Haaland marcou gol do Manchester City
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O segredo do Manchester City: 650 mil jogadores analisados para reduzir erros no mercado; entenda

O Manchester City transformou o uso de dados em uma das principais ferramentas para reconstruir seu elenco nos últimos anos. Dentro do clube, existe uma pergunta que guia boa parte do trabalho realizado pelos analistas: “O que é necessário para vencer?”.

A partir dela, o processo é dividido em três etapas principais: identificar jogadores, avaliá-los e entender como eles poderiam evoluir dentro do City. O objetivo final é simples: aumentar as chances de a equipe continuar disputando e conquistando a Premier League.

Depois da Tríplice Coroa de 2023, o elenco passou por uma enorme reformulação. Apenas quatro jogadores daquela campanha histórica permanecem atualmente, e boa parte das decisões tomadas desde então teve influência direta do sofisticado departamento de dados do clube.

Manchester City começa busca em base com 650 mil jogadores

O ponto de partida para qualquer contratação é um banco de dados com aproximadamente 650 mil jogadores espalhados pelo mundo.

Antes de começar a filtragem, o City define exatamente qual perfil deseja. Mesmo uma posição aparentemente simples, como lateral, pode ter diferentes classificações. O clube separa, por exemplo, laterais mais defensivos, jogadores que atuam por dentro e aqueles que avançam abertos pelo corredor.

Com o perfil definido, os analistas aplicam filtros relacionados à qualidade geral, características individuais e ao sistema no qual cada atleta está inserido. A lista inicial de 650 mil nomes pode cair para algo entre 20 e 50 opções.

Os dados são então comparados com as observações feitas pelos olheiros tradicionais. Segundo o diretor esportivo Hugo Viana, a tecnologia tem papel importante, mas não substitui o trabalho humano.

Informações sobre personalidade, mentalidade e comportamento, por exemplo, não podem ser completamente explicadas através de números. Por isso, o City combina os dois métodos antes de avançar por qualquer jogador.

Processo reduz lista até chegar aos principais alvos

Depois da primeira filtragem, os candidatos passam por análises ainda mais detalhadas.

O clube avalia histórico de lesões, desempenho físico e comportamento, além de criar relatórios individuais chamados de “acquisition packs”. Esses documentos reúnem praticamente todas as informações importantes antes de uma possível contratação.

Entre elas está um gráfico que mede características específicas de cada jogador.

Quando Jeremy Doku foi contratado em 2023, por exemplo, Pep Guardiola queria um ponta mais direto, semelhante a Leroy Sané. Na época, Jack Grealish e Riyad Mahrez eram jogadores mais voltados para a posse e para movimentos interiores.

O City analisou Doku com critérios como entrada na área, recuperação após pressão, eficiência nos dribles e intensidade da marcação no campo adversário.

Desde sua chegada, algumas dessas métricas melhoraram, algo que o clube também utiliza para medir sua capacidade de desenvolver jogadores depois da contratação.

Cada atleta ainda recebe uma pontuação de impacto imediato e outra relacionada ao potencial futuro.

Ao final do processo, a lista geralmente cai para dois ou três nomes. Só então o preço de mercado ganha peso decisivo na escolha.

Elliot Anderson mostra como City interpreta os números

A contratação de Elliot Anderson por £116 milhões é um dos melhores exemplos de como o Manchester City utiliza dados sem depender exclusivamente deles.

O meio-campista vinha se destacando pelo Nottingham Forest e já era jogador da seleção inglesa, mas seus números inicialmente não chamavam tanta atenção dentro dos algoritmos do City.

Isso acontecia porque o contexto do Forest era muito diferente.

Anderson atuava em uma equipe que tinha menos posse de bola e passava grande parte das partidas mais próxima da própria área. No Manchester City, a tendência seria atuar mais avançado, com maior controle da posse e cercado por jogadores de nível técnico superior.

Os analistas precisaram então interpretar os números considerando esse cenário.

