Alexander Volkanovski voltou a desafiar os limites do tempo e da própria história do MMA ao nocautear Movsar Evloev no segundo round do UFC 333, em Abu Dhabi, e reforçar sua posição como o maior peso-pena de todos os tempos. Aos 38 anos, o australiano não apenas defendeu o cinturão contra um adversário invicto e seis anos mais jovem, como também transformou uma trajetória que muitos consideravam próxima do fim em um dos exemplos mais impressionantes de longevidade esportiva no Ultimate. Depois de duas derrotas por nocaute que abalaram sua reputação e alimentaram dúvidas sobre sua capacidade de continuar no topo, Volkanovski encontrou uma maneira de reconstruir o próprio legado e provar que ainda pertence à elite da organização.
A vitória tem um significado que ultrapassa o resultado de uma disputa de cinturão. No MMA, a passagem do tempo costuma ser especialmente cruel com os campeões, porque a renovação constante das categorias coloca novos talentos diante de atletas que já acumularam anos de desgaste físico e mental. Quando um lutador sofre derrotas contundentes, a percepção pública pode mudar rapidamente, e conquistas que antes pareciam extraordinárias passam a ser tratadas como capítulos encerrados. Volkanovski conheceu esse processo, mas sua resposta foi continuar vencendo, adaptar o próprio jogo e aceitar justamente o desafio que poderia confirmar as dúvidas sobre sua carreira.
De campeão dominante a lutador considerado ultrapassado
A trajetória recente de Volkanovski ajuda a compreender a dimensão de sua recuperação. Durante anos, o australiano construiu uma das carreiras mais consistentes da história do peso-pena, defendendo o cinturão e superando adversários de diferentes estilos. Sua capacidade de combinar movimentação, inteligência tática, resistência física e precisão na trocação tornou difícil encontrar um caminho confiável para derrotá-lo. Mesmo assim, duas derrotas consecutivas por nocaute alteraram a maneira como parte do público passou a enxergar o campeão.
A primeira aconteceu em 2023, quando Volkanovski aceitou enfrentar Islam Makhachev em uma revanche com pouco tempo de preparação, depois de ter disputado outra luta de alto nível contra Yair Rodríguez. O australiano foi nocauteado e passou a conviver com questionamentos sobre a decisão de aceitar um confronto tão exigente em um intervalo reduzido. A derrota não apagou o desempenho competitivo que havia apresentado no primeiro duelo contra Makhachev, mas abriu espaço para uma interpretação mais pessimista sobre sua condição física.
Quatro meses depois, Ilia Topuria também nocauteou Volkanovski, desta vez em uma disputa pelo cinturão do peso-pena. O resultado pareceu confirmar a ideia de que uma nova geração havia chegado para assumir o controle da categoria. Enquanto Topuria se consolidava como campeão, Volkanovski passou a ser tratado por muitos como um antigo dominador cuja melhor fase havia ficado para trás.
Essa percepção era compreensível, mas não contava toda a história. A derrota para Makhachev aconteceu em circunstâncias específicas, e a luta contra Topuria mostrou que o australiano ainda podia competir em alto nível, mesmo que o desfecho tenha sido definitivo. No esporte, o resultado final frequentemente se sobrepõe ao desenvolvimento do combate, e a imagem de um nocaute pode acabar resumindo uma trajetória inteira. Volkanovski, porém, não permitiu que esses episódios determinassem o restante de sua carreira.
O australiano aceitou a realidade das derrotas sem transformar a frustração em ressentimento. Continuou treinando, manteve o bom humor e até brincou com a própria idade, enquanto a atenção do público se voltava para outros nomes. Essa capacidade de conviver com a perda de prestígio foi tão importante quanto a preparação física, porque a reconstrução de um campeão exige disposição para enfrentar novamente situações nas quais a reputação já não funciona como proteção.
As vitórias sobre Diego Lopes prepararam o caminho para a redenção
Quando Topuria deixou o cinturão do peso-pena para subir à categoria dos leves, a disputa pelo título ficou aberta e Volkanovski recebeu a oportunidade de enfrentar Diego Lopes. O brasileiro-mexicano vivia uma fase ascendente, acumulando vitórias e construindo a imagem de um finalizador capaz de transformar qualquer confronto em uma ameaça. Para Lopes, derrotar um antigo campeão seria a maneira ideal de inaugurar seu próprio reinado e conquistar uma vitória de enorme repercussão.
O confronto representava um risco considerável para Volkanovski. Além de enfrentar um adversário em ascensão, ele precisaria provar que ainda conseguia competir por cinco rounds contra um lutador mais jovem, agressivo e disposto a pressioná-lo. A vitória por decisão dos juízes devolveu o cinturão ao australiano e mostrou que sua experiência continuava sendo um recurso competitivo, mas ainda havia dúvidas sobre a dimensão de sua recuperação.
