Neste fim de semana, Vitória e Santos se reencontram pela 10ª rodada do Brasileirão. Em campo, um duelo entre duas equipes que vivem momentos distintos, mas fora dele, um fantasma paira: o jogo entre esses dois clubes na última rodada do Brasileirão de 2014.
Um confronto aparentemente sem importância direta, mas que entrou para a história por um motivo que transcendeu os 90 minutos: o gol de Thiago Ribeiro, que rebaixou o Vitória, salvou o Palmeiras — e desde então, parece ter desencadeado uma maldição para o Santos.
7 de dezembro de 2014: o jogo que mudou tudo para Santos, Vitória e… Palmeiras
Naquela tarde, o Palmeiras enfrentava o Atlético-PR, no Allianz Parque, e precisava vencer para escapar do rebaixamento. O time ainda vivia o caos administrativo que se estendia desde o início da década. Apesar do novo estádio e da chegada de Paulo Nobre à presidência, o futebol ainda patinava. O elenco era limitado e os bastidores turbulentos.
O empate por 1 a 1 no Allianz deixava o Palmeiras em risco, e a permanência na Série A passava por um resultado paralelo: Vitória x Santos, no Barradão. O time baiano precisava vencer e torcer por tropeços. Já o Santos, sem grandes ambições na rodada final, entrou em campo apenas para cumprir tabela.
Mas então, aos 27 minutos do segundo tempo, Thiago Ribeiro marcou para o Santos. O gol foi um banho de água fria no Vitória e uma explosão de alívio para os palmeirenses. O jogo terminou 1 a 0. O Vitória caiu. O Palmeiras se salvou. O Santos, sem querer, havia evitado o rebaixamento de seu maior rival.
O que parecia um simples episódio de tabela teve consequências profundas. A permanência na elite permitiu ao Palmeiras iniciar uma reestruturação com mais fôlego. No ano seguinte, com o patrocínio robusto da Crefisa e a base montada por Paulo Nobre, o clube começou a montar elencos mais competitivos.
Em 2015, veio a Copa do Brasil. Final contra o Santos. E o Palmeiras deu o troco — mesmo que o Santos não tivesse “culpa” direta — vencendo nos pênaltis e conquistando seu primeiro título importante na nova era. A partir dali, o Verdão virou potência: mais duas Libertadores (2020 e 2021), três Brasileirões (2016, 2018 e 2023), e uma hegemonia consolidada no futebol nacional.
O Santos, por outro lado, começou a viver um paradoxo. Embora tenha feito boas campanhas e revelado talentos como Gabigol e Rodrygo, começou a esbarrar justamente no Palmeiras nos momentos decisivos.
A “maldição” pós-2014
Além da final da Copa do Brasil em 2015, o confronto mais simbólico foi na final da Libertadores de 2020, no Maracanã. Um jogo tenso, amarrado, decidido nos acréscimos com um gol de Breno Lopes, que selou o título para o Palmeiras e escancarou a diferença de estrutura entre os dois clubes.
Desde então, o Santos entrou em decadência administrativa e esportiva. Afundado em dívidas, perdeu competitividade, revelou menos e viu a distância para os rivais paulistas aumentar. Em 2023, a tragédia se confirmou: o primeiro rebaixamento da história santista. Enquanto isso, o Palmeiras se consolidava como o clube mais bem gerido do país, colhendo frutos da permanência na elite em 2014. E tudo começou naquele jogo no Barradão.
Para o Vitória, aquele gol de Thiago Ribeiro também foi doloroso. O clube baiano caiu, e viveu um ciclo de altos e baixos desde então. Chegou à Série C, sofreu com gestões desastrosas, mas em 2023 voltou à Série A após conquistar a Série B. O reencontro com o Santos, hoje também fora das prateleiras maiores do futebol nacional, tem gosto agridoce: uma lembrança do que poderia ter sido diferente.
É raro que um jogo entre dois times tenha tanto impacto em um terceiro. Mas Vitória x Santos, em 2014, foi esse ponto de virada. Um gol que não valia nada para o Santos, salvou o maior rival e afundou o adversário do dia. E, de alguma forma, começou ali uma sequência de quedas e derrotas santistas contra o novo gigante alviverde.
Agora, em 2025, Vitória e Santos se reencontram pela 10ª rodada do Brasileirão, ambos tentando reerguer seus projetos e deixar para trás anos de turbulência. Para o Santos, o jogo carrega uma pressão de uma eliminação no meio de semana na Copa do Brasil. Para o Vitória, é a chance de vencer o adversário que, sem querer, deu início a seu calvário, mas que agora está em uma situação pior.
E para os palmeirenses, é apenas mais uma oportunidade de agradecer, com certa ironia: “Obrigado, Thiago Ribeiro”.
(Foto: Felipe Oliveira/EC Vitória)