Copa do Mundo de Clubes Futebol

Wydad Casablanca: o time onde a lenda de Walid Regragui nasceu

O futebol africano tem nomes que ultrapassam fronteiras. E entre eles, poucos carregam tanta tradição e peso histórico quanto o Wydad Casablanca. Prestes a disputar a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, o clube marroquino entra em campo não apenas como representante de seu país, mas como símbolo de uma escola de futebol marcada pela garra, pela identidade coletiva e pelo sonho de competir entre os melhores do mundo.

Fundado em 1937, o Wydad surgiu em um contexto político tenso, durante o protetorado francês no Marrocos. Criado originalmente como um clube de natação, rapidamente se transformou em um time de futebol popular, tornando-se um símbolo de resistência e orgulho nacional. Desde então, a equipe acumulou conquistas e se consolidou como uma das mais vitoriosas do país.

Hoje, o Wydad ostenta 22 títulos do Campeonato Marroquino, além de nove conquistas da Taça do Trono. Mas foi no cenário africano que o clube realmente gravou seu nome entre os grandes, com três títulos da Liga dos Campeões da CAF, em 1992, 2017 e 2022, e uma Recopa Africana em 2002. Jogar no Estádio Mohammed V, diante de uma torcida que vive o futebol como religião, transforma qualquer partida em Casablanca em um caldeirão.

Walid Regragui e o renascimento do Wydad Casablanca

Boa parte do respeito que o Wydad voltou a conquistar nos últimos anos se deve à passagem marcante de Walid Regragui. O ex-lateral da seleção marroquina assumiu o comando técnico do clube em 2021 e, em menos de um ano, revolucionou o time. Com uma abordagem tática rigorosa, foco defensivo e um estilo de jogo disciplinado, Regragui conquistou a confiança da torcida e dos jogadores.

Sob sua liderança, o Wydad venceu o Campeonato Marroquino e, mais importante, levantou a taça da Liga dos Campeões da CAF de 2022, derrotando o poderoso Al Ahly do Egito na final. Foi um feito gigante, que marcou o fim de um jejum continental e reafirmou a força do clube no cenário africano.

A campanha vitoriosa foi também a consagração de Regragui como técnico. Pouco depois do título continental, ele foi convidado a assumir a seleção marroquina, e o resto virou história. Na Copa do Mundo do Catar, o Marrocos, sob seu comando, chegou à semifinal, eliminando Espanha e Portugal e encantando o mundo com um futebol tático, intenso e confiante. Nunca antes uma seleção africana havia chegado tão longe.

Mas tudo começou no Wydad. A base do estilo competitivo de Regragui, sua liderança e sua leitura de jogo foram lapidadas ali, na pressão dos clássicos contra o Raja, nas viagens difíceis da Liga dos Campeões, no contato direto com o futebol popular do norte da África.

Preparação para a Copa do Mundo de Clubes

Agora, com Regragui já consolidado como herói nacional, o Wydad volta aos holofotes. A equipe está confirmada na Copa do Mundo de Clubes. Pela primeira vez, o torneio contará com 32 equipes, divididas em grupos, um formato que o aproxima mais de uma Copa do Mundo de seleções do que do tradicional Mundial de Clubes.

O Wydad caiu em um grupo duríssimo, o Grupo G, ao lado de Manchester City, Juventus e Al Ain. O favoritismo é claro: City e Juve têm elencos estrelados e bagagem europeia de sobra. Mas o futebol raramente respeita apenas o papel.

A equipe marroquina aposta na união, na disciplina e em jogadores com experiência regional. O técnico atual, Mohamed Amine Benhachem, tem buscado dar nova identidade ao time. Entre os destaques, aparecem nomes como o experiente Nordin Amrabat, e o meia Ismail Moutaraji. A defesa continua sendo o ponto mais sólido do elenco, herança clara da era Regragui.

Realidade e ambição

É claro que a missão do Wydad não será fácil. Estrear contra o Manchester City, um dos elencos mais profundos do futebol mundial, com nomes como Phil Foden, Bernardo Silva e Haaland, será um teste brutal. A Juventus, com sua tradição italiana e uma geração renovada, também promete ser um osso duro de roer. E o Al Ain, dos Emirados Árabes, campeão asiático e acostumado com competições internacionais, não pode ser subestimado.

Mas o Wydad já mostrou que sabe competir. A pressão popular é alta, a torcida exige entrega total, e o clube leva consigo uma responsabilidade que ultrapassa as quatro linhas. Representar o Marrocos, representar a África — isso pesa. E o elenco sabe disso.

A ida do Wydad à Copa do Mundo de Clubes é mais do que um feito esportivo. É um reflexo do crescimento do futebol africano, da profissionalização dos clubes do norte do continente e da paixão de torcidas que não ficam devendo nada a nenhuma do mundo.

Independentemente dos resultados, o Wydad Casablanca chega ao torneio como símbolo de resistência, história e ambição. Em meio a superclubes com orçamentos milionários, a equipe marroquina entra como o azarão com alma de gigante. E às vezes, no futebol, isso é o suficiente.

(Foto: Getty Images)