A revanche tornou o cenário mais claro. Volkanovski voltou a superar Lopes de maneira ainda mais convincente, demonstrando que o primeiro resultado não havia sido apenas consequência de uma noite favorável ou de uma estratégia que surpreendeu o adversário. O australiano conseguiu neutralizar as principais armas do brasileiro-mexicano e mostrou que havia encontrado respostas para administrar o confronto com maior controle.
Essas duas vitórias foram fundamentais para restabelecer sua posição na divisão, mas o duelo seguinte representava um teste de natureza diferente. Lopes já era um adversário perigoso, porém Evloev chegava ao UFC 333 invicto no cartel profissional e com um histórico de domínio sobre os rivais que enfrentara no Ultimate. O russo havia vencido todos os dez adversários anteriores na organização, incluindo nomes importantes como Aljamain Sterling e Lerone Murphy, e reunia características que poderiam expor qualquer sinal de declínio do campeão.
A diferença estava no perfil do desafio. Evloev tinha seis anos a menos, uma capacidade de wrestling reconhecida e um estilo que permitia controlar os adversários durante longos períodos. Para um campeão de 38 anos, enfrentar um lutador com esse conjunto de atributos significava testar não apenas a velocidade e a resistência, mas também a capacidade de escapar de posições desfavoráveis e manter a concentração diante de uma pressão constante.
Volkanovski, no entanto, não evitou o confronto. O próprio australiano defendeu a escolha de Evloev como desafiante e aceitou lutar em Abu Dhabi, ambiente no qual o russo poderia contar com o apoio do público. Em vez de buscar uma defesa que oferecesse menos riscos, o campeão escolheu um adversário cuja vitória poderia acrescentar um argumento decisivo à discussão sobre seu legado.
Contra Evloev, a experiência transformou o wrestling em uma armadilha
O início da luta mostrou por que Evloev era considerado uma ameaça legítima. O russo tentou impor sua movimentação, explorar as entradas para queda e obrigar Volkanovski a reagir às mudanças de nível. O australiano, porém, respondeu com movimentação de pés, combinações rápidas e precisão na curta distância, conseguindo vencer o primeiro round sem permitir que o desafiante estabelecesse o controle esperado.
O momento decisivo aconteceu no segundo assalto. Evloev conseguiu levar Volkanovski ao chão em algumas ocasiões, mas encontrou dificuldade para mantê-lo em uma posição de domínio. O campeão não se limitou a defender as tentativas de queda: utilizou as transições para inverter posições, escapar de situações perigosas e obrigar o russo a reconsiderar a estratégia que havia sustentado sua invencibilidade.
Essa capacidade de transformar a principal arma do adversário em uma fonte de problemas foi uma das características mais impressionantes da atuação. Evloev estava acostumado a impor o wrestling, controlar o ritmo e acumular vantagens ao longo dos rounds, mas encontrou um rival que compreendia as transições e conseguia reagir sem entrar em pânico. Quando o russo tentava avançar, Volkanovski identificava oportunidades para inverter a posição ou recuperar espaço.
O australiano não precisava vencer todas as disputas de força nem impedir absolutamente todas as quedas. Precisava evitar que Evloev permanecesse por tempo suficiente em posições de controle para limitar sua produção ofensiva. Ao fazer isso, obrigou o desafiante a gastar energia em tentativas que não entregavam o resultado esperado e abriu espaço para que a trocação voltasse a ser o centro da luta.
A sequência que levou ao desfecho mostrou a diferença entre simplesmente resistir a um adversário e compreender como desmontar seu plano. Volkanovski encontrou os golpes que prepararam o caminho para o fim do combate e, quando a luta chegou ao chão novamente, utilizou o ground and pound para encerrar a disputa no segundo round. O nocaute não foi apenas a conclusão de uma atuação dominante, mas a demonstração de que o campeão continuava capaz de impor sua vontade diante de um dos desafios mais difíceis disponíveis na categoria.
A vitória também mostrou que a experiência não precisa significar lentidão ou dependência de um repertório antigo. Volkanovski continuou rápido, preciso e fisicamente preparado, mas o diferencial esteve na maneira como interpretou as ações de Evloev. O russo tentou levar a luta para o terreno em que normalmente se sentia mais confortável, porém o australiano conseguiu transformar essas iniciativas em oportunidades para contra-atacar.
O debate sobre o maior peso-pena ganhou um novo capítulo, e talvez o último
A discussão sobre o maior peso-pena da história do UFC costuma envolver nomes como José Aldo e Max Holloway, dois campeões que estabeleceram padrões extraordinários de domínio e longevidade. Aldo construiu um reinado histórico e se tornou referência pela defesa do cinturão, enquanto Holloway acumulou vitórias de enorme repercussão e consolidou uma das identidades ofensivas mais reconhecíveis do MMA. Volkanovski já fazia parte dessa conversa antes das derrotas para Makhachev e Topuria, mas o resultado contra Evloev acrescentou um argumento importante à sua candidatura.
