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Futebol Brasileirão

Jorge Sampaoli está perto do Santos; como o argentino vai montar seu time com Neymar

A possível volta de Jorge Sampaoli ao Santos ganhou força nas últimas horas após a demissão de Pedro Caixinha, e o técnico argentino desponta como o principal favorito para assumir o comando da equipe. A informação agita o ambiente da Vila Belmiro, onde a torcida guarda boas lembranças do treinador, principalmente pela campanha de 2019, quando o Santos foi vice-campeão brasileiro jogando um futebol ofensivo, dinâmico e de forte identidade.

Porém, a carreira de Sampaoli desde então tem sido marcada por altos e baixos, com mais decepções do que conquistas. Seu retorno ao Peixe, agora com Neymar no elenco, levanta dúvidas táticas e de gestão: será que o estilo intenso do treinador casa com a atual versão de Neymar? O Sampaoli de 2025 ainda é o mesmo que encantou o torcedor santista seis anos atrás?

A passagem de 2019: um Santos agressivo e envolvente

Em sua primeira passagem pelo Santos, Jorge Sampaoli foi responsável por uma das campanhas mais envolventes do clube na última década. Com um elenco limitado em comparação aos rivais diretos, o argentino montou um time competitivo, vertical, que pressionava alto e trocava passes com velocidade. O Santos de Sampaoli terminou o Brasileirão com 74 pontos, na vice-liderança, e encantou pela forma como jogava, com jogadores como Soteldo, Carlos Sánchez e Marinho se destacando.

Apesar da boa campanha, o desgaste nos bastidores com a diretoria e questões financeiras impediram a continuidade do trabalho. O time que ele montou foi a base da equipe que Cuca levou à final da Libertadores no ano seguinte, onde acabou perdendo para o Palmeiras. Sampaoli saiu valorizado, mas desde então, sua trajetória passou a seguir um caminho instável.

Depois do Peixe, Sampaoli passou pelo Atlético-MG, onde teve bom desempenho em 2020, mas não conseguiu levar o time a um título de peso e saiu antes da finalização do projeto. Em seguida, foi para o Olympique de Marseille, onde começou bem, mas não sustentou o padrão de jogo por muito tempo.

Voltou ao Brasil para uma passagem tumultuada pelo Flamengo, em 2023, marcada por problemas de relacionamento com o elenco, decisões questionáveis e uma eliminação traumática na Libertadores para o Olimpia. Foi demitido antes mesmo de completar uma temporada.

Seu último trabalho foi no Rennes, onde também não conseguiu se firmar. A sequência de trabalhos mal concluídos coloca em xeque a capacidade de Sampaoli em repetir o sucesso de outrora, algo que ele próprio reconhece como um desafio para sua recuperação profissional.

O desafio Neymar para Sampaoli: encaixe tático ou dor de cabeça?

Assumir o Santos em 2025 é uma tarefa complexa por si só. Mas, com Neymar no elenco, a equação ganha uma camada a mais de complexidade. Sampaoli é um técnico que exige entrega física intensa, marcação sob pressão, recomposição rápida e disciplina tática, conceitos que são incompatíveis com a atual versão de Neymar, aos 33 anos, com histórico recente de lesões e já com dificuldades em sustentar um jogo de alta intensidade.

Neymar ainda pode decidir partidas com sua genialidade, visão de jogo e capacidade de desequilíbrio no terço final. Mas pedir para ele correr atrás de volante e pressionar na saída de bola, marca registrada dos times de Sampaoli, é um risco não só físico, mas estratégico.

A tendência, caso a chegada se concretize, é que Sampaoli ajuste seu modelo. Neymar pode ser liberado da marcação mais intensa, atuando como um meia central mais livre ou um segundo atacante flutuando entre as linhas. O técnico argentino já fez adaptações similares em outros momentos, como ao trabalhar com Dimitri Payet no Marseille, então com características similares às de Neymar no fim de carreira: alta técnica, mas menor explosão física.

No entanto, isso exige que o restante do time compense. Os extremos e os volantes terão que correr mais, fechar espaços e sustentar a estrutura defensiva. A montagem do elenco, e principalmente do meio-campo, será crucial para fazer essa engrenagem funcionar.

Hoje em dia, o Santos ainda carece de jogadores com esse tipo de característica. Diego Pituca e João Schmidt são pouco intensos, mas Pituca já teve um momento bom na primeira passagem de Sampaoli. No entanto, seu trabalho deve ser diferente, agindo muito mais como um meia que cobre espaços para tentar liberar Neymar de suas funções defensivas.

Um exemplo claro aconteceu com a Colômbia que chegou à final da Copa América do ano passado. Com James Rodríguez no elenco, jogadores como Richard Rios, do Palmeiras, Jhon Arias, do Fluminense, e o atacante Jhon Cordoba voltavam para marcar e fechavam os espaços que James deixava. O Santos vai precisar desse tipo de jogador, o que não é fácil de encontrar no mercado hoje em dia.

A estrutura tática não deve mudar, mas Sampaoli gosta de pontas muito mais incisivos do que Caixinha, que usava Thaciano na ponta pela sua habilidade de achar espaços no meio de campo. Assim, esse espaço pelo lado direito, deve ser preenchido por Benjamin Rollheiser, que ainda não se soltou na chegada ao Santos, mas espera retomar o futebol dos tempos de Estudiantes – ARG.

Do lado esquerdo, podemos ver um retorno de Soteldo ao time titular, tomando o lugar de Guilherme principalmente se o ponta continuar em sua má fase, que já remete ao fim do Paulistão. Vale lembrar que o venezuelano chegou ao Santos em 2019, pelas mãos de Sampaoli, que o indicou quando o ponta atuava pelo Huachipato do Chile. Foi também nesse ano que o “baixinho” viveu seu melhor momento na carreira e caiu nas graças da torcida santista.

Se o desafio tático é grande, o lado da gestão de grupo não é menor. Neymar exige um ambiente equilibrado e, principalmente, um treinador que saiba trabalhar com grandes personalidades. Sampaoli tem um histórico de conflitos e rupturas com líderes de vestiário, o que acende um alerta importante. A relação entre os dois será determinante para o sucesso do projeto.

No final, possível retorno de Sampaoli ao Santos traz nostalgia e dúvida na mesma medida. Para dar certo, será preciso que o argentino reconecte suas ideias à realidade do elenco atual e que, acima de tudo, saiba adaptar seu estilo a um time que tem talento, mas não vive seus melhores dias físicos ou estruturais. Se conseguir, pode escrever um novo capítulo vitorioso no clube onde já foi feliz. Se não, corre o risco de repetir o roteiro dos últimos anos: boas intenções, grandes promessas e uma saída precoce pela porta dos fundos.

(Foto: Pascal GUYOT / AFP)