A Ferrari chegou ao GP da Hungria cercada por uma expectativa considerável. Rivais afirmam que a equipe possui o chassi mais ágil da Fórmula 1, se não o melhor motor ou a melhor aerodinâmica e, por isso, era esperado que o SF-26 brilhasse em circuitos nos quais a velocidade em linha reta tem menos importância do que a capacidade de carregar alta velocidade nas curvas de baixa.
E, ainda assim, nem Lewis Hamilton nem Charles Leclerc conseguiram conquistar a pole position na Hungria. Mais surpreendente ainda, contrariando as expectativas, nenhum dos dois terminou no pódio no domingo.
Leclerc foi o mais rápido no TL1 de sexta-feira, antes de Hamilton liderá-lo em uma dobradinha da Ferrari no TL2. Porém, no TL3 e na classificação, os dois foram superados por Lando Norris, que acabaria vencendo a corrida. Hamilton foi quem chegou mais perto na classificação e na corrida, ficando apenas 0,012s atrás da pole position — mas acabou penalizado em três posições por atrapalhar Oscar Piastri na segunda volta rápida do piloto da McLaren.
No domingo, Hamilton largou em P5 com pneus macios, mas não teve uma saída suficientemente boa para superar Max Verstappen, da Red Bull, o que comprometeu sua corrida. Depois de conseguir realizar o undercut sobre Verstappen na parte final da prova, ele recebeu a instrução para fazer uma parada durante um período de Virtual Safety Car. A decisão lhe custou posição de pista para Verstappen e para Kimi Antonelli, da Mercedes, e os pneus macios usados que foram colocados naquela parada não foram suficientes para permitir que Hamilton ultrapassasse nenhum dos dois.
Uma penalização de 5 segundos por excesso de velocidade no pit lane o fez cair da quarta para a quinta posição na bandeirada, atrás de Leclerc.
Leclerc, que havia se classificado dois décimos atrás de Hamilton, afirmou que “o ritmo nunca esteve no nível do Lewis” naquela sessão. Ele largou em segundo no grid, também com pneus macios, mas caiu para trás de Piastri, Verstappen e Hamilton ainda na primeira volta e teve dificuldades para causar impacto durante o restante da prova.
O chefe da McLaren, Andrea Stella, afirmou que Norris “superou as expectativas” ao conquistar a pole position e disse que o chassi da McLaren ainda não estava no mesmo nível do da Ferrari. Então, como o carro que, teoricamente, deveria ser o mais forte no Hungaroring, considerando a importância da posição de pista, acabou sem chegar ao pódio?
Leclerc admite que Ferrari está vivendo uma tendência preocupante
Após a corrida, Leclerc chamou atenção para um padrão que a Ferrari precisa compreender. Nas três provas anteriores, a equipe havia conseguido resultados melhores justamente quando esperava enfrentar dificuldades, enquanto teve problemas no momento em que imaginava estar em vantagem. “Acho que o que está se destacando para mim é que, das últimas três corridas, houve duas em que esperávamos ter dificuldades e terminamos em primeiro e segundo”, disse Leclerc.
“E na corrida em que esperávamos ir bem, terminamos em quarto e quinto. Então, claramente existe uma tendência — e não é que um carro esteja indo bem porque ele [Lewis] está fazendo algo excepcionalmente bom no carro.” continuou o piloto.
“Quero dizer, os dois carros parecem ter essa tendência de serem bons no fim de semana em que esperávamos ter dificuldades e terem dificuldades no fim de semana em que pensávamos que seríamos bons. Então, isso precisa ser entendido. Também é verdade que, com uma boa largada hoje, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. Porque em uma pista como esta, não há muitas ultrapassagens.” finalizou Leclerc.
Estratégia e execução também prejudicaram a Ferrari
Houve, sem dúvida, falhas de execução, como destacou o chefe da equipe, Frederic Vasseur, em sua análise após a corrida. Nem Leclerc nem Hamilton tinham um jogo novo de pneus Pirelli médios disponível para a corrida, pois haviam utilizado esse composto na classificação. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois estava particularmente satisfeito com o comportamento do carro utilizando esses pneus durante o fim de semana.
Todos os outros pilotos que estavam na frente do grid começaram a corrida com pneus médios.
O SF-26 possui a reputação de ser agressivo com os pneus. Portanto, era esperado que o ritmo de corrida pudesse se tornar um problema ao largar com pneus macios em condições de 31°C de temperatura ambiente e 51°C de temperatura da pista.
Entretanto, os pneus macios, como a Pirelli já havia indicado na sexta-feira, estavam durando surpreendentemente bem. Verstappen, inclusive, completou a maior parte da corrida com um jogo de pneus macios usados que havia colocado no fim da volta 41.
Além disso, apesar dessa conhecida vulnerabilidade da Ferrari, a McLaren estava suficientemente preocupada com a ameaça de undercut de Hamilton, enquanto seus pilotos ocupavam as duas primeiras posições, para chamar Piastri aos boxes em resposta à primeira parada do britânico, que aconteceu no fim da volta 13 e envolveu a colocação de pneus duros.
Hamilton conseguiu realizar o undercut sobre Verstappen, mas voltou à pista atrás do VCARB de Liam Lawson. Em seguida, o holandês aproveitou o momento para ultrapassá-lo enquanto Hamilton passava por Lawson. O próprio Hamilton admitiu que “não viu o Max chegando”. E, como também reconheceu, “minha corrida começou a desandar a partir dali”.
Parada final de Hamilton aumenta os problemas
A parada final custou posição de pista a Hamilton e também esteve longe de ser perfeita. O piloto travou os pneus ao entrar no box e não parou exatamente em sua marca, o que atrasou a troca das rodas. Depois, ele liberou o limitador de velocidade do pit lane uma fração de segundo antes da hora. “Não tenho muita certeza de por que paramos no fim”, disse ele. “Recebi a chamada pouco antes da entrada do pit lane, então não tive tempo para discutir a decisão. Eu nunca teria parado se isso significasse que eu perderia posição de pista.”
Vasseur classificou a situação como um exemplo clássico de erros que foram se acumulando uns sobre os outros e provavelmente essa é uma avaliação correta. Mas Hamilton já conquistou campeonatos mundiais suficientes para saber como executar corretamente um fim de semana de corrida.
Ferrari precisa entender a imprevisibilidade do SF-26
Ainda permanecem dúvidas sobre a aparente imprevisibilidade do próprio carro. É como se o SF-26 continuasse surpreendendo a equipe e seus pilotos, enquanto Mercedes e McLaren, apesar de enfrentarem eventuais problemas técnicos, desfrutam de um nível de previsibilidade que lhes permite agir de maneira proativa.
A Ferrari, por outro lado, parece ser obrigada a reagir aos acontecimentos. Leclerc resumiu o desempenho da equipe de maneira direta ao analisar a corrida. “Não fomos particularmente excepcionais em nenhum momento da corrida. O primeiro trecho com pneus duros [seu segundo trecho de corrida] não foi ruim, o último trecho com pneus macios foi muito bom. Mas, então, houve altos e baixos demais e acho que é realmente aí que precisamos trabalhar.” contou o piloto.
“O objetivo é tentar encontrar essa consistência com este carro, porque ele tem sido muito, muito complicado em alguns trechos para o Lewis e em alguns outros trechos comigo. E é simplesmente um pouco estranho como tudo parece estar tão pouco correlacionado.” finalizou Leclerc.
Foto: (TMC)