Foram observados indicadores como recuperações defensivas, duelos vencidos, passes que quebram linhas, disputas aéreas e erros defensivos.

Algumas perdas de bola, por exemplo, aconteciam porque Anderson precisava tentar passes longos e arriscados após recuperar a posse em regiões baixas. No City, ele provavelmente teria opções mais próximas para uma saída curta.

Ao longo da temporada, suas métricas melhoraram e os olheiros começaram a acompanhá-lo cada vez mais. No fim, o clube concluiu que o risco da contratação era baixo, mesmo com o preço aumentando.

Julián Álvarez foi grande exemplo de oportunidade de mercado

O trabalho com Julián Álvarez também mostra como os dados podem ajudar o City a encontrar jogadores subvalorizados.

Quando o argentino ainda estava no River Plate, a primeira indicação veio dos olheiros. Como ele não havia aparecido naturalmente entre os principais nomes dos algoritmos, o departamento de dados realizou uma análise específica.

O Campeonato Argentino não possuía o mesmo peso estatístico das cinco principais ligas europeias, o que limitava naturalmente a avaliação inicial de Álvarez.

Ao aprofundar os números, porém, o City concluiu que ele era claramente um dos melhores jogadores da competição e tinha potencial para se tornar titular em uma equipe importante da Europa em cerca de dois anos e meio.

O modelo do clube avaliava Álvarez entre £26 milhões e £40 milhões.

O Manchester City pagou apenas £14 milhões.

A projeção também indicava que seu valor poderia chegar a aproximadamente £70 milhões em três anos. Em 2024, o atacante acabou vendido ao Atlético de Madrid por £81 milhões.

Dados também ajudam City a saber quando vender

O sistema não serve apenas para contratar.

O Manchester City também usa métricas para identificar tendências de queda de rendimento com dois ou três anos de antecedência.

Isso ajudou o clube a planejar a saída de nomes importantes da era da Tríplice Coroa, como Kevin De Bruyne, Kyle Walker, Riyad Mahrez e İlkay Gündoğan.

Mesmo quando esses jogadores ainda apresentavam bom nível, o City já conseguia identificar sinais de que seria necessário preparar sucessores.

A partir daí, o clube decide se utilizará jogadores da base ou buscará alternativas no mercado.

A contratação de Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, é um exemplo dessa estratégia. O City não espera necessariamente impacto imediato, mas acredita que o jovem poderá assumir papel muito maior em aproximadamente dois anos.

Saída de Guardiola não muda filosofia do clube

A troca de Pep Guardiola por Enzo Maresca também não alterou profundamente o funcionamento do departamento de dados.

Os dois treinadores possuem ideias semelhantes sobre posse de bola, pressão alta e recuperação rápida no campo adversário. A principal diferença é que Maresca prefere laterais com comportamento mais direto.

A filosofia do clube, porém, existe independentemente do treinador.

O Manchester City busca técnicos capazes de montar equipes dominantes com a bola, agressivas na pressão e capazes de produzir chances de qualidade.

Depois de 2023, uma das principais missões foi reduzir a idade média do elenco sem abandonar a obrigação de disputar títulos.

Hoje, o City possui o terceiro elenco mais jovem da Premier League, atrás apenas de Newcastle e Chelsea.

Ao mesmo tempo, trouxe jogadores como Gianluigi Donnarumma, Marc Guehi, Enzo Fernández e Elliot Anderson, que ainda possuem margem para evoluir, mas já contam com experiência no mais alto nível.

Os dados internos indicam que o atual elenco deverá atingir seu auge apenas daqui a dois ou três anos.

Mesmo assim, as projeções do Manchester City apontam para uma equipe capaz de disputar o título da Premier League já nesta temporada.

O banco de 650 mil jogadores não escolhe sozinho quem será contratado. Mas, combinado ao trabalho dos olheiros, permite ao clube reduzir riscos, antecipar movimentos do mercado e construir um elenco pensando não apenas no presente, mas também nas próximas temporadas.

Foto: Reprodução/Manchester City