A chegada de Xabi Alonso ao comando técnico do Real Madrid promete ser um divisor de águas no estilo do time merengue. Se com Carlo Ancelotti a equipe prezava por um pragmatismo eficiente e por um jogo baseado no talento individual e na força das transições, com Xabi teremos um cenário bem diferente: mais controle, mais ideia coletiva e uma pressão sufocante como princípio.
O que não deve mudar é o esquema-base, o famoso 4-3-3. Mas se o desenho tático permanece, o conteúdo dentro desse desenho será completamente reescrito. Xabi Alonso vem para dar uma cara nova ao jogo do Real, fugindo do caos controlado que tanto caracterizou os últimos anos com Ancelotti e propondo uma organização meticulosa, quase científica. Não é exagero: poucos treinadores hoje representam tão bem a evolução tática do futebol europeu como o técnico basco.
Xabi Alonso: um técnico moldado pela elite do futebol
Como jogador, Xabi Alonso foi um meio-campista cerebral e elegante, daqueles que controlavam o ritmo e sabiam ler o jogo como poucos. E ele soube absorver tudo ao seu redor: aprendeu com Rafa Benítez, se organizou com Arrigo Sacchi como referência, amadureceu com Ancelotti, e teve Guardiola como o professor que o ajudou a entender as estruturas mais modernas do jogo posicional. Sob o comando de Pep no Bayern, Xabi começou a observar o futebol com os olhos de um técnico. E desde que assumiu o Bayer Leverkusen, aplicou esses conceitos com maestria.
Não à toa, seu Leverkusen encantou a Europa: campeão invicto da Bundesliga, dono de uma das defesas mais sólidas e com um ataque versátil, construído a partir da bola e da pressão alta. Essa identidade é exatamente o que ele vai tentar trazer para o Santiago Bernabéu.
Mesma formação, outro estilo
Com Ancelotti, o Real Madrid era um time camaleônico. O 4-3-3 inicial se desdobrava em um 4-4-2 para defender, e em um losango no meio para dar liberdade a Jude Bellingham, o grande protagonista da temporada passada. O plano era simples: atrair o rival, explorar os espaços com transições rápidas e confiar no brilho de nomes como Vinicius, Mbappé ou Rodrygo.
Com Xabi Alonso, a proposta será outra. A equipe seguirá com o 4-3-3, mas o funcionamento será muito mais coordenado. A posse de bola será tratada como ferramenta de ataque e defesa. O time passará a ser proativo com a bola, buscando criar vantagens através do meio-campo com passes curtos e movimentações coordenadas — menos liberdade caótica, mais automatismos coletivos.
Onde antes se esperava o erro do adversário, agora o Real de Xabi buscará provocar esse erro, seja com a bola ou pressionando sem ela.
A pressão: a essência do sistema
Se há um aspecto inegociável no modelo de Xabi Alonso, é a pressão organizada. No Leverkusen, esse era o ponto de partida: cada ação ofensiva era pensada também em como recuperar a bola no caso de perda. O ataque já era estruturado com base na recuperação pós-perda.
Enquanto o Real de Ancelotti fazia cerca de 11,76 ações de pressão por jogo, o Leverkusen de Xabi chegava a 15,79 (segundo dados da Comparisonator), o que representa um aumento de 34%. E a pressão de Xabi é milimétrica: o foco é fechar o centro do campo, forçar o adversário para as laterais e ali ganhar o duelo individual. Um jogo que exige físico, concentração e sincronia.
Mudança sem revolução no elenco
Até agora, o Real Madrid sob Xabi Alonso não promoveu grandes mudanças no elenco. Os principais reforços foram o lateral Alexander-Arnold e o zagueiro Dean Huijsen — ambos com características que se encaixam no modelo: boa saída de bola e inteligência posicional.
A saída de Modrić, prevista para depois do Mundial de Clubes, será uma perda simbólica e técnica. O croata foi sinônimo de classe e visão por mais de uma década, e agora o clube terá que buscar no mercado um substituto com perfil de organizador — alguém capaz de ser o cérebro no meio-campo, algo vital para o estilo que Xabi quer implementar.
Além disso, o novo treinador terá missões internas importantes: recuperar a melhor versão de Camavinga e reacender o protagonismo de Rodrygo. O francês tem físico e inteligência para se tornar um pilar no esquema, mas ainda oscila. Já o brasileiro, que perdeu espaço na reta final da temporada, precisa se adaptar à nova ideia de jogo e mostrar que pode entregar consistência.
O desafio de assumir o maior palco do mundo
Xabi Alonso assume o comando do maior clube do mundo em um momento de transição. Ele não vem para revolucionar, mas para refinar, para dar um salto tático e construir um time que seja dominante com e sem a bola. Não se trata de uma reconstrução completa, mas sim de um Real Madrid com alma renovada.
Os olhos estarão todos sobre ele — e não vai faltar pressão. Mas se alguém tem bagagem, visão e coragem para mudar a forma como o Real Madrid joga, esse alguém é Xabi Alonso. E o futuro do Bernabéu promete ser muito mais do que vitórias: promete um futebol com assinatura.