Arda Guler
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Arda Güler ganha espaço e desafia hierarquia do Real Madrid

Arda Güler está fazendo uma coisa que talvez seja ainda mais difícil do que marcar um golaço pelo Real Madrid: obrigar José Mourinho a repensar a hierarquia do time. O meia turco começou a temporada sem o status de titular absoluto, mas vem respondendo da maneira mais eficiente possível às dúvidas sobre seu espaço: jogando bem sempre que recebe uma oportunidade.

A situação ficou ainda mais evidente nos últimos compromissos. Depois de entrar no segundo tempo contra o Rayo Vallecano e mudar a partida, Güler voltou a ser titular diante do Elche e deixou sua marca novamente. Aos 25 minutos, cobrou uma falta com categoria e contou com a ajuda do goleiro Matías Dituro para abrir o placar. O gol não foi apenas mais um para a conta do turco. Ele encerrou uma sequência de 120 jogos de LaLiga sem um gol de falta direta do Real Madrid.

Para um clube que já teve Cristiano Ronaldo, Gareth Bale, Sergio Ramos, Isco e Toni Kroos entre seus especialistas, a estatística é bastante curiosa. O Real Madrid passou os últimos anos sem encontrar um cobrador capaz de assumir esse tipo de responsabilidade com regularidade. Güler parece disposto a ocupar esse espaço.

Güler encontrou uma arma que o Real Madrid precisava

A bola parada virou uma espécie de território particular para o jovem turco. Nas últimas quatro temporadas, contando a atual, o Real Madrid marcou apenas quatro gols diretamente de falta. Dois deles foram de Güler. O outro gol mais recente do clube havia sido marcado por Rodrygo contra o Sevilla, na temporada 2022/23.

Existe ainda um jejum mais específico: o Santiago Bernabéu não comemora um gol de falta direta do próprio Real Madrid desde o confronto contra a Roma pela Champions League de 2018/19. É uma espera enorme para um estádio acostumado a ver especialistas transformarem faltas próximas da área em quase pênaltis.

Güler, ao lado de Trent Alexander-Arnold, assumiu a responsabilidade pelas cobranças. E, pelo que mostrou contra o Elche, parece bastante confortável com a tarefa. Mas reduzir sua evolução às bolas paradas seria injusto. O principal motivo pelo qual o turco está ganhando espaço é sua capacidade de fazer o Real Madrid jogar.

Meia que entra e muda o ritmo

O melhor exemplo aconteceu contra o Rayo Vallecano.

Güler começou no banco e só entrou aos 72 minutos. Naquele momento, o Real Madrid vencia por 3 a 1, mas o Rayo havia conseguido diminuir a diferença e ameaçava complicar uma partida que parecia resolvida no intervalo.

Foi aí que o camisa 15 apareceu. Em apenas 23 minutos em campo, Güler criou cinco oportunidades, duas delas consideradas claras, tentou cinco cruzamentos, completou 12 passes no último terço e realizou dois dribles. Além disso, deu a assistência para Mbappé marcar o quarto gol do Real Madrid nos acréscimos.

Não é exatamente o impacto que se espera de alguém que deveria estar apenas “ganhando minutos”. Sua entrada mudou o ritmo do time. Güler passou a organizar o jogo, encontrou espaços e deu ao ataque madridista uma criatividade que havia desaparecido durante boa parte do segundo tempo.

Mourinho percebeu.

Depois da partida, o português foi questionado se o Real Madrid era melhor com Güler em campo. A resposta foi direta: concordou. Em seguida, destacou a qualidade do meia e afirmou que sua entrada havia feito diferença e dado mais estabilidade ao jogo.

Só existe um pequeno problema: o treinador ainda não quer tratar ninguém como indispensável.

Mourinho mantém os pés no chão

Depois da vitória sobre o Elche, Mourinho fez questão de dizer que “Arda não é imprescindível”. Segundo o técnico, ninguém possui esse status dentro do elenco.

A declaração faz sentido dentro da lógica do treinador. O Real Madrid tem uma quantidade absurda de jogadores capazes de decidir partidas e ainda conta com nomes como Vinícius Júnior, Kylian Mbappé, Jude Bellingham e Federico Valverde, que ocupam posições de enorme importância na estrutura.

