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Basquete NBA

Memphis Grizzlies: Ja Morant tem o que é preciso para guiar a franquia ao sucesso?

Com a varrida sofrida para OKC na primeira rodada dos playoffs deste ano, o Memphis Grizzlies entra na off-season com muitas questões para serem resolvidas e debatidas visando o futuro da franquia. A demissão de Taylor Jenkins na véspera da pós-temporada mostrou que o front office da franquia não está tão convicta e confiante em seus recursos atuais. Apesar do fim dos problemas extra-quadra, talvez o destino da equipe, não seja mais tão brilhante.

Talvez Ja Morant não seja mais o candidato a MVP que muitos imaginavam duas ou três temporadas atrás. Talvez Jaren Jackson Jr. não tenha, de fato, o potencial para se firmar como um dos grandes defensores da NBA. É possível que a aposta em Marcus Smart e Luke Kennard, ao custo de abrir mão de Ziaire Williams e Jake LaRavia, tenha sido um equívoco. E quanto à chegada de Tuomas Iisalo: será que representa um passo à frente ou apenas mais uma tentativa incerta?

Neste texto, vamos explorar os caminhos possíveis para o Memphis Grizzlies, uma das maiores incógnitas da competitiva Conferência Oeste.

O fator Ja Morant: ele tem o que é preciso?

Enfim, após tantas polêmicas, podemos voltar a falar de Ja Morant pelo que realmente importa: seu jogo. O franchise player da franquia de Tennessee disputou 50 partidas na atual temporada, mais seis contado play-in/playoff. Desta vez, a ausência se deu por conta de lesões, e não por “armações” e mancadas. Apesar de ter diminuído seu número de pontos por jogo em comparação às últimas três temporadas (23.2), o armador aumentou o número de arremessos de três convertidos por partida (1.8) e registrou o melhor aproveitamento da carreira na linha de lance livre (82.4%). E os números de Memphis sem o armador em quadra, pioraram, excluíndo a narrativa de que a equipe é “melhor sem ele”.

Além disso, Ja não demonstrou nenhum desvio significativo em seu impacto em quadra em comparação às temporadas em que se sagrou um All-Star. Entretanto, houve uma mudança tática implementada por Taylor Jenkins no ataque de Memphis que causou um grande impacto na sua forma de jogar. “Em alguns dias, ele parece pronto para jogar, e em outros, parece que nem quer estar ali… porque ele odeia o sistema ofensivo.” – foi o que jornalistas que cobrem a franquia de Tennessee falaram sobre o armador durante a temporada.

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Joe Murphy/NBAE

A “nova” forma de atacar que Taylor Jenkins implementou em sua equipe involvia tirar a bola das mãos de Ja Morant significativamente, mas principalmente, diminuir a quantidade de pick’n’rolls – algo que o armador era um exímio especialista. O foco desta forma ofensiva era a velocidade – não à toa, Memphis teve o maior pace na temporada de 2024-25, com posses de curtíssima duração procurando cenários para arremessos sem contestação. Este estilo tático funcionou contra equipes “ruins” – mas foi ineficiente contra equipes com mais talento em quadra.

Isto, foi inclusive, um dos motivos da saída de Taylor Jenkins e da aposta em Tuomas Iisalo. Nos seis jogos em que o finlandês comandou a equipe na temporada regular, vimos uma quantidade muito maior de pick’n’rolls, e consequentemente, Ja Morant com a bola na mão mais frequentemente. Em toda a temporada, o armador teve média de 23.2 pontos por jogo. Com Iisalo no comando, esta média aumentou para 28.4, ao mesmo tempo que o número de assistências diminuiu drasticamente.

Assim, fica evidente que o foco da diretoria dos Grizzlies continua sendo Ja Morant. Ele pode não ser um jogador com um impacto individual e coletivo no nível de Shai Gilgeous-Alexander, Nikola Jokic, Jalen Brunson, Giannis Antetokounmpo, Luka Doncic… mas é a opção mais viável que a franquia possui de buscar o sucesso no presente e no futuro. E novamente, a aposta em Tuomas Iisalo é um fator que faz bastante sentido nesta linha de raciocínio.

A sensação finlandesa que surpreendeu o basquete europeu

Tuomas Iisalo chegou nos Grizzlies como assistente técnico em julho de 2024, após ter se tornado uma “sensação” no basquete europeu. No comando do Paris Basketball, Iisalo conquistou o título da EuroCup 2023-24 e o prêmio de Técnico do Ano da EuroCup em sua primeira temporada como treinador da equipe francesa. Arquiteto do melhor ataque da história da competição, Iisalo liderou o Paris a uma campanha de 20 vitórias e 1 derrota e ao título na segunda participação do clube na EuroCup.

