A conquista da Copa do Mundo de 2026 colocou a Espanha novamente no topo do futebol mundial. Mas o que mais chamou atenção ao longo da campanha foi a quantidade de coincidências com o título conquistado em 2010. Do tropeço na estreia ao gol da vitória na prorrogação da final, o caminho percorrido por La Roja pareceu seguir um roteiro já conhecido.
O que começou como uma curiosidade virou um festival de paralelos. Em vários momentos, a campanha comandada por Luis de la Fuente lembrou a de Vicente del Bosque na África do Sul. E, para os mais supersticiosos, parecia que a história estava destinada a se repetir.
Tropeço na estreia e confiança do treinador marcaram o início da caminhada

Assim como aconteceu em 2010, a Espanha iniciou sua campanha cercada por dúvidas. Há 16 anos, a derrota por 1 a 0 para a Suíça gerou fortes críticas a Vicente del Bosque, principalmente pela escolha do meio-campo e pela aposta em Sergio Busquets. O treinador respondeu de forma categórica e encerrou a discussão ao afirmar que, se voltasse a jogar futebol, gostaria de ser como Busquets.
Em 2026, o cenário foi parecido. O empate sem gols diante de Cabo Verde, na estreia, também provocou questionamentos sobre as escolhas de Luis de la Fuente. O técnico foi criticado por levar atletas sem a melhor condição física e pela utilização de alguns jogadores ainda em recuperação.
A resposta, no entanto, foi tão firme quanto a de Del Bosque anos antes.
“A primeira coisa que vou fazer amanhã é pendurar um cartaz dizendo que estamos há 32 jogos oficiais sem perder. Estamos no caminho certo.”
Depois do susto inicial, a seleção deslanchou. Se em 2010 a reação começou com um 2 a 0 sobre Honduras, desta vez veio com uma goleada por 4 a 0 diante da Arábia Saudita. Na terceira rodada, outro detalhe curioso: o adversário voltou a ser uma seleção comandada por Marcelo Bielsa. Em 2010 era o Chile; agora, o Uruguai. O resultado? Mais uma vitória por 1 a 0 e a classificação garantida.
Até fora das quatro linhas as coincidências apareceram. Assim como aconteceu na África do Sul com o icônico Waka Waka, a música oficial da Copa voltou a ser interpretada por Shakira. Desta vez, a cantora colombiana embalou o torneio com Dai Dai.
Mata-mata repetiu adversários, heróis e momentos decisivos

As semelhanças continuaram no mata-mata. Nas oitavas de final, Portugal voltou a cruzar o caminho da Espanha. Em 2010, David Villa marcou o gol da classificação após jogada iniciada por Fernando Llorente. Em 2026, dois reservas decidiram novamente: Ferran Torres encontrou Mikel Merino, que balançou as redes e colocou La Roja nas quartas.
A fase seguinte também trouxe um enorme susto. Na campanha da África do Sul, o Paraguai desperdiçou um pênalti defendido por Iker Casillas. Desta vez, a Bélgica foi quem conseguiu colocar a Espanha contra as cordas. Charles De Ketelaere marcou o primeiro — e único — gol sofrido pela equipe em toda a Copa, encerrando a longa sequência de invencibilidade de Unai Simón.
Quando a prorrogação parecia inevitável, apareceu novamente Mikel Merino. O volante aproveitou o rebote de um chute de Pau Cubarsí, que escapou das mãos de Senne Lammens, para marcar o gol da classificação nos minutos finais.
Ao longo da campanha, a Espanha também contou com outro ingrediente comum em torneios longos: uma dose de sorte. Diversos adversários importantes chegaram desfalcados ou perderam jogadores durante a competição, casos de Nuno Mendes, Tielemans, Courtois, William Saliba, Lisandro Martínez e Cristian Romero. Em uma Copa do Mundo, esses detalhes muitas vezes fazem diferença.
Uma final que parecia escrita pelo destino

O último capítulo foi, talvez, o mais simbólico de todos. Assim como na final de 2010 contra a Holanda, a decisão de 2026 terminou empatada sem gols nos 90 minutos. O duelo contra a Argentina foi marcado por muita intensidade e entradas duras, lembrando o confronto disputado em Joanesburgo.
Desta vez, porém, o árbitro não repetiu a tolerância de Howard Webb na famosa entrada de Nigel de Jong sobre Xabi Alonso. Slavko Vinčić expulsou Enzo Fernández após o segundo cartão amarelo, deixando os argentinos com um jogador a menos na prorrogação.
E, novamente, o título foi decidido no tempo extra. Se em 2010 Andrés Iniesta marcou aos 116 minutos após assistência de Cesc Fàbregas, em 2026 foi Ferran Torres quem entrou para a história ao aproveitar a assistência de Nico Williams e balançar as redes aos 106 minutos.
A Espanha conquistava seu segundo título mundial repetindo um roteiro que parecia improvável de ser reproduzido. Da estreia sem vitória ao gol decisivo na prorrogação da final, passando pelos adversários, pelos momentos de tensão e pelos heróis improváveis, a campanha de 2026 acabou se tornando um espelho quase perfeito daquela que, 16 anos antes, mudou para sempre a história do futebol espanhol.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Diario As