Os dois camisas 10 da Juventus podem compartilhar algumas semelhanças, especialmente no modo como começaram a se firmar no time, mas comparações diretas soam, no mínimo, precipitados. Ainda que inevitáveis paralelos sejam traçados, principalmente por ambos terem brilhado contra o Borussia Dortmund e pelas recorrentes referências ao número da camisa, à posição em campo, ao talento técnico e até às comemorações memoráveis —, Kenan Yildiz tratou de deixar sua marca logo em sua estreia nesta edição da UEFA Champions League.
Foi mais um capítulo precioso em sua curta carreira, novamente diante de adversários alemães, com um gol de rara precisão e potência, que lembrou o estilo de Alessandro Del Piero. Mas é importante parar por aí: as comparações não fazem justiça a nenhum dos dois lados dessa história.Yildiz, até aqui, ainda não construiu o suficiente para ser colocado ao lado de uma lenda eterna da memória coletiva da Juventus e do futebol mundial. Da mesma forma, o ex-atacante da Seleção Italiana, por tudo o que conquistou na Juventus, não pode ser nivelado a uma promessa em ascensão.
O turco é, sim, um jogador de enorme potencial na Velha Senhora, mas ainda distante do patamar de um campeão consolidado. A pressão das comparações, longe de ajudar, só pesa sobre os ombros de um garoto de 2005 que, aos poucos, vem guiando uma Juventus que ainda busca identidade, consistência e autoconfiança no longo prazo. Um camisa 10 com carisma e atrevimento, capaz de iluminar o campo, mas diferente de Del Piero, campeão do mundo em 2006.
Entre tantas tentativas de identificar semelhanças, talvez a única que realmente mereça atenção seja a de personalidade. Assim como Del Piero, que chegou a Juventus para tomar o espaço e a camisa de Roberto Baggio em tempo recorde, Yildiz mostrou, sob o comando de Allegri, depois Thiago Motta e agora Igor Tudor, uma ousadia quase natural de quem se sente predestinado, sem temer as hierarquias. Evolui a cada jogo, ampliando repertório, arriscando novas soluções e demonstrando polivalência em campo.
Na Juventus, Yildiz começou como ponta, mas seus números (18 gols e 15 assistências) já o aproximam mais de um segundo atacante, capaz de circular por toda a faixa ofensiva e de se conectar com os companheiros. Exemplos não faltam: o gol central contra a Inter e a assistência precisa para Vlahovic diante do Dortmund. É uma trajetória que lembra, em parte, a de Del Piero, que surgiu em um 4-3-3 de Lippi e se transformou em um “9 e meio”, acumulando 209 gols com a camisa bianconera. Ainda assim, a semelhança para por aí.
O futebol mudou, e com ele as exigências físicas. Se Del Piero, com pouco mais de 1,70m, sempre se destacou pela classe e não pela força, Yildiz, com quase 1,90m, alia técnica refinada a vigor físico e velocidade explosiva, características essenciais no jogo moderno. Pinturicchio foi pura elegância, especialmente após a grave lesão de 1998, quando passou a atuar mais próximo da área. Yildiz, por sua vez, mostra hoje ser um jogador decisivo, próximo de atacantes como Vlahovic ou David, mas também com capacidade para cair pelo meio e ditar jogadas, inclusive contribuindo defensivamente.

Kenan Yildiz brilha no empate entre Juventus e Dortmund
O duelo entre Juventus e Borussia Dortmund pela fase de liga da UEFA Champions League, teve em Kenan Yildiz um de seus protagonistas. O jovem atacante turco abriu o placar e foi peça-chave em várias jogadas ofensivas da Velha Senhora. Nas redes sociais, a torcida bianconera exaltou sua atuação, colocando-o entre os mais elogiados do elenco no empate conquistado nos acréscimos com gol de Lloyd Kelly.
Além de Yildiz, Dusan Vlahovic foi determinante para a Juventus: marcou nos instantes finais e ainda deu a assistência para o gol de Kelly. Manu Locatelli, vindo do banco, também mudou o panorama do jogo ao reforçar a marcação e dar equilíbrio ao meio-campo. Já entre os pontos negativos, nomes como Bremer, Di Gregorio e Kalulu saíram criticados pelas falhas que permitiram ao Dortmund equilibrar a partida.
O melhor de Kenan Yildiz ainda está por vir na Juventus mas, por ora, convém deixar as comparações com Del Piero apenas nos gestos icônicos: os chutes com efeito, a língua para fora e a mítica camisa 10.

Yildiz sonha em se imortalizar como Del Piero e recolocar a Juventus no topo
A Juventus sempre construiu sua identidade em torno de ídolos, e a camisa 10 tem um peso histórico inigualável. De Platini a Baggio, até Del Piero, que transformou o número em símbolo de classe e títulos. Agora, Kenan Yildiz, talento turco-alemão de apenas 20 anos, busca escrever seu próprio legado na Velha Senhora, em busca de voltar a conquistar o Scudetto, inspirando-se no eterno capitão bianconero.
Nos últimos meses, o jovem se firmou como uma das principais promessas da equipe. Técnico, veloz e criativo, aceitou o desafio de carregar a camisa mais pesada do clube e demonstra personalidade para assumir protagonismo em um time que vive um processo de reconstrução. Em uma era de altos e baixos, Yildiz surge como um dos pilares que podem devolver competitividade e identidade à Velha Senhora.
As comparações com Del Piero se explicam não apenas pelo talento, mas também pela necessidade de referência que a Juventus sente hoje — exatamente o que o ídolo representou por quase 20 anos. A comissão técnica vê em Yildiz um elo entre meio e ataque, alguém capaz de destravar defesas e oferecer a imprevisibilidade que o time perdeu em temporadas recentes.
Ainda assim, os especialistas pedem calma. Del Piero também levou tempo para se firmar e virou lenda apenas com a soma dos anos. Mas no Allianz Stadium a sensação é clara: Yildiz pode devolver brilho à camisa 10 e tornar-se o novo rosto da Juventus. Se atingirá a imortalidade do ídolo, só o tempo dirá. O certo é que hoje ele representa esperança de títulos e de identidade para um clube que sempre viveu de grandes craques.
(Foto: Getty Images)