Bia Haddad Maia deixou Roland Garros de forma precoce mais uma vez. A derrota para a norte-americana Hailey Baptiste, nesta segunda-feira (27), por 4/6, 6/3 e 6/1, marcou a segunda eliminação consecutiva da brasileira na primeira rodada do Grand Slam francês. Em uma temporada marcada por oscilações e resultados abaixo do esperado, o revés reabriu o debate sobre a fase da número 1 do Brasil — e trouxe à tona críticas duras, que muitas vezes desconsideram o peso histórico de sua trajetória.
A má fase é inegável. Com a eliminação em Paris, Bia acumula 14 derrotas em 20 partidas disputadas em 2024. Desde o início da temporada, ela vem enfrentando dificuldades especialmente com o saque, lesões recorrentes e falta de consistência mental em momentos-chave. Mesmo assim, pode subir uma posição no ranking e aparecer como número 23 do mundo. o que diz muito sobre sua base de pontos construída nos últimos dois anos.
A partida: um começo promissor que desmoronou
O duelo contra Baptiste parecia promissor. No primeiro set, Bia teve grande desempenho no saque (81% de acerto no primeiro serviço) e conseguiu se manter firme diante da agressividade da adversária, salvando sete break-points com frieza e aproveitando a única chance que teve para fechar em 6/4.
O cenário mudou drasticamente no segundo set. Após abrir uma quebra de vantagem, Bia teve seu pior game no torneio, incluindo uma dupla falta que entregou o empate. Baptiste cresceu, arriscou mais e colheu os frutos: venceu cinco games consecutivos e virou a partida. No terceiro set, a brasileira foi engolida por uma adversária embalada e extremamente agressiva. O jogo virou uma via de mão única.
No fim, os números foram reveladores: embora Bia tenha cometido apenas um erro a menos do que a adversária (24 contra 25), Baptiste fez 48 winners, enquanto a brasileira anotou apenas 28. A norte-americana foi mais incisiva, mais precisa e mais confiante.
Críticas sim, mas com contexto
Com a derrota, as críticas vieram rápido — e pesadas. Parte da imprensa e de torcedores nas redes sociais apontaram “declínio”, “instabilidade mental” e até colocaram em xeque o profissionalismo da atleta. Mas há algo desproporcional nesse julgamento.
Bia Haddad Maia é, hoje, a tenista brasileira mais bem colocada no ranking da WTA desde Maria Esther Bueno. E, em termos de circuito profissional moderno, é o nome mais relevante desde Gustavo Kuerten.
Sua semifinal histórica em Roland Garros em 2023, o título de WTA 1000 em Toronto (2022), o vice-campeonato em Abu Dhabi (2024), as vitórias contra top 10 como Iga Swiatek, Maria Sakkari e Ons Jabeur, tudo isso compõe um currículo que a coloca em um patamar que o tênis brasileiro feminino não via há décadas.
Além disso, Bia é uma das poucas brasileiras da era recente a competir com frequência nos grandes torneios, jogando duplas e simples, enfrentando a elite do esporte de igual para igual. Seu compromisso com a carreira é visível, e os momentos de oscilação fazem parte do esporte de alto nível.
A solidão da elite para Bia
O problema está em como o público e parte da imprensa tratam sua má fase. Em vez de compreender que o tênis é um esporte de ciclos — onde até mesmo as melhores jogadoras do mundo enfrentam quedas de rendimento —, as cobranças em cima de Bia às vezes soam como um desejo inconsciente de vê-la falhar.
Talvez o real motivo seja que, finalmente, o Brasil teve alguém competitivo no circuito feminino, e isso despertou uma expectativa acima da realidade. Bia nunca foi top 5, nunca foi favorita a Slam. Mas está constantemente entre as 30 melhores do mundo há dois anos — e isso, para o tênis brasileiro, é elite.
Aos 28 anos, Bia ainda tem janela de tempo e talento para retomar o bom momento. A questão física será crucial: ela tem lidado com lesões recorrentes no ombro e na perna desde o segundo semestre de 2023. O aspecto emocional também deve ser tratado, talvez com reforço de equipe ou mudança de abordagem.
Com Wimbledon e a temporada de grama no horizonte, Bia terá novas oportunidades para mostrar sua capacidade. Sua temporada ainda pode ser virada, como já aconteceu em outras fases de sua carreira.
(Foto: Cancha Central)



