O UFC 328 entregou praticamente tudo o que se espera de um grande evento da organização. Houve zebra em disputa de cinturão, luta candidata a combate do ano, atuações frustrantes, veteranos fazendo história e mudanças importantes na percepção sobre algumas divisões do UFC.
Mas o principal assunto da noite foi a derrota de Khamzat Chimaev para Sean Strickland, resultado que mudou completamente o cenário do peso-médio e levantou questionamentos importantes sobre um dos lutadores mais temidos da organização.
Além disso, o evento também reforçou o ótimo momento da divisão dos moscas, aumentou dúvidas sobre o futuro dos pesos-pesados e trouxe mais um capítulo histórico para a carreira de Jim Miller.
1. Sean Strickland continua crescendo quando é desacreditado

Durante toda a semana, o favoritismo de Chimaev parecia praticamente absoluto. A expectativa era de mais uma atuação dominante baseada em wrestling agressivo e pressão física intensa. E durante o primeiro round, isso realmente aconteceu.
Chimaev derrubou Strickland logo nos primeiros segundos e controlou completamente os cinco minutos iniciais da luta. O americano praticamente não conseguiu atacar e passou boa parte do round apenas tentando sobreviver às tentativas de finalização.
Mas Strickland mostrou novamente uma das características mais fortes de sua carreira: resistência mental em cenários adversos.
Em vez de se desesperar após um primeiro round totalmente dominado pelo rival, ele entendeu que precisava sobreviver ao caos inicial para transformar a luta em algo mais confortável nos rounds seguintes. E foi exatamente isso que aconteceu quando Chimaev começou a demonstrar desgaste físico.
A partir daí, Strickland levou a luta para o ambiente que mais gosta: trocação baseada em jab, controle de distância e ritmo cadenciado. Mais uma vez, ele cresceu justamente quando entrou desacreditado.
Isso já virou padrão em sua trajetória no UFC. Historicamente, suas melhores atuações acontecem quando ele aparece como azarão nas apostas.
2. Chimaev finalmente mostrou vulnerabilidades reais

A grande surpresa do UFC 328 talvez tenha sido a queda física extremamente brusca de Chimaev entre o primeiro e o segundo round.
O lutador que parecia imparável durante os cinco minutos iniciais voltou para a segunda parcial claramente desgastado, reduzindo intensidade, explosão e capacidade de pressionar constantemente.
Até então, grande parte da imagem construída ao redor de Chimaev era baseada justamente na sensação de domínio físico absoluto sobre os adversários. Pela primeira vez dentro do UFC, isso desapareceu de maneira muito evidente.
Surgiram várias teorias após a luta. Problemas no corte de peso, possível lesão ou gasto exagerado de energia tentando a finalização rápida aparecem entre as principais hipóteses.
O mais curioso é que mesmo cansado, Chimaev ainda conseguiu competir relativamente bem na trocação. Em alguns momentos, inclusive, pareceu conectar golpes mais contundentes do que Strickland.
Ainda assim, o combate deixou algo muito importante para o restante da divisão: um “manual” mais claro sobre como enfrentar o ex campeão.
Agora existe uma percepção muito maior de que lutas longas e desgaste físico podem reduzir bastante a agressividade e o domínio do wrestler.
3. A divisão dos moscas vive um dos melhores momentos do UFC

Se a luta principal chamou atenção pela surpresa, o duelo entre Joshua Van e Tatsuro Taira roubou a cena pela qualidade técnica absurda apresentada no octógono.
O combate teve praticamente tudo: grappling de alto nível, trocação agressiva, mudanças constantes de domínio e enorme resistência física dos dois atletas.
A luta também serviu para reforçar o quanto a divisão dos moscas evoluiu tecnicamente nos últimos anos. Em determinado momento da história do UFC, a organização chegou a cogitar encerrar a categoria por falta de interesse comercial.
Hoje o cenário parece completamente diferente.
Joshua Van confirmou o status de uma das maiores promessas da divisão e aumentou ainda mais a expectativa para uma possível revanche contra Alexandre Pantoja.
Ao mesmo tempo, Tatsuro Taira saiu valorizado mesmo derrotado. O japonês mostrou resistência, agressividade e capacidade técnica suficientes para continuar sendo visto como um dos nomes mais perigosos da categoria.
4. Alexander Volkov segue vencendo sem convencer completamente

Alexander Volkov continua ocupando posição importante entre os pesos-pesados do UFC, mas novamente deixou dúvidas após sua vitória sobre Waldo Cortes Acosta.
O russo conquistou uma decisão discutível, mas sem entregar uma atuação dominante ou especialmente empolgante. Grande parte da luta foi marcada pelo controle de ritmo e pela neutralização das ações ofensivas do adversário.
O problema é justamente esse. Volkov frequentemente consegue vencer sem transmitir sensação clara de ameaça real ao cinturão da categoria.
Contra Waldo Cortes Acosta, o principal mérito do russo acabou sendo impedir que a luta se transformasse em um combate mais agressivo e imprevisível. Isso reduziu riscos, mas também limitou bastante o entretenimento da luta.
Dentro de uma divisão dos pesados que já sofre críticas pela falta de renovação técnica, atuações assim acabam gerando ainda mais questionamentos sobre quem realmente pode surgir como ameaça consistente aos principais nomes da categoria.
5. Jim Miller prova que legado vai muito além de cinturões

Aos 42 anos, Jim Miller continua escrevendo uma das trajetórias mais respeitadas da história do UFC.
Mesmo sem jamais conquistar um cinturão ou disputar oficialmente um título da organização, Miller construiu um legado baseado em longevidade, profissionalismo e consistência dentro do octógono.
No UFC 328, ele derrotou Jared Gordon em mais uma atuação extremamente inteligente e eficiente. Mesmo enfrentando um adversário mais jovem e explosivo fisicamente, Miller controlou os momentos importantes da luta utilizando sua enorme experiência e qualidade técnica no grappling.
A vitória veio através de mais uma finalização, ampliando ainda mais seus recordes dentro da organização.
Mas o tamanho de Jim Miller vai além das estatísticas. O americano enfrentou doença de Lyme, momentos difíceis na carreira e até problemas familiares graves, incluindo a batalha do filho contra o câncer.
Mesmo assim, permaneceu competitivo durante mais de duas décadas sem transformar constantemente sua trajetória em espetáculo emocional.
Em um esporte marcado por carreiras curtas e enorme desgaste físico e mental, Miller virou símbolo raro de resistência e profissionalismo. O UFC 328 serviu também para lembrar que algumas carreiras históricas não são construídas apenas com cinturões, mas com permanência, respeito e consistência no mais alto nível do MMA.
(Foto: Ed Mulholland/Zuffa LLC)