Tuomas Iisalo Ja morant Grizzlies memphis
Associated Press

Iisalo chamou a atenção não só de Memphis, mas de outras equipes da NBA por conta de seu estilo de jogo peculiar, que parece ser um “fit” perfeito com os Grizzlies. Seu ataque requer uma velocidade intensa, foco nos pick’n’roll’s, utilização constante da segunda rotação e muitas bolas de três pontos. Além disso, ainda como assistente, Tuomas implementou alguns conceitos interessantes no setor ofensivo.

O primeiro conceito foi a ênfase na conquista de rebotes ofensivos. Sempre que um arremesso do perímetro é feito, ao invés dos jogadores mais atléticos se prepararem para um possível erro e uma composição defensiva, eles devem atacar o aro em busca do rebote ofensivo. Ou seja, ao invés do pivô ser uma força única nesta tarefa, o ala e o ala-pivô também tentam o rebote no ataque.

E com um ataque tão veloz e ágil, é comum ter uma defesa mais frágil. Não à toa, o defensive rating de Memphis (clique aqui para ver o funcionamento deste cálculo) “regrediu” em 2.4 nos seis jogos de Tuomas na temporada regular. Para tentar ter mais solidez neste aspecto, o treinador finlandês implementou ainda no Paris Basketball um sistema defensivo que requer muito treinamento e instrução individual (a defesa Hedge & Plug), algo que, provavelmente, ainda não foi aplicado em sua curta estadia como técnico principal dos Grizzlies.

É um estilo de jogo que satisfaz bastante Ja Morant, e faz sentido com a quantidade de jogadores atléticos e velozes no roster dos Grizzlies. No entanto, esse tipo de abordagem também exige um esforço diferente dos jogadores do frontcourt. Esse é um ponto crucial que Memphis precisa considerar com atenção ao planejar seu futuro.

Zach Edey e Jaren Jackson Jr: Troca de papéis

Jaren Jackson Jr. despontou como um candidato a Jogador Defensivo do Ano em suas primeiras temporadas pelos Grizzlies. E isso, em 2025, não mudou. Aliás, a defesa é o setor mais constante de Memphis nos últimos anos, demonstrando pouca variação em Defensive Rating e pontos sofridos por jogos nas últimas três temporadas. E com a chegada do gigante Zach Edey no último draft, com a capacidade de vencer facilmente defensores no garrafão e ainda arremessar de longa e média distância, a franquia de Tennessee parecia caminhar para ter um garrafão bastante sólido nos próximos anos.

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Petre Thomas-Imagn Images

Porém, na série contra Oklahoma City, um grande problema foi exposto envolvendo os dois atletas titulares do frontcourt da equipe. Jaren Jackson Jr. não decepcionou defensivamente, mas ofensivamente, foi um verdadeiro desastre. Nesta temporada, no estilo de jogo de Jenkins, JJJ virou praticamente um ala, abdicando totalmente do jogo embaixo da cesta e focando totalmente em jogadas de ISO no perímetro. E a falta de familiaridade com um ataque mais “físico” foi terminalmente nítida na série diante de OKC.

Jaren enfrentava grande dificuldade em explorar mismatches. Com 2,08m de altura, o ala-pivô frequentemente não conseguia se impor de costas para a cesta mesmo quando marcado por jogadores consideravelmente mais baixos, como Lu Dort, Alex Caruso e até mesmo um defensor menos impactante como Aaron Wiggins. Não só isso, como JJJ também não tentava utilizar sua altura para realizar arremessos de média distância ou até mesmo ganchos, tendo de passar a bola para o perímetro quando se encontrava nesta situação.

Jaren Jackson teve médias de 16.0 pontos na série contra Oklahoma, com um pífio aproveitamento de 37.9% nos arremessos de quadra. No jogo 1, o ala-pivô somou apenas 4 pontos em 29 minutos. Sua queda — sutil, mas notável — de desempenho nas últimas temporadas já havia levantado dúvidas sobre a viabilidade de oferecer uma extensão contratual máxima ao final do próximo ano. Agora, essa incerteza ganha ainda mais força, e talvez JJJ já não possa mais ser considerado um pilar do futuro em Memphis.

