há toda a luta: um uppercut preciso que derrubou Verhoeven e mudou completamente o panorama do combate. Foi um momento típico de um grande campeão. O tipo de golpe que diferencia um boxeador de elite de um lutador improvisado. Mas o que aconteceu depois mergulhou o evento em controvérsia.

Com Verhoeven tentando sobreviver aos segundos finais do round, o árbitro Mark Lyson interrompeu a luta praticamente junto ao soar do gongo. O problema é que boa parte do público, jornalistas e especialistas considerou a interrupção precipitada. O round já havia terminado. Verhoeven ainda estava consciente. E a sensação imediata foi de que o boxe havia interferido para evitar um cenário potencialmente constrangedor: permitir que um kickboxer chegasse até o fim contra seu principal campeão.

A reação foi instantânea. O jornalista Ariel Helwani classificou a interrupção como “uma vergonha”. Nas redes sociais, a discussão rapidamente deixou de ser apenas sobre o resultado e passou a girar em torno da credibilidade do esporte. E esse talvez seja o maior problema para o boxe moderno.

A modalidade tenta constantemente proteger sua hierarquia histórica, mas ao mesmo tempo se alimenta comercialmente justamente desses eventos de crossover que colocam essa hierarquia em risco. Foi assim com Francis Ngannou contra Tyson Fury em 2023. Foi assim com Jake Paul enfrentando veteranos do MMA e ex-campeões envelhecidos. E agora aconteceu novamente com Verhoeven.

O boxe quer os lucros, a atenção midiática e o espetáculo desses confrontos, mas entra em crise quando percebe que outsiders podem competir mais do que deveriam. Existe ainda outro elemento importante: o envelhecimento de Usyk. Aos 39 anos, o campeão claramente já não apresenta a mesma velocidade de pernas e capacidade de sustentação física que marcaram seu auge técnico.

Isso não apaga sua genialidade, mas ajuda a explicar por que Verhoeven conseguiu criar tantos problemas. O timing defensivo do ucraniano parecia menos preciso, e sua habitual capacidade de ajuste durante a luta demorou demais para aparecer.

No fim, Usyk venceu. Oficialmente, manteve o cinturão e preservou o invicto. Mas a sensação deixada em Gizé foi estranha. O campeão saiu com o título, enquanto Verhoeven saiu com legitimidade competitiva inesperada. E talvez isso explique por que tanta gente terminou a noite discutindo não o desempenho do kickboxer, mas o desconforto do próprio boxe consigo mesmo.

(Foto: Matchroom Boxing)