A trajetória de Kamaru Usman no UFC é inegavelmente vitoriosa. Ex-campeão dominante dos meio-médios, invicto por anos, dono de defesas de cinturão memoráveis e apontado por muitos como um dos melhores lutadores de sua geração. No entanto, o tempo passou, o corpo sentiu, e o nigeriano viu seu domínio ruir com uma sequência de derrotas. Agora, em 2025, Usman busca o impossível: reacender a própria lenda e construir uma trilha que culminaria em uma superluta contra o atual campeão peso-médio, Dricus Du Plessis, em um possível evento histórico no continente africano.
Mas até onde essa ideia faz sentido? E quais as chances reais de ela se concretizar?
O início da trilha: vencer Joaquin Buckley
O primeiro passo do plano de Usman é vencer Joaquin Buckley no UFC Atlanta. À primeira vista, parece uma tarefa direta para um ex-campeão mundial, mas o contexto atual não favorece o nigeriano. Usman não vence desde 2021 e vem de três derrotas consecutivas, duas contra Leon Edwards e uma para Khamzat Chimaev, em uma tentativa nos pesos-médios.
Buckley, por outro lado, vive o melhor momento da carreira. Após descer para os meio-médios, engatou uma sequência de vitórias convincentes, nocauteando nomes relevantes e se consolidando como uma ameaça real no top 10. É explosivo, agressivo e tem mostrado evolução técnica considerável.
Portanto, Usman não pode apenas vencer, ele precisa convencer. Um triunfo apertado por decisão dividida, ainda mais vindo como azarão, pode não ser suficiente para colocar seu plano em movimento. Uma vitória por nocaute ou finalização, no entanto, reacenderia imediatamente seu nome nas discussões da elite.
Islam Makhachev no caminho: a travessia mais difícil
Usman deixou claro em entrevista coletiva que seu próximo passo seria enfrentar o vencedor da possível superluta entre Islam Makhachev e Jack Della Maddalena — luta ainda não oficializada, mas fortemente especulada. Islam, que vagou o cinturão do peso-leve e considerado um dos lutadores mais dominantes do UFC, vai subir para os meio-médios em busca de um segundo cinturão.
A ideia de enfrentar Islam pode soar atrativa pelo prestígio, mas representa um risco gigantesco. Makhachev é conhecido por seu grappling sufocante, cardio inabalável e inteligência tática, exatamente os atributos que começamos a ver se deteriorar em Usman. Mesmo que o nigeriano mantenha a força física e a experiência, sua movimentação, velocidade de reação e durabilidade já não são as mesmas de três anos atrás.
Se Makhachev vencer seu duelo e Usman for seu próximo oponente, o nigeriano teria que entregar uma atuação quase perfeita para superar um lutador que está em seu auge.
Dricus Du Plessis: a recompensa final?
Caso ultrapasse essas duas barreiras, Usman teria o caminho aberto para subir definitivamente aos médios e desafiar Dricus Du Plessis. Essa seria a superluta dos sonhos: dois africanos, campeões em suas categorias, duelando pelo cinturão em um card histórico no continente africano.
A ideia é cinematográfica. Usman, nascido na Nigéria, sempre desejou fazer parte de um evento na África. Du Plessis, sul-africano, já se declarou o verdadeiro representante africano no UFC, o que inclusive gerou polêmica com o próprio Usman e Israel Adesanya. Colocar os dois frente a frente em um octógono em Joanesburgo ou Lagos seria o ápice narrativo de uma rivalidade com tintas políticas, culturais e esportivas.
No entanto, Dricus não é apenas um personagem com boa narrativa. Ele é um lutador extremamente eficiente, com grappling físico, striking não convencional, mas muito eficaz, e uma resistência impressionante. Desde que chegou ao UFC, superou nomes como Derek Brunson, Robert Whittaker e Sean Strickland, e agora tem em seu currículo o cinturão dos médios conquistado com autoridade.
Usman, mesmo em seu auge, teria dificuldade contra um atleta como Du Plessis. Hoje, aos 37 anos, e com um histórico recente de derrotas, o desafio é ainda maior.
Faz sentido esse plano?
Do ponto de vista promocional, faz todo sentido. Usman ainda é um nome forte, com apelo internacional e histórico de grandes combates. A ideia de uma trilha épica para uma superluta na África é do tipo que o UFC adora transformar em realidade. A narrativa vende. A bilheteria compensa.
Mas, do ponto de vista esportivo, o caminho parece cada vez mais estreito. Usman já passou dos 35 anos, vem de três derrotas seguidas e não compete há quase dois anos. Ele não terá margem para erro. Qualquer tropeço contra Buckley ou qualquer derrota nos planos intermediários encerra a trajetória.
Além disso, o tempo pode ser um inimigo silencioso. Mesmo que vença no UFC Atlanta, o calendário até uma eventual luta com Du Plessis é apertado. O sul-africano pode perder o cinturão, se machucar ou entrar em outra rivalidade antes que Usman esteja pronto. Ou, simplesmente, o UFC pode mudar o curso da narrativa por conta do mercado e de oportunidades comerciais mais imediatas.
Kamaru Usman tem um plano. Ele acredita em si mesmo, como sempre acreditou, e tem confiança de que pode voltar ao topo. E talvez ele esteja certo. Mas o UFC atual é brutal, rápido e pouco sentimental. A superluta contra Dricus Du Plessis seria fantástica — em teoria. Na prática, ela depende de uma combinação quase perfeita de vitórias, saúde, tempo e oportunidade.
(Foto: Per Haljestam-USA TODAY Sports)