Espanha derrota Argentina na final da Copa do Mundo de 2026
Futebol

Por que a Espanha domina o futebol mundial? Três pilares explicam; veja

Campeã mundial, europeia e olímpica, além de estar há dois anos e meio sem perder. A Espanha se transformou na principal força do futebol masculino de seleções e construiu uma sequência de resultados difícil de ignorar.

Nos últimos dez grandes torneios internacionais, a seleção espanhola conquistou cinco títulos. Antes do duelo contra a Inglaterra pela Nations League, La Roja também carrega uma sequência de 38 partidas de invencibilidade. A última derrota aconteceu em um amistoso contra a Colômbia, em 2024.

O domínio não aparece apenas na seleção principal. Nos últimos anos, a Espanha também conquistou seis Europeus sub-19, três Europeus sub-21 e a Copa do Mundo feminina de 2023. Nos clubes, as equipes espanholas ganharam metade dos títulos disponíveis de Champions League e Europa League desde 2009.

Segundo o especialista em futebol espanhol Guillem Balagué, existem três grandes pilares por trás desse sucesso: a formação acadêmica dos treinadores, a influência cultural e esportiva do País Basco e a revolução tática iniciada pelo Barcelona.

Barcelona ajudou a transformar a identidade da Espanha

A influência do Barcelona é provavelmente a parte mais conhecida desse processo.

Na Copa do Mundo de 2010, oito jogadores formados em La Masia estavam no elenco campeão comandado por Vicente del Bosque. Na conquista mundial de 2026, novamente oito atletas que passaram pela academia do Barça fizeram parte da seleção espanhola.

A ligação entre clube e seleção começou a ganhar ainda mais força com Johan Cruyff.

O holandês levou o Barcelona ao primeiro título da Copa dos Campeões em 1992 com uma ideia de futebol baseada em posse de bola, movimentação e ocupação inteligente dos espaços. Anos depois, Pep Guardiola aperfeiçoou esse modelo entre 2008 e 2012.

Foi justamente nesse período que Barcelona e Espanha dominaram o futebol.

O clube conquistou três títulos consecutivos de La Liga, enquanto a seleção venceu a Euro de 2008, a Copa do Mundo de 2010 e novamente a Euro em 2012.

Xavi, Andrés Iniesta e Sergio Busquets foram alguns dos grandes representantes dessa geração.

A ideia central da formação do Barcelona não é apenas desenvolver jogadores tecnicamente fortes. O objetivo é formar atletas capazes de entender o jogo e tomar as melhores decisões dentro de campo.

Jordi Gratacós, ex-diretor internacional das academias do Barcelona, explicou que a prioridade é fazer o jogador compreender o significado tático de cada ação técnica.

Em outras palavras, não basta saber passar, driblar ou finalizar. O atleta precisa entender quando e por que executar determinada ação.

Essa filosofia continua presente no Barcelona atual.

Hansi Flick tem utilizado jogadores formados no clube como pilares do projeto. Lamine Yamal, Dani Olmo e Pau Cubarsí assumiram papéis importantes tanto no Barça quanto na seleção espanhola.

Assim como aconteceu entre 2008 e 2012, o Barcelona voltou a fornecer parte da base técnica de uma Espanha vencedora.

barcelona espanha
Foto: FIFA

País Basco acrescenta intensidade e personalidade

Se Barcelona representa criatividade e inteligência com a bola, o País Basco acrescenta outra característica fundamental: competitividade.

Cinco jogadores da seleção campeã mundial em 2026 são da região e passaram por Athletic Bilbao ou Real Sociedad.

Na Euro de 2024, oito jogadores que atuavam nesses dois clubes faziam parte do elenco espanhol.

A influência também se estende a Navarra. Mikel Merino, nascido em Pamplona, se tornou um dos nomes importantes da seleção ao marcar gols decisivos em diferentes momentos.

César Azpilicueta, também criado na região de Navarra, resumiu a cultura local através de características como disciplina, trabalho duro, resiliência e capacidade de competir.

Segundo o defensor, existe também uma grande atenção ao posicionamento tático.

Os times da região costumam ser compactos, fortes nos duelos e objetivos quando recuperam a bola.

Essa combinação aparece claramente na seleção atual.

Unai Simón assumiu o gol, enquanto Aymeric Laporte foi uma das referências de uma defesa que sofreu apenas um gol em oito partidas durante a Copa do Mundo.

Nico Williams deu a assistência para Ferran Torres marcar o gol do título contra a Argentina, Martín Zubimendi teve impacto importante saindo do banco em finais recentes e Mikel Oyarzabal marcou 18 gols em suas últimas 20 partidas pela Espanha.

A influência basca também aparece fora do país.

Mikel Arteta, Unai Emery, Xabi Alonso e Andoni Iraola comandam alguns dos maiores clubes da Inglaterra.

Isso reforça a força de uma escola que valoriza intensidade, organização e trabalho coletivo.

Oyarzabal
Foto: Getty Images

Formação dos treinadores virou diferencial espanhol

O terceiro pilar talvez seja menos visível, mas teve enorme influência na evolução do futebol espanhol: a educação dos treinadores.

Durante a década de 1990, universidades espanholas começaram a desenvolver profissionais de preparação física e treinamento com conhecimento específico sobre futebol.

O Instituto Nacional de Educação Física teve papel importante nesse processo.

A diferença era justamente unir conhecimento científico com compreensão prática do jogo.

Treinadores como Rafa Benítez e Marcelino García Toral surgiram dessa geração de profissionais que estudavam preparação física, metodologia e futebol de maneira integrada.

Benítez chegou a comparar a formação espanhola com aquilo que encontrou na Inglaterra.

Segundo ele, profissionais ingleses possuíam enorme conhecimento sobre preparação física, mas muitas vezes tinham menos familiaridade com a aplicação desses conceitos diretamente dentro do futebol.

Na Espanha, o objetivo passou a ser formar especialistas que entendessem preparação, medicina esportiva, metodologia e, principalmente, aquilo que acontecia com a bola.

Essa evolução ajudou a criar uma geração de treinadores muito mais preparada.

Três pilares ajudam a explicar domínio espanhol

O sucesso da Espanha, portanto, não nasceu de apenas uma grande geração.

Existe uma estrutura construída ao longo de décadas.

O Barcelona forneceu uma filosofia baseada em posse, inteligência e tomada de decisão. O País Basco acrescentou intensidade, disciplina e competitividade. A formação acadêmica elevou o nível dos treinadores e profissionais responsáveis pelo desenvolvimento desses jogadores.

O resultado aparece dentro e fora da Espanha.

A seleção masculina conquistou Euro 2024 e Copa do Mundo de 2026, as categorias de base continuam acumulando títulos e os treinadores espanhóis ocupam posições importantes nos principais campeonatos europeus.

La Roja também conseguiu algo especialmente difícil: renovar jogadores sem abandonar sua identidade.

Novas gerações surgem, mas conceitos parecidos continuam presentes.

É justamente essa continuidade que ajuda a explicar por que a Espanha conseguiu transformar um período de sucesso iniciado há quase duas décadas em algo muito maior.

O talento continua surgindo, os clubes oferecem espaço e os treinadores são preparados para desenvolver esses jogadores.

Por trás dos títulos, existe uma cultura construída em três pilares diferentes, mas complementares.

E enquanto essa estrutura continuar produzindo jogadores capazes de interpretar o jogo, competir e tomar boas decisões, a Espanha deverá permanecer entre as principais referências do futebol mundial.

Foto: Reprodução/REUTERS