A temporada 2025 do Brasileirão mal começou e os primeiros capítulos já revelam um roteiro conhecido e repetitivo: a demissão precoce de treinadores. Mano Menezes não resistiu ao início ruim no Fluminense e foi desligado. Gustavo Quinteros teve o mesmo destino no Grêmio após a segunda rodada. No Corinthians, Ramón Díaz caminha para o mesmo desfecho.
O que essas saídas têm em comum não é apenas o momento ruim, mas um padrão que escancara um problema crônico do futebol brasileiro: a incoerência dos clubes em suas escolhas e a falta de convicção para sustentar projetos.
O ciclo é sempre o mesmo. Em um primeiro momento, os clubes apostam em treinadores com ideias ofensivas, modernas, muitas vezes influenciados por trabalhos bem-sucedidos na Europa ou na América do Sul. Buscam “o novo”, “o jogo propositivo”, “a intensidade com a bola”. No discurso, tudo parece indicar uma mudança de mentalidade.
Porém, ao menor sinal de instabilidade, seja uma eliminação precoce no estadual, um início titubeante no Brasileirão, ou uma sequência de empates na Sul-Americana ou Libertadores, as ideias são engavetadas e o projeto é interrompido. Vem então o movimento oposto: a contratação de um técnico de perfil mais defensivo, experiente, considerado “bombeiro”, com fama de arrumar times em pouco tempo. A prioridade vira sobreviver e recuperar moral.
É aí que entram nomes como Mano Menezes, bem conhecido por sua abordagem conservadora, ou o próprio Ramón Díaz, que embora argentino e com currículo internacional, caiu nas graças da Fiel em 2024 por conter uma crise e afastar o rebaixamento. Gustavo Quinteros, no Grêmio, assumiu a equipe com a promessa de estrutura tática e segurança, mas pouco conseguiu produzir com bola nos pés, e já está fora no começo do Brasileirão.
O problema é que esses mesmos treinadores, contratados como emergenciais, acabam sendo mantidos para o início da temporada seguinte. Com tempo para treinar, os clubes esperam, erroneamente, que esses técnicos mudem seu estilo, se tornem protagonistas e façam o time “jogar bonito”. Mas a essência de um treinador não se muda da noite para o dia. E o resultado é previsível: quando os desempenhos não convencem, vêm as primeiras derrotas, e a consequência é a demissão.
A máquina de moer técnicos do Brasileirão em 2025
No Fluminense, Mano Menezes foi contratado para dar estabilidade após a queda de Fernando Diniz. O time, que vinha de uma identidade extremamente ofensiva e de posse, foi freado por um treinador que preza pela proteção defensiva e jogo direto. A transição não funcionou. Mano não conseguiu adaptar o elenco às suas ideias, nem ele se adaptou ao perfil do time. Com desempenho abaixo do esperado no Brasileirão, a saída foi inevitável.
No Grêmio, Gustavo Quinteros foi uma aposta mais estrutural: após um trabalho bom no Velez Sarsfield, ele chegou prometendo organização. No entanto, encontrou um elenco desequilibrado, uma torcida impaciente e pouca margem de manobra. A falta de agressividade e os poucos resultados no começo do Brasileirão aceleraram sua queda.-
No Corinthians, Ramón Díaz vive um dilema similar. Depois de ser o salvador da temporada passada, não conseguiu entregar um futebol ofensivo em 2025, mas a falta de Rodrigo Garro e a saída da posição de Memphis Depay fez a equipe acumular resultados ruins no Brasileirão e na Sul-Americana. A torcida, que tolerou o pragmatismo em 2024, agora cobra performance, e o ambiente já é de fim de linha.
A falta de planejamento estrutural
O grande problema não está apenas nas demissões, mas na forma como os clubes constroem suas escolhas. Poucos times no Brasil traçam um perfil técnico de longo prazo. As contratações muitas vezes são reativas, feitas com base em pressão da torcida, influência da diretoria ou resultados imediatos.
Contrata-se um treinador ofensivo com um elenco que não tem velocidade nem articulação. Ou um treinador reativo com um grupo de jogadores criativos que não sabem marcar em bloco baixo. Quando as peças não se encaixam, a culpa recai inteiramente sobre o técnico.
Essa lógica vai corroendo a ideia de continuidade e inviabiliza qualquer processo de construção. Não à toa, poucos treinadores conseguem durar mais de seis meses em um clube brasileiro, mesmo com bom currículo ou potencial.
Desde que o Brasileirão virou pontos corridos, a cada temporada se fala em planejamento, continuidade, convicção. Mas, na prática, a pressa e a cultura imediatista seguem vencendo. O Brasil é um celeiro de talentos, tanto de jogadores quanto de técnicos, mas essa falta de paciência com os projetos impede o desenvolvimento pleno do trabalho de campo.
Em 2025, o cenário se repete no Brasileirão. Os clubes seguem queimando etapas, buscando respostas rápidas para perguntas mal formuladas. A dança das cadeiras de treinadores não é apenas um reflexo dos maus resultados, mas da própria falta de identidade de muitos clubes.
O futebol brasileiro precisa urgentemente rever suas convicções: parar de contratar perfis incompatíveis com os elencos, parar de trocar técnicos como se trocam camisas, e começar a pensar em futebol como processo, e não como solução mágica. Enquanto isso não acontecer, o ciclo continuará girando: técnicos ofensivos que não têm tempo, “bombeiros” que são promovidos a construtores, e demissões que chegam antes mesmo dos projetos amadurecerem.
Foto: Lucas Uebel/Grêmio