E Zach Edey surge exatamente neste contexto. O pivô foi titular regular ao longo da temporada e entregou exatamente o que se espera de um prospecto de seu nível — não foi nem excepcional, nem decepcionante. No entanto, foi nos playoffs que Edey acabou sendo exposto. Sendo até mesmo sobreutilizado por Iisalo, Zach aparentava não saber utilizar seu tamanho. Perdendo rebotes defensivos e ofensivos simples, falhando constantemente em conseguir pontos de segunda chance e raramente atacando o garrafão.

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Associated Press

Edey deixou a desejar nos fundamentos mais básicos de sua função. Se um pivô como ele não consegue contribuir de forma consistente nesses aspectos, então, ele não consegue contribuir em nada. Isso só não é verdade porque Zach teve ótimos lampejos defendendo o aro, conseguindo tocos e demonstrado ser mais eficiente neste setor até mesmo que o exímio defensor Jaren Jackson Jr. Mas há muito o que se desenvolver no pivô.

E este desenvolvimento pode ser aquilo que ditará o impacto futuro de Edey. Em termos de jogo, ele pode alcançar a produtivade que Ivica Zubac atingiu nas últimas temporadas com o LA Clippers. O atleta de Memphis ainda é muito cru – mas caso lapidado da forma correta, ele pode suprir as deficiências que JJJ coloca no plano de jogo dos Grizzlies.

O ponto positivo do atropelo para OKC e as peças que sobraram

A única coisa que Memphis pode entender como positiva da série contra Oklahoma é Scotty Pippen Jr. Há pouco tempo, o armador chegou ao elenco da franquia do Tennessee com um contrato two-way — agora, é possível dizer, sem exagero, que ele foi o melhor jogador dos Grizzlies nesses playoffs. 18.3 pontos, 5.5 rebotes e 2.5 bolas de três pontos por jogo nos quatro duelos diante de OKC. Scotty cresceu principalmente nos momentos “clutchs”, anotando 30 pontos no jogo de eliminação da série.

Scotty Pippen, é no mínimo, uma dor de cabeça com a qual o front-office de Memphis não terá de lidar. Ja Morant e Desmond Bane possuem uma reposição à altura – seja quando um deles estiver lesionado ou saindo do banco. Talvez, com Iisalo, o armador se torne até mesmo um candidato à sexto homem da temporada. Foi um verdadeiro achado dos Grizzlies, levando em consideração que o jogador receberá apenas 6 milhões de dólares até 2027 – e a franquia ainda possui a opção de extensão para 2027-28.

Scotty Pippen Jr. wears Ja Morant shoes not available to NBA players
Chris Day/The Commercial Appeal

De forma geral, o Memphis Grizzlies possui peças muito interessantes além dos jogadores principais. O ala-armador Jaylen Wells, que perdeu a pós-temporada por lesão, é um prospecto fantástico, chegando a inclusive ser cotado para novato do ano durante a temporada regular. Brandon Clarke é uma terceira opção para o garrafão e atletas como GG Jackson e Vince Williams Jr. ainda podem ser lapidados em ótimos role-players.

No entanto, é quase certo que o front office da franquia buscará uma opção mais confiável do que Luke Kennard — que será agente livre — e mais sólido que Santi Aldama e John Konchar para ocupar o papel de spot-up shooter da equipe. O nome mais ventilado nos bastidores é o de Cam Johnson, atualmente no Brooklyn Nets, podendo ser obtido apenas através de trocas. Porém, Cam é um dos melhores e mais consistentes arremessadores da liga, e também está na “lista preferencial” de pelo menos outras 28 equipes da liga.

Mesmo que Johnson não seja possível, Memphis ainda terá flexibilidade no mercado apenas pela exclusão do contrato de $14,763,636 de Kennard da folha salarial. Tim Hardaway Jr., Duncan Robinson, Caris Levert, Joe Ingles e Malik Beasley são alguns dos nomes que estarão na free-agency e que podem ajudar Memphis neste setor. Quem sabe, a franquia pode fazer mais trocas e aliviar mais espaço na folha salarial à fim de trazer Khris Middleton ou Bruce Brown Jr.

É impossível cravar o que o futuro reserva, mas tudo indica que veremos um “novo” Grizzlies nas próximas temporadas — uma versão renovada e cada vez mais distante da antiga identidade “Grit and Grind” que, embora ainda paire sobre a franquia, já não dita mais seus rumos.