O australiano não depende apenas da quantidade de defesas ou de uma sequência de vitórias para sustentar essa posição. Seu legado também está ligado à capacidade de superar adversários com características muito diferentes e de ajustar a estratégia conforme as exigências de cada confronto. A vitória sobre Evloev reuniu esses elementos: Volkanovski enfrentou um desafiante invicto, resistiu às tentativas de wrestling e encerrou a luta antes que a disputa pudesse se transformar em uma batalha prolongada.
A longevidade torna o feito ainda mais significativo. Aos 38 anos, Volkanovski continua competindo em uma categoria na qual velocidade, reflexos e resistência têm influência decisiva. Sua trajetória também carrega uma particularidade: antes de se dedicar integralmente ao MMA, ele praticava rúgbi e precisou passar por uma transformação física considerável para competir no peso-pena. A capacidade de reduzir peso, adaptar o corpo e desenvolver recursos técnicos para chegar ao topo já era notável; continuar no nível mais alto depois de tantos anos acrescenta outra dimensão à história.
Isso não significa que a discussão esteja encerrada de maneira definitiva. Comparar campeões de épocas diferentes exige considerar o nível dos adversários, as condições de cada reinado e as mudanças na própria modalidade. Aldo e Holloway continuam tendo argumentos sólidos, e o legado de Volkanovski não precisa diminuir os feitos de nenhum deles. Ainda assim, a vitória sobre Evloev fortalece a ideia de que o australiano combina domínio competitivo, longevidade e capacidade de recuperação em um nível raro.
Mais do que provar que ainda consegue vencer, Volkanovski mostrou que pode derrotar um adversário que representa o futuro da categoria. Esse detalhe é importante porque a longevidade, isoladamente, não garante grandeza: permanecer em atividade por muitos anos só tem valor esportivo quando o atleta continua capaz de competir contra os melhores. O australiano não está apenas prolongando a carreira, mas acrescentando resultados relevantes a um legado que já era histórico.
A grandeza de Volkanovski também está na capacidade de se levantar
Existe uma diferença entre um campeão que nunca enfrenta uma queda significativa e outro que consegue reconstruir sua trajetória depois de perder o cinturão e sofrer derrotas contundentes. A carreira de Volkanovski passou a ser definida também por essa segunda dimensão. As derrotas para Makhachev e Topuria poderiam ter encerrado sua permanência no topo, especialmente porque ocorreram em um intervalo curto e por nocaute, mas o australiano encontrou uma maneira de continuar competitivo.
A reação não exigiu que ele negasse o passado ou tratasse as derrotas como acontecimentos irrelevantes. Volkanovski precisou aceitar que havia perdido, conviver com as críticas e demonstrar novamente, dentro do octógono, que ainda possuía as ferramentas necessárias para ser campeão. As vitórias sobre Lopes devolveram o cinturão, enquanto o triunfo sobre Evloev elevou o nível da discussão sobre sua posição histórica.
Esse processo também ajuda a explicar por que a recuperação tem um valor que vai além das estatísticas. Recordes, defesas de título, sequências de vitórias e nocautes são critérios importantes para avaliar os maiores lutadores, mas a capacidade de reagir a uma fase adversa revela outro aspecto da competitividade. Um atleta precisa de disciplina para continuar trabalhando quando o reconhecimento diminui e de confiança para enfrentar adversários que acreditam estar diante de um campeão em declínio.
Volkanovski demonstrou essas qualidades sem transformar a carreira em uma tentativa de provar algo a cada crítica. Ele continuou seguindo seu caminho, manteve a personalidade e aceitou os desafios que poderiam colocar seu legado em risco. Em Abu Dhabi, essa postura encontrou sua recompensa em uma vitória que dificilmente será lembrada apenas pelo resultado.
A frase de Muhammad Ali sobre a importância de se levantar depois de ser derrubado encontra um exemplo claro na trajetória do australiano. No esporte, cair faz parte da disputa, mas a maneira como um atleta reage pode determinar o significado de sua carreira. Volkanovski foi nocauteado, perdeu o cinturão e viu sua posição histórica ser questionada, mas não permitiu que esses episódios se transformassem em uma sentença definitiva.
O UFC 333 não apagou as derrotas anteriores, nem tornou sua carreira imune aos efeitos da idade. O que fez foi demonstrar que as conclusões precipitadas sobre o fim de sua trajetória estavam erradas. Ao nocautear Evloev, Volkanovski provou que ainda consegue superar adversários da nova geração e reforçou sua candidatura ao posto de maior peso-pena da história do UFC.
Aos 38 anos, o australiano continua no topo porque não depende apenas do que já conquistou. Sua grandeza está na capacidade de adaptar o jogo, enfrentar desafios difíceis e reconstruir a própria reputação quando muitos já deixaram de acreditar. Se o legado de um campeão é medido pelo que ele conquista, a história de Volkanovski mostra que também deve ser avaliada pelo que consegue superar. Ele caiu, levantou-se e voltou a vencer; agora, cada novo resultado acrescenta força a uma trajetória que já pertence à história do MMA.
(Foto: Zuffa LLC)



