Vasco x Palmeiras 2000
Futebol Copa Sul-Americana

Vasco já conseguiu viradas improváveis em competições sul-americanas; confira como elas aconteceram

O Vasco chega ao jogo de volta contra o Independiente Del Valle, pela Copa Sul-Americana, com um cenário que beira o impossível: precisa reverter uma derrota por 4 a 0 sofrida na altitude de Quito. Para avançar direto, terá de vencer por cinco gols de diferença. Um placar por quatro gols leva a decisão aos pênaltis. Nunca um time brasileiro conseguiu virar um mata-mata continental após perder por quatro gols no primeiro jogo. Mas se existe um clube que pode sonhar com o improvável, é o Vasco da Gama. E a própria história do time mostra por quê.

Não seria a primeira vez que o Vasco ressuscita em um confronto que parecia perdido. Duas partidas cravadas na memória do futebol brasileiro provam que a camisa cruzmaltina já pesou tanto a ponto de fazer ruir vantagens que pareciam definitivas: a Copa Conmebol de 1996 e a mítica final da Copa Mercosul de 2000.

1996: Vasco x Deportes Tolima – O início da lenda das viradas

Em 1996, o Vasco encarou o Deportes Tolima, da Colômbia, pelas oitavas de final da Copa Conmebol, competição que na época era a terceira mais importante da América do Sul. O primeiro jogo foi realizado em Ibagué, e o Tolima venceu por 1 a 0, um placar magro, mas que levava ao Brasil uma vantagem concreta e confortável, considerando o peso do jogo fora de casa e a dificuldade do adversário em jogar em solo brasileiro.

No entanto, em São Januário, o Vasco foi um rolo compressor. Dominou o Tolima do início ao fim e aplicou um contundente 4 a 0, revertendo a desvantagem com autoridade e sem dar chance de sustos. Com gols de Felipe, Valdir Bigode, Nasa e Edmundo, o Vasco impôs seu ritmo desde o primeiro minuto, e a virada veio de forma categórica, classificando o time com sobras.

Essa partida marcou um ponto de virada na história vascaína em torneios continentais: a consciência de que, mesmo diante de um revés fora de casa, o fator São Januário, aliado à força da camisa, poderia transformar qualquer confronto.

2000: A Virada do Século – Vasco x Palmeiras na final da Copa Mercosul

Mas foi em 20 de dezembro de 2000, no Palestra Itália, que o Vasco escreveu a maior virada da história do futebol sul-americano entre clubes. A decisão da Copa Mercosul contra o Palmeiras seria disputada em três jogos, e o confronto decisivo aconteceu em São Paulo. O Palmeiras, treinado por Marco Aurélio, abriu um 3 a 0 ainda no primeiro tempo, com gols de Euller, Arce e Magrão. O título parecia decidido. O Palmeiras dominava e a torcida alviverde já celebrava no intervalo.

Para piorar a situação vascaína, o zagueiro Júnior Baiano foi expulso ainda no primeiro tempo, tornando o desafio ainda mais hercúleo: virar um jogo de três gols de desvantagem, fora de casa, com um jogador a menos. Mas o que parecia uma derrota anunciada virou um épico.

Antes do intervalo, Juninho Paulista descontou para o Vasco. O gol parecia apenas de honra, mas foi o que manteve o time respirando. No segundo tempo, começou o show de Romário, que já era um dos maiores nomes da história do clube. O Baixinho marcou três gols: o primeiro de pênalti, o segundo completando jogada em velocidade, e o terceiro em um contra-ataque fatal.

Vasco 4 a 3 Palmeiras, um placar histórico, com o Vasco levantando o troféu em pleno Palestra Itália. A reação foi tão absurda que o jogo ganhou o apelido de “Virada do Século”, um dos capítulos mais inacreditáveis do futebol mundial.

O Del Valle e o novo desafio impossível

Agora, o Vasco encontra-se novamente diante de um desafio que testa sua história e caráter. O Del Valle não é o Palmeiras, nem o Tolima, mas representa um obstáculo pesado: um time acostumado com competições sul-americanas, campeão da Sul-Americana em 2019 e 2022, experiente, técnico e acostumado a decidir.

A diferença é que o Vasco de hoje não tem Romário, Edmundo ou Juninho Paulista. O elenco atual é mais jovem, irregular, mas está diante da chance de gravar seu nome na história ao lado daqueles gigantes. Reverter um 4 a 0 não é comum nem no futebol europeu, quem dirá nas disputas sul-americanas onde os jogos de volta costumam ser truncados, cheios de faltas e catimba.

Além disso, há o peso do próprio São Januário. O estádio cruzmaltino tem histórico de caldeirão em noites de decisão. A diretoria promete casa cheia, ingressos populares e um ambiente de pressão constante para tentar minar a confiança do Del Valle desde o início. Um gol nos primeiros minutos pode transformar o ambiente e reabrir o jogo.

A mística vascaína em jogo

É um clichê, mas que o Vasco tenta transformar em verdade: camisa não joga, mas pesa. O Del Valle tem a vantagem numérica, mas o Vasco tem a história. Tem as noites de superação, tem o peso de uma torcida que acredita porque já viu o impossível acontecer.

Se a virada não vier, o Vasco terá ao menos tentado escrever mais uma página memorável. Mas se acontecer, não será só mais uma classificação: será uma reafirmação do espírito de um clube que nunca aceitou o papel de coadjuvante na América do Sul.

A missão é difícil, mas quem viveu 1996 e principalmente 2000 sabe que o Vasco só se entrega quando o juiz apita o fim. Até lá, o sonho vive — e o impossível é apenas um detalhe.

(Foto: Arquivos/Vasco)