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Weverton: polêmica convocação é só um sintoma da situação de goleiros do Brasil

A convocação de Weverton dividiu opiniões entre torcedores da Seleção Brasileira e comentaristas. Muita gente questionou a presença do goleiro do Grêmio na lista de Carlo Ancelotti, principalmente pelo fato do arqueiro já estar na reta final da carreira e não viver exatamente uma temporada absurda individualmente.

Só que a discussão talvez esteja olhando para o lugar errado.

A presença de Weverton não é exatamente o problema. Ela é muito mais um sintoma da situação complicada que o Brasil vive na posição. Porque, olhando friamente para o cenário atual, praticamente nenhum goleiro brasileiro que apareceu nos holofotes da Seleção nos últimos tempos realmente chega transmitindo confiança absoluta.

E quando isso acontece perto de uma Copa do Mundo, o debate naturalmente fica ainda maior.

Hugo Souza caiu de rendimento, Bento entrou em espiral e Ederson também perdeu força

Há poucos meses, parecia existir uma renovação natural acontecendo no gol brasileiro. Hugo Souza cresceu absurdamente no Corinthians e virou um dos personagens mais importantes da recuperação do clube. Defendia pênaltis, salvava jogos e parecia finalmente ter encontrado estabilidade depois dos anos turbulentos pós-Flamengo.

Mas o cenário mudou rápido.

Hugo ainda é um goleiro interessante, mas deixou de ser aquele nome incontestável que “pedia passagem” para a Seleção. O impacto diminuiu, as atuações passaram a oscilar mais e o brilho que existia alguns meses atrás perdeu força. Não virou um goleiro ruim da noite para o dia, longe disso, mas também não parece alguém pronto para assumir o peso de uma Copa do Mundo.

E o caso de Bento talvez seja ainda mais emblemático.

Durante muito tempo, Bento parecia o sucessor natural da posição. Seguro, frio, dominante no jogo aéreo e com personalidade. Só que a ida para o futebol saudita abriu uma sequência extremamente complicada. Principalmente nos jogos grandes da temporada, o goleiro passou a acumular falhas importantes, insegurança nas saídas e decisões ruins em momentos decisivos.

O que antes parecia evolução virou um momento de clara instabilidade.

E nem mesmo Ederson chega cercado daquela confiança absoluta de temporadas anteriores. Ainda é um goleiro de elite tecnicamente, talvez o melhor do mundo com os pés, mas seu momento individual caiu junto com a temporada mais irregular do Manchester City nos últimos anos.

Alisson Becker segue sendo provavelmente o nome mais confiável do país, porém a questão física preocupa. As chances de não chegar 100% fisicamente para os próximos compromissos da Seleção abriram uma preocupação real dentro da comissão técnica.

E é exatamente aí que o nome de Weverton ganhou força.

Taffarel vê em Weverton o que Ancelotti vê em Danilo

Weverton, em ação com a camisa do Grêmio. Foto: Ettore Chiereguini/AGIF
Weverton, em ação com a camisa do Grêmio. Foto: Ettore Chiereguini/AGIF

 

Existe um fator muito importante nessa discussão: a influência de Cláudio Taffarel.

Taffarel sempre valorizou goleiros experientes, mentalmente fortes e acostumados com pressão pesada. E dentro desse perfil, Weverton entrega praticamente tudo que a comissão técnica procura neste momento. Difícil defendê-lo porque existem opções que andam rendendo mais no futebol nacional, porém, Weverton tem a famosa bagagem.

O goleiro do Grêmio já viveu Copa do Mundo, disputou finais gigantes, Libertadores, decisões de Brasileirão e praticamente todo tipo de pressão possível no futebol sul-americano. Não é um goleiro que vai sentir ambiente hostil ou travar emocionalmente em cenário decisivo. Mesmo Weverton não sendo uma unanimidade nos lugares que passou, esteve nos principais palcos do futebol sul-americano em quase toda a sua carreira.

Num momento em que Ederson oscila, Alisson inspira cuidados físicos e os nomes mais jovens vivem turbulência, apostar em alguém experiente acabou parecendo o caminho mais seguro. Principalmente porque existe uma possibilidade real dele precisar jogar.

E talvez isso explique por que a comissão técnica tenha preferido Weverton, ao pensar na segurança emocional ao invés de simplesmente “premiar momento”. Em meio as escolhas comuns dos treinadores por jogadores de confiança, foi possivel ver Ancelotti seguir e escolher Danilo para ser um pilar do grupo, assim como dá para ver a realidade de Weverton escolhido por Taffarel da mesma forma.

Everson e Fábio ficaram fora mesmo vivendo grande fase

A discussão fica ainda mais interessante quando se olha para o Brasileirão. Porque se a convocação fosse baseada apenas em desempenho recente no futebol brasileiro, muita gente esperava ver Everson ou Fábio recebendo oportunidade.

Everson continua sendo um dos goleiros mais completos do país. Seguro, experiente, decisivo e extremamente importante na construção ofensiva do Atlético Mineiro. Já Fábio parece desafiar qualquer lógica física do futebol moderno. Mesmo veterano, continua salvando o Fluminense constantemente e mantendo um nível altíssimo de regularidade.

Só que existe um detalhe importante: ambos já estão numa faixa etária onde dificilmente representam um projeto pensando em longo prazo para Seleção. E isso talvez tenha criado uma espécie de limbo na posição.

Os veteranos vivem bons momentos, os nomes do auge europeu oscilam, enquanto os goleiros mais jovens ainda parecem incompletos demais para assumir protagonismo absoluto.

O Brasil produziu nomes… mas faltou continuidade

Talvez o maior problema da Seleção nos últimos anos tenha sido justamente a falta de continuidade no desenvolvimento desses goleiros.

Lucas Perri chegou a aparecer como possibilidade muito interessante. Teve momentos excelentes, chamou atenção fisicamente e parecia ganhar espaço de forma natural no radar da Seleção, quem sabe para o futuro.

O mesmo vale para Kauã Santos, que durante algum tempo foi tratado como um dos projetos mais promissores da posição. Só que ambos acabaram perdendo força justamente quando parecia existir espaço para crescimento definitivo.

Kauã passou a viver momentos caóticos, perdeu estabilidade e saiu dos holofotes rapidamente. Lucas Perri segue interessante, mas ainda sem aquele peso competitivo que transforma um nome em unanimidade nacional. Junto com os dois, dá para lembrar de John também, que agora se encontra no futebol inglês, no Nottingham Forest, mas tem tido dificuldades para bater de frente com Matz Sels.

No fim das contas, o Brasil entra num cenário curioso: talvez exista quantidade na posição, mas falta um goleiro que realmente imponha sensação de segurança absoluta para a torcida e para a comissão técnica. E quando isso acontece, a tendência é que técnicos procurem estabilidade emocional antes de qualquer outra coisa.

Por isso, a convocação de Weverton pode até parecer conservadora num primeiro olhar. Mas analisando todo o cenário atual dos goleiros brasileiros, ela acaba fazendo muito mais sentido do que parece nas redes sociais.

Foto: Lucas Uebel/Grêmio