Um rosto familiar e até então improvável voltou a circular pelos bastidores do UFC. Francis Ngannou, ex-campeão dos pesos-pesados, subiu ao palco da pesagem cerimonial do UFC Atlanta na tarde de sexta-feira, ao lado do amigo Kamaru Usman, reacendendo especulações sobre um possível retorno ao octógono.
A cena surpreendeu fãs e jornalistas, e rapidamente o nome de Ngannou voltou a ser ventilado em discussões sobre uma superluta com Jon Jones – algo que, embora empolgante, está repleto de obstáculos contratuais, comerciais e pessoais.
Ngannou deixou o UFC em janeiro de 2023 como campeão linear dos pesos-pesados. Ele não perdeu o cinturão dentro do octógono — pelo contrário, vinha de vitória sobre Ciryl Gane mesmo lutando com o joelho lesionado. O título foi deixado vago quando o camaronês e o UFC não chegaram a um acordo de renovação contratual.
A razão principal da saída foi financeira: Ngannou considerava que não estava sendo valorizado de acordo com seu impacto no esporte. Além disso, o UFC não permitia que seus atletas competissem em outras modalidades. Ngannou queria experimentar o boxe profissional — desejo que seria negado dentro da estrutura da organização de Dana White.
Foi uma jogada arriscada. Ngannou saiu do maior palco do MMA sem garantia de sucesso em outro território. Mas a aposta deu certo. Ele assinou contrato com a PFL (Professional Fighters League), garantiu liberdade contratual e participou de dois confrontos gigantescos no boxe: contra Tyson Fury e Anthony Joshua. Apesar das derrotas, ele faturou milhões – mais do que em toda sua carreira no UFC.
A aparição que reacendeu a especulação
No evento de pesagem do UFC Atlanta, Ngannou acompanhou Kamaru Usman, ex-campeão dos meio-médios e seu amigo de longa data. A amizade entre os dois é conhecida — Usman inclusive já chegou a emprestar dinheiro a Francis antes de sua explosão no MMA. No palco, o camaronês foi recebido com aplausos calorosos e um misto de surpresa e nostalgia.
Sua presença foi suficiente para movimentar redes sociais e alimentar rumores: seria essa uma reaproximação com o UFC? Teria sido uma jogada calculada para medir a reação do público e da organização? Apesar da empolgação gerada, há razões sólidas para acreditar que o retorno de Ngannou ao UFC ainda está longe de se concretizar.
Jon Jones: o duelo que todos querem, mas ninguém consegue fechar
A maior expectativa criada com a presença de Ngannou foi o embate com Jon Jones. O campeão dos pesos-pesados do UFC há tempos flerta com a ideia de enfrentar o camaronês, e o confronto é considerado uma das superlutas mais aguardadas da história recente do MMA. De um lado, o predador camaronês com potência bruta. Do outro, o estrategista norte-americano com um dos currículos mais vitoriosos da modalidade.
Apesar do apelo, o UFC já deixou claro que não está interessado — ao menos por enquanto. Dana White foi direto ao ser questionado sobre a possibilidade de trazer Ngannou de volta: “Provavelmente não”, disse, encerrando o assunto em poucas palavras. Segundo ele, o foco está em fazer Jon Jones enfrentar Tom Aspinall, campeão interino dos pesados, ainda este ano.
Um dos grandes impedimentos para que a luta entre Jones e Ngannou aconteça é a situação contratual do camaronês. Ele está vinculado à PFL e, embora o contrato lhe dê liberdade para competir no boxe, não há indícios de que ele possa cruzar de volta para o UFC sem que as organizações entrem em acordo – algo extremamente raro e comercialmente complexo.
Além disso, há a questão da relação pessoal estremecida entre Ngannou e Dana White. Desde a saída do atleta, os dois trocaram farpas publicamente. White chegou a dizer que Ngannou “não queria correr riscos” e o chamou de “difícil de negociar”. Francis, por sua vez, acusou o UFC de tratar seus atletas como produtos descartáveis. Esses ressentimentos dificultam qualquer tratativa de reconciliação.
O que pensa Ngannou?
Nos bastidores, o técnico Eric Nicksick, que acompanha Ngannou desde sua ascensão no UFC, chegou a comentar que uma volta ao octógono “não está fora de questão”. No entanto, dias depois, minimizou a possibilidade. Para Nicksick, Ngannou está focado em concluir compromissos com a PFL e seguir em busca de lutas no boxe. Deontay Wilder é um nome frequentemente mencionado, tanto em um duelo de boxe quanto numa possível luta de MMA.
Ngannou, até o momento, não falou publicamente sobre a visita ao UFC Atlanta. Sua postura foi discreta, mas sua simples presença foi interpretada como uma provocação simbólica: ele ainda se considera parte do topo do MMA mundial, mesmo fora do UFC.
Para os fãs, a ideia de ver Francis Ngannou contra Jon Jones continua sendo irresistível. É uma luta de estilos, personalidades e legados distintos. Mas no mundo real dos negócios do MMA, o sonho esbarra em egos, contratos e interesses que nem sempre convergem.
Ainda assim, no mundo do esporte, o “nunca” raramente é definitivo. A presença de Ngannou no UFC Atlanta foi um lembrete de que o camaronês segue relevante, poderoso e, talvez, mais próximo do que parece. Por enquanto, tudo permanece na esfera da especulação. Mas se há algo que a carreira do camaronês ensina, é que ele nunca entra em cena por acaso.
(Foto: Cooper Neill/Zuffa LLC)