Há cinco anos, o Wrexham deixou de ser apenas um clube tradicional do futebol galês-inglês para virar um fenômeno global. O dia 9 de fevereiro de 2021 entrou para a história quando Ryan Reynolds e Rob McElhenney, dois astros de Hollywood, oficializaram a compra da equipe após aprovação quase unânime do Wrexham Supporters Trust. De lá para cá, o que aconteceu parece roteiro de série e, de certa forma, acabou sendo mesmo.
Três acessos consecutivos, estádio reformado, milhões de novos fãs ao redor do mundo e uma ambição que já não se contenta com limites regionais, simplesmente tomaram um tamanho inimaginável. O Wrexham virou um case raro de crescimento esportivo e estrutural andando de mãos dadas. Não foi só subir divisões; foi reconstruir um clube inteiro.
Muito além das quatro linhas
Dentro de campo, os números impressionam. Mas fora dele, a transformação é tão relevante quanto. Quem frequenta o Stok Cae Ras, o estádio internacional mais antigo do mundo ainda em uso contínuo, percebeu mudanças visíveis nos últimos anos. A icônica Kop Stand, abandonada por 16 anos, foi finalmente demolida em 2023. No lugar, veio um plano ambicioso.
Durante a temporada 2024/25, uma arquibancada provisória para cerca de 3 mil torcedores foi utilizada. Agora, as obras da nova estrutura permanente estão a todo vapor. A futura Kop terá capacidade para 7.500 pessoas, elevando o total do estádio para 18 mil lugares, com conclusão prevista para o início de 2027. Para um clube que até pouco tempo brigava para sobreviver, é um salto e tanto.
Nem tudo, porém, é perfeito. O Wrexham ainda não possui um centro de treinamentos próprio. O elenco divide suas atividades entre o Colliers Park, o Carden Park e o The Rock, este último já pertencente ao clube. Mesmo assim, o nível de profissionalismo subiu, e muito. Logística de viagens, alimentação e até voos fretados para jogos fora de casa passaram a fazer parte da rotina.
“A diferença é enorme”, resumiu Ben Tozer, ex-capitão e peça-chave em dois acessos. “Mesmo sem termos tudo o que queremos, a infraestrutura melhora todo ano. O jogador se sente mais valorizado, mais cuidado.”
Crescimento que não para no time principal
O impacto da nova gestão não se limita ao elenco masculino profissional, foi entendido que não é importante apenas dar foco ao resultado final, é preciso olhar a raiz. Com isso, a base ganhou atenção inédita, com nomes como Gus Williams e Craig Knight liderando o processo de formação. A ideia é clara: produzir talentos em casa para sustentar o projeto a longo prazo.
No futebol feminino, a evolução foi ainda mais visível. Quando Reynolds e McElhenney chegaram, o time disputava a Adran North, a segunda divisão do País de Gales. Hoje, briga diretamente pelo título da Adran Premier e por uma vaga em competições europeias. Como cereja do bolo, enfrenta o Cardiff City, atual campeão, na final da Adran Trophy, marcada para 22 de fevereiro.
Para quem saiu e voltou, o choque é real. “Estou empolgado demais ao ver onde o clube chegou”, disse Davis Keillor-Dunn, recém-contratado após seis anos longe. “Dá para ver o trabalho sendo recompensado dentro de campo.”
A era Phil Parkinson e os acessos em série
Pouco mais de três meses após a compra do clube, o técnico Dean Keates deixou o cargo. Em seu lugar, chegou Phil Parkinson, o homem que virou sinônimo de sucesso em Wrexham. O começo teve bastante dor, uma derrota cruel por 5 a 4 para o Grimsby Town nos playoffs, mas o resto virou história.
Em 213 jogos de liga, Parkinson soma 125 vitórias, 51 empates e apenas 37 derrotas, com 407 gols marcados. Conta com uma média exata de dois pontos por jogo e quase dois gols por partida. Números de videogame.
Em 2025, o clube voltou à segunda divisão inglesa após 43 anos, tornando-se o primeiro time da história da Football League a conquistar três acessos consecutivos. Para encarar a Championship, o Wrexham quebrou seu próprio recorde de transferências três vezes em um único verão, contratando Liberato Cacace, Lewis O’Brien e Nathan Broadhead.
E a mensagem é clara: não é para parar por aqui.
Wrexham vai do anonimato ao estrelato global
Talvez o dado mais simbólico dessa revolução esteja fora do gramado. Antes da chegada dos donos hollywoodianos, o Wrexham tinha 41 mil seguidores no Instagram. Hoje, são 1,5 milhão. A marca do clube explodiu, e junto com ela, seu valor de mercado. Se apresenta como um dos investimentos mais interessantes do momento, ainda mais por tudo o que a história dele até o momento, contou.
Estimado atualmente em £350 milhões, o clube valorizou incríveis 17.400% em relação aos £2 milhões investidos em 2021. Um número que explica por que esse projeto chama tanto a atenção no futebol mundial.
Para Max Cleworth, um dos poucos sobreviventes de todas as divisões nessa jornada com o Wrexham, o sentimento é simples. “Nunca imaginei estar no Championship cinco anos depois”, disse o defensor. “Tem sido uma viagem insana.”
E, ao que tudo indica, essa história ainda está longe do último episódio. Porque no Wrexham de hoje, sonhar alto deixou de ser exagero, virou rotina.
Foto: Getty Images