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Futebol Copa do Mundo de Clubes

Vitória do Chelsea contra o PSG escancara ‘novo modo’ de pensar futebol e um contraponto ao jogo de posse de bola

O Chelsea não apenas venceu, mas humilhou o PSG na final da Copa do Mundo de Clubes, com um sonoro 3 a 0 que, além do placar, escancarou um movimento tático que vem se consolidando na elite do futebol europeu: o fim do domínio absoluto do “futebol de posse e construção desde a defesa”, substituído por um modelo mais direto, vertical e, principalmente, adaptado à nova onda de marcação pressão individualizada.

A equipe comandada por Enzo Maresca, que já havia impressionado na temporada passada com a vitória na Conference League, foi cirúrgica contra o PSG de Luis Enrique, um dos maiores defensores do jogo posicional e do controle por meio da posse.

O Chelsea não quis — e nem tentou — bater de frente com o PSG na troca de passes. Preferiu o caminho pragmático: bola longa, transição rápida e letalidade. O primeiro e o segundo gols nasceram de lances diretos, com lançamentos do goleiro e da defesa, que desmontaram uma marcação do PSG que, apesar de agressiva, deixa espaços atrás por conta da exposição típica da pressão alta.

Esse jogo mais direto e reativo do Chelsea, longe de ser casual, reflete uma transformação no futebol de alto nível europeu, que ficou evidente na última temporada.

A evolução tática do modelo direto

Esse modelo, no entanto, está longe de ser novo. O contraponto do futebol de posse de bola e posicionamento começou com o Catenaccio de Helenio Herrera, na Inter dos anos 60. No entanto, apesar de se basear em uma defesa forte, esse estilo de jogo não dava grandes alternativas ofensivas. O jogo direto ofensivo veio na Inglaterra, com o “kick and rush” inglês dominado por técnicos como Don Revie e Bob Paisley.

Com isso, o modelo começou a evoluir cada vez mais. e o jogo direto teve as suas variações. Nos anos 90, na Itália, Arrigo Sacchi começava o seu modelo de poucos toques para chegar ao gol, com uma forte marcação no meio de campo. Zdenek Zeman, com a sua “Zemanllandia”, usava linhas altas para recuperar a bola rapidamente e usar a velocidade. Alguns anos depois, na Alemanha, o “Gegenpressing” de Ralf Rangnick alinhava a marcação pressão com o jogo vertical.

Os maiores expoentes do futebol reativo e de transição rápida, depois disso, foram José Mourinho e Diego Simeone. Mourinho, com uma Inter forte em 2010, dominou o jogo posicional de Pep Guardiola, enquanto Simeone, no começo dos anos 10, mostrou um Atlético de Madrid competitivo com um elenco inferior. Mesmo assim, desde que o futebol de posse de bola começou a dominar a Champions, o jogo reativo ficou obsoleto, e muitos técnicos pararam de usar a ligação direta como uma alternativa.

Daí, nasceu uma nova era de técnicos de modelo direto. Com a marcação alta em zona, treinadores como Maurício Pochettino e Antonio Conte começaram a investir na saída de bola curta para atrair os seus adversários e achar bolas nas costas da defesa. Isso machucou o jogo posicional, que respondeu com uma solução simples: a marcação pressão individual.

A marcação individual: o novo terror das construções desde a defesa

O que antes era exceção agora virou regra: os grandes times abandonaram o bloco médio ou o bloco alto de marcação em zona para adotar um modelo de pressão individualizada em campo adversário. Não se trata mais de encurralar o rival apenas com linha de passe fechada, mas de caçar o adversário em cada centímetro do campo, onde cada jogador tem um alvo específico para marcar.

Esse modelo dificulta enormemente a saída de bola curta, tão valorizada até recentemente. A pressão personalizada gera erros, força o chutão ou o erro técnico de quem tenta insistir na construção por baixo.

Consequentemente, o futebol europeu se adaptou. Longos lançamentos dos goleiros e zagueiros voltaram a ser recursos não apenas aceitáveis, mas planejados. No Mundial de Clubes, o Chelsea de Maresca aplicou esse conceito com perfeição: optou pelo jogo vertical, aceitou jogar sem a bola e explorou a ansiedade do PSG em se lançar à frente, oferecendo os espaços necessários para as transições rápidas de Palmer e companhia.

Essa transformação não se limita aos gigantes. Na Premier League, o Nottingham Forest de Nuno Espírito Santo é um dos expoentes dessa abordagem. O time, com elenco limitado para competir no topo, apostou fortemente em uma estratégia de marcação em bloco médio e jogo de transição rápida, conseguindo disputar a liderança da Premier League em certo momento e conquistando vaga para as competições europeias.

Na Alemanha, o Mainz 05 de Bo Henriksen seguiu caminho semelhante. Mesmo com um elenco modesto, o Mainz surpreendeu adversários ao adotar marcação homem a homem desde o campo ofensivo, forçando o erro rival e acelerando o jogo vertical. O estilo não apenas evitou o rebaixamento, mas também colocou a equipe na disputa pelas competições europeias.

Esses exemplos demonstram que, hoje, o jogo de transição rápida e marcação não é apenas um recurso de quem tem menos posse — é uma resposta eficaz à pressão moderna que impede a paciência na saída.

Chelsea e o fim da vergonha da bola longa

Se antes o longo lançamento do goleiro era quase um tabu nos grandes clubes, hoje virou ferramenta estratégica. A frase que ecoou na Europa é simbólica:

“Se o adversário joga melhor que você no toque de bola, não tente jogar como ele.”

Essa mentalidade guiou Maresca e o Chelsea contra o PSG. A ideia não é abdicar do jogo bonito, mas sim reconhecer que adaptar-se ao adversário é mais inteligente do que morrer abraçado a um ideal estético.

Esse pensamento também se refletiu em episódios rece ntes como a derrota da Inter de Simone Inzaghi para o próprio PSG na Champions. Enquanto Inzaghi tentou manter o jogo propositivo, Maresca mostrou que o caminho contra esse PSG de Luis Enrique era outro: pragmatismo, velocidade e eficiência. Renato Paiva, com o Botafogo, fez o mesmo, apesar de ter sido menos agressivo.

O pragmatismo de volta à moda?

A vitória do Chelsea na Copa do mundo de Clubes não é apenas um título: é um símbolo do futebol que está sendo praticado hoje na elite europeia. A marcação individualizada veio para ficar, e com ela, a valorização de atletas com resistência física, inteligência para atacar o espaço e capacidade de acelerar o jogo logo após recuperar a bola.

Se o futebol é cíclico, o momento atual é do pragmatismo adaptativo, que não renega o jogo bonito, mas que não tem vergonha de usar o “feio” se isso trouxer resultado. O Chelsea de Maresca, o Nottingham Forest de Nuno Espírito Santo e o Mainz de Bo Henriksen mostraram que a bola longa, o jogo reativo e a transição rápida estão de volta — e mais modernos do que nunca.

A Copa do Mundo de Clubes de Clubes apenas sacramentou essa realidade. E para quem não entender essa nova lógica, o caminho será cada vez mais distante dos troféus.

(Foto: Getty Images)