Fórmula 1 Bearman acidente GP do Japão
Automobilismo Fórmula 1

Temporada 2026 da Fórmula 1 tem semelhanças perigosas com 1994

O acidente de Oliver Bearman no GP do Japão de 2026 foi, para alguns, a gota d’água em relação ao novo regulamento da Fórmula 1. Os avisos e críticas de pilotos como Carlos Sainz e Max Verstappen se materializaram em uma batida estimada em 50 vezes a força da gravidade. O britânico saiu apenas mancando do carro, diferente do fim trágico que tiveram Ayrton Senna e Roland Ratzenberger em 1994, além de outros pilotos afetados por uma temporada que, em muitos aspectos, se assemelha à atual.

Os avisos sobre segurança feitos pelos pilotos foram ignorados pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo) naquela trágica temporada, e o mesmo cenário volta a aparecer em 2026. Felizmente para Bearman, os padrões de segurança atuais da Fórmula 1 são muito superiores aos da época, o que o poupou de algo mais grave do que uma lesão no joelho. Ainda assim, isso não significa que esteja tudo bem.

Fórmula 1 precisa dar mais ouvidos às críticas

Fórmula 1 Carlos Sainz Jr
Foto: Reprodução/Fórmula 1

Carlos Sainz Jr. foi o mais ativo e vocal nas críticas à segurança do novo regulamento. Diretor da GPDA, entidade que funciona como um sindicato dos pilotos, o espanhol foi além das observações mais puristas de Verstappen e Alonso sobre a Fórmula 1 de 2026 e apontou diretamente os riscos trazidos pelas mudanças.

A categoria se mostrou, neste início de temporada, aberta a ajustes caso julgue necessário para melhorar a competição. Na prática, porém, a única intervenção da FIA foi em uma questão menor, ligada apenas ao aspecto esportivo, ao tornar mais rígida a fiscalização das taxas de compressão.

Quando o debate passou a ser mais estrutural e atingiu a filosofia sustentável implantada em 2026, pouco foi feito para corrigir os problemas.

A busca por energias limpas foi o que motivou a entrada da Audi na categoria, mas o custo dessa escolha está se mostrando mais alto do que se imaginava. Se no início da temporada a principal crítica era a de que o campeonato caminhava para se tornar uma Fórmula E, agora a integridade física dos pilotos passou a ser a principal preocupação.

1994: Teimosia da FIA em considerar opinião dos pilotos se repete

Fórmula 1 1994 Wendlinger acidente
Foto: Reprodução/Projeto Motor

A resistência da Fórmula 1 em mexer na essência do novo regulamento não é exclusiva de 2026. Na última grande mudança, a partir de 2022, o chamado porpoising, com quicadas e oscilações nas retas causadas pelo retorno do efeito solo, tornou-se o principal problema para pilotos e equipes.

As consequências iam além da perda de desempenho. Pilotos, especialmente da Mercedes, então representada por Lewis Hamilton e George Russell, relataram dores nas costas. Houve protestos, mas poucas mudanças efetivas foram implementadas.

A diferença é que, apesar de afetar a saúde dos pilotos, o porpoising não representava riscos tão elevados quanto o superclipping de 2026. Por isso, é inevitável olhar 32 anos para trás, para o episódio mais triste da história do automobilismo.

Senna pagou com a vida em 1994 pela relutância da FIA em ouvir os alertas sobre segurança. E não foi por falta de aviso: cinco anos antes, Gerhard Berger sofreu um acidente semelhante ao do brasileiro na mesma curva Tamburello, em Ímola.

Naquele período, a instabilidade dos carros, causada pela retirada dos auxílios eletrônicos como controle de tração e câmbio semiautomático, contribuiu para uma das temporadas mais trágicas da história. Além de Senna e Ratzenberger, acidentes envolvendo Rubens Barrichello, também em Ímola, JJ Lehto e Karl Wendlinger aumentaram a tensão em um campeonato já marcado por polêmicas do início ao fim.

Claro que, três décadas depois, a Fórmula 1 evoluiu e passou a exigir padrões de segurança muito mais elevados, em parte impulsionada pelo impacto da perda de seu maior ícone. Ainda assim, relaxar na vigilância é abrir espaço para novas tragédias, o que colocaria nas mãos dos responsáveis o peso de ignorar sinais claros de perigo.

Como dito por Sainz, o britânico da Haas teve sorte de que Suzuka tenha uma área de escape larga e barreiras de proteção que absorvem bem o impacto, mas em pistas como Marina Bay (Singapura), Baku ou Las Vegas, o impacto poderia ter sido significativamente maior.

Há também o risco de um carro ser acertado em ‘T’ em pontos de difícil visibilidade, que foi a causa da última grande tragedia no paddock em 2019, quando Anthoine Hubert foi acertado na curva Radillon em uma corrida de Fórmula 2.

FOM tenta esconder a verdade, mas F1 2026 tem pontos críticos

Reprodução / Fórmula 1
Foto: Reprodução / Fórmula 1

Enquanto a pausa de um mês entre o GP do Japão e a próxima corrida, em Miami, serve para que pilotos, equipes e a organização analisem o cenário e projetem mudanças, a última impressão deixada para os fãs está longe de ser positiva.

Não foi apenas o acidente de Bearman. A geração de imagens da FOM (Formula One Management) também foi alvo de críticas, ao omitir o real impacto do superclipping na perda de velocidade dos carros, tanto em Suzuka quanto na etapa anterior, em Xangai.

A medida soa como uma tentativa de amenizar a situação e ganhar tempo até que ajustes sejam feitos, caso de fato ocorram. Ainda assim, a comunidade e os próprios competidores perceberam a estratégia e reagiram com críticas contundentes.

Se a solução passa por redistribuir a porcentagem de potência vinda das baterias ou por uma mudança mais profunda na filosofia do regulamento, cabe à FIA e à Fórmula 1 decidir. O que parece claro é que ignorar o problema significa expor os pilotos a riscos desnecessários, o que pode comprometer a credibilidade do campeonato e até levar à saída de seu principal nome recente, Verstappen.

(Foto principal: Reprodução/F1ingenerale)