Mas existe uma diferença entre não ser oficialmente indispensável e tornar-se difícil de deixar no banco.

É exatamente nesse espaço que Güler está entrando.

O turco tem apenas 21 anos, mas já aparece como o jogador que pode ocupar uma posição especial dentro da equipe. O problema para Mourinho é que os números estão tornando cada vez mais difícil ignorá-lo.

Números mostram uma evolução impressionante

Güler lidera LaLiga em oportunidades criadas, com 24, enquanto Lamine Yamal aparece em segundo, com 18. Ele também é o jogador que mais criou grandes oportunidades, com seis. E tudo isso aconteceu em apenas 227 minutos, uma média de 45,4 minutos por partida.

É justamente esse dado que deixa a situação ainda mais interessante.

Güler nem sequer está jogando uma partida inteira em média e, mesmo assim, aparece no topo de estatísticas importantes de criação. Ele foi titular contra Espanyol, Real Sociedad e Betis, mas não ultrapassou os 78 minutos em nenhuma dessas partidas. Contra o Málaga, entrou aos 87 minutos, enquanto diante do Rayo apareceu aos 72.

Ou seja: há produção em uma quantidade relativamente pequena de minutos. Isso explica por que a discussão sobre sua titularidade começa a ficar cada vez maior.

Retorno de Bellingham muda tudo

Agora vem o próximo capítulo. Jude Bellingham está de volta ao time titular, e isso deve fazer Güler retornar ao lado direito, posição que passou a ocupar com maior frequência nesta temporada.

No papel, parece uma solução simples. Na prática, é uma decisão que merece atenção.

A presença de Bellingham naturalmente altera a distribuição de funções no meio-campo e no setor ofensivo. O inglês é um dos jogadores mais importantes do elenco, enquanto Güler tenta conquistar espaço em uma equipe cheia de estrelas.

O problema é que o jovem turco já mostrou que pode ser importante mesmo começando no banco. E o próximo compromisso deixa tudo ainda mais interessante: o clássico contra o Atlético de Madrid.

Na temporada passada, a recuperação de Bellingham de uma lesão no ombro coincidiu com o retorno de Güler ao banco no primeiro dérbi do campeonato. O Real Madrid perdeu aquela partida, e aquele resultado acabou sendo um dos primeiros grandes sinais de que a temporada de Xabi Alonso começaria a sair dos trilhos.

Desta vez, Mourinho terá a chance de evitar que a história se repita.

“Quinto Beatle” quer mais do que minutos

Existe uma expressão usada pelo AS que resume bem o momento de Güler: o “quinto Beatle”.

A referência é aos quatro jogadores que aparecem como nomes praticamente intocáveis no Real Madrid de Mourinho: Valverde, Bellingham, Vinícius e Mbappé. Güler tenta conquistar o quinto espaço, aquele jogador que não apenas participa do time, mas ajuda os outros a funcionarem melhor. E talvez esse seja o ponto mais importante de sua evolução.

Güler não precisa necessariamente disputar protagonismo com Mbappé ou Vinícius. Sua influência pode aparecer justamente na capacidade de conectar os setores, encontrar o último passe, cobrar bolas paradas e acelerar o jogo quando o adversário fecha os caminhos.

Contra o Rayo, foram 23 minutos. Contra o Elche, veio um gol de falta e uma atuação importante em um jogo que terminou em vitória por 3 a 2. Aos poucos, a discussão deixou de ser sobre quando Güler terá uma oportunidade.

Agora, a pergunta começa a ser outra: como Mourinho vai encontrar espaço para ele quando todos os grandes nomes estiverem disponíveis?

O treinador ainda pode dizer que Güler não é indispensável. E, tecnicamente, está certo: ninguém deveria ter cadeira cativa em um elenco desse tamanho. Mas o jovem turco está fazendo algo que costuma funcionar muito bem no futebol: está tornando a decisão do treinador cada vez mais difícil.

E, para um jogador de 21 anos em um Real Madrid cheio de estrelas, talvez essa seja exatamente a rebeldia que ele precisava mostrar.

Foto: Getty Images