Após a demissão de Thiago Motta na Juventus, a equipe optou por trazer Igor Tudor como seu substituto. Além da identificação de Tudor com a Velha Senhora, a escolha do treinador marca um retorno a um estilo de jogo mais “tradicional” em comparação com o de Motta, que é um dos expoentes de um modelo tático inovador que vem ganhando força no futebol mundial: o relacionismo, ou futebol aposicional.
Embora esses termos ainda não sejam amplamente divulgados no futebol, eles descrevem com precisão a proposta dos treinadores dessa vertente: o fim do posicionamento fixo (e, em alguns momentos, da posição em si) e um jogo baseado na relação entre os jogadores, com a aproximação ao portador da bola para a criação de espaços.
Neste texto, exploramos a origem desse conceito e seus principais expoentes na nova geração do futebol mundial.
A origem do futebol aposicional
Embora sua origem exata não seja comprovada, o futebol aposicional teve seu maior sucesso inicial no Brasil. Em 2017, o Grêmio de Renato Gaúcho foi a primeira grande equipe a adotar esse estilo de jogo — ainda que de forma não intencional. Renato percebeu que permitir liberdade aos jogadores para atacar os espaços era a melhor forma de potencializar um elenco talentoso, que contava com Luan em sua melhor fase, Everton Cebolinha e outros craques.
Aquele time entrou para a história do Grêmio, conquistando a Libertadores com um futebol envolvente. No entanto, o futebol aposicional como filosofia tática tem um grande responsável por sua popularização: Fernando Diniz.
No início de sua carreira, Diniz ficou conhecido por sua abordagem extrema na saída de bola curta, envolvendo até o goleiro. Foi apenas em sua passagem pelo São Paulo que seu estilo passou a ser mais amplamente discutido. Diniz preza pela aproximação dos jogadores ao redor da bola e pelo jogo em espaços curtos, gerando superioridade numérica e explorando brechas na defesa adversária.
Dentro desse conceito, há diversos subprincípios, como as “escadinhas”, em que os jogadores se posicionam em sequência para facilitar triangulações e movimentações rápidas.
Em entrevista, Diniz explicou que sua abordagem se diferencia do modelo posicional popularizado por Pep Guardiola. O treinador brasileiro busca fugir da rigidez posicional, cunhando o termo “aposicional” para definir seu estilo de jogo. Em sua passagem pelo Fluminense, especialmente na histórica conquista da Libertadores de 2023, sua filosofia ganhou notoriedade na Europa, onde passou a ser chamada de “relacionismo”.
Apesar de muitas críticas e ceticismo, Diniz já conta com seguidores de sua ideia. O melhor treinador brasileiro da atualidade, Filipe Luís, também adota esse modelo, embora mesclado com influências de Jorge Jesus e Diego Simeone.
O futebol aposicional na Europa
Enquanto Diniz e Renato Gaúcho faziam sucesso no Brasil, na Europa, apenas um treinador de elite adotava um estilo similar: Simone Inzaghi, em sua passagem pela Lazio. O italiano começou a implementar esse modelo, mas com diferenças em relação à abordagem brasileira.
Inzaghi sempre valorizou os chamados “jogadores universais”, ou seja, aqueles capazes de desempenhar múltiplas funções tanto defensiva quanto ofensivamente. Seu estilo inicial foi bastante criticado, especialmente pela vulnerabilidade defensiva de sua Lazio. No entanto, ao assumir a Inter de Milão, ele conseguiu consolidar sua filosofia, transformando a equipe em uma verdadeira máquina.
O modelo de jogo de Inzaghi, embora não concentre jogadores em um único setor como faz Diniz, compartilha os mesmos princípios: a busca pela vantagem numérica e a ausência de um espaço fixo pré-determinado para os jogadores ocuparem. Enquanto Diniz sobrecarrega um lado do campo para gerar associações curtas, Inzaghi ataca com seus zagueiros e alas, criando superioridade numérica em zonas específicas.
Com a popularização desse estilo, surgiram outros expoentes na Europa, como Erik ten Hag, que, no Manchester United, aproximou-se ainda mais do futebol total, promovendo um jogo mais fluido e moderno. Já Thiago Motta, com sua ideia revolucionária do 2-7-2, mostrou que é possível jogar sem um posicionamento fixo, levando o Bologna à Champions League.
Até mesmo técnicos tradicionalmente posicionais vêm incorporando aspectos do futebol aposicional em seus esquemas. Diego Simeone, no Atlético de Madrid, passou a aglomerar jogadores em um setor do campo para criar jogadas curtas e dinâmicas. Hansi Flick, no Barcelona, prioriza a vantagem numérica no meio-campo, trazendo os pontas para o centro e adiantando os volantes.
Por que é tão difícil implementar o futebol aposicional?
Embora essa filosofia já tenha quase uma década de existência, ainda não há um trabalho estruturado para desenvolvê-la nas categorias de base. Os jogadores crescem aprendendo a se posicionar e a ocupar espaços de forma tradicional, pois é assim que o futebol tem sido ensinado ao longo dos anos.
Isso torna a implementação do modelo aposicional um grande desafio para treinadores como Diniz e Motta, que tentam introduzir conceitos completamente novos em um curto período. Os jogadores precisam reaprender a atacar os espaços, a se movimentar sem um posicionamento fixo e a interpretar o jogo de forma mais intuitiva.
Vale ressaltar que a criatividade individual é uma peça-chave do relacionismo, e esse aspecto tem sido deixado de lado há anos no futebol posicional. Por isso, jogadores específicos se dão bem nesse estilo de jogo, pois são naturalmente criativos. Como exemplo, podemos citar Paulo Henrique Ganso com Diniz, Joshua Zirkzee com Motta, Alessandro Bastoni com Inzaghi e, mais recentemente, Antoine Griezmann com o novo Atleti de Simeone.
A implementação desse modelo exige tempo e adaptação, tanto por parte dos treinadores quanto dos jogadores. Para que o futebol aposicional se consolide, será necessário um trabalho de formação nas categorias de base, algo que ainda não acontece de maneira estruturada.
No entanto, os sinais são claros: esse estilo de jogo já está moldando o futebol do futuro. Com treinadores tendo cada vez mais sucesso e criando variações a partir desse conceito, o futebol posicional não desaparecerá, mas terá de conviver com um novo paradigma.
O futebol aposicional está chegando — e com ele, uma nova forma de interpretar o jogo.
(Foto: Getty Images)
