Erik ten Hag tá encarando o que pode ser o maior desafio da carreira dele — e olha que não faltam capítulos marcantes nessa trajetória. Depois de comandar o gigante Ajax e viver a montanha-russa que foi o Manchester United, o Ten Hag agora tem a missão de reconstruir o Bayer Leverkusen, um time que foi brilhantemente lapidado por Xabi Alonso, mas que, neste momento, tá sendo praticamente desmontado.
E não é exagero, não. O Leverkusen tá sendo esvaziado de maneira radical. Já perdeu nomes cruciais como Jonathan Tah, Jeremie Frimpong e Florian Wirtz — que, convenhamos, é um dos jovens mais talentosos do futebol mundial. E a debandada pode não parar por aí: Granit Xhaka tá conversando com o Milan, Piero Hincapié quer sair, Victor Boniface deve ser vendido, e até Alejandro Garnacho e Robert Andrich podem sair. Ou seja, Ten Hag pode se ver sem quase nenhum dos pilares da campanha histórica da última temporada.
Só que o buraco é ainda mais embaixo. A reconstrução de elenco por si só já seria um baita desafio, mas Ten Hag também precisa se adaptar a uma estrutura de clube totalmente diferente da que ele tinha no United. Lá em Manchester, ele era praticamente um “manda-chuva”. Tinha poder de veto, influência direta em contratações e decisões estratégicas. No Leverkusen, esse cenário muda completamente: ele vai responder ao diretor esportivo Simon Rolfes e ao CEO Fernando Carro — dois caras que montaram o projeto mais ousado da Alemanha nos últimos anos.
Foi essa dupla, inclusive, que apostou em Xabi Alonso quando ninguém mais apostaria. Um técnico sem experiência em times profissionais, contratado num momento em que o Leverkusen flertava com a zona de rebaixamento. O resto é história: Alonso levou o time ao título da Bundesliga e à final da Liga Europa. Parte desse sucesso também veio de uma mudança radical na política de transferências — em vez de só apostar em jovens para revender, o clube trouxe nomes cascudos como Xhaka e Grimaldo. E deu certo.
Passagem de Erik Ten Hag no United
Agora, Ten Hag chega num momento de ruptura. E a pergunta que fica é: será que ele aprendeu com os erros que cometeu no United?
Porque, convenhamos, a passagem dele por Manchester foi tudo menos tranquila. Apesar de ser, numericamente, o técnico mais vitorioso do clube desde a era Ferguson, o estilo de jogo engessado, as decisões duvidosas e, principalmente, as contratações caríssimas e pouco eficazes, deixaram cicatrizes profundas. Antony, Mount, Onana… todos vieram por valores altos e entregaram bem menos do que se esperava. E hoje, o clube ainda paga — literalmente — por essas escolhas.
Desafio no Bayer Leverkusen
No Leverkusen, ele não vai ter liberdade pra repetir esses erros. O clube é conhecido pela eficiência nos gastos. Mesmo com uma projeção de mais de 300 milhões de euros entrando em vendas, ninguém acredita que eles vão gastar 80 milhões em um jogador só, como o United fez com Antony, por exemplo. Até nomes especulados, como o próprio Garnacho, parecem fora da realidade financeira do clube alemão.
Por outro lado, essa pode ser uma oportunidade única na vida de Ten Hag. Ele vai ter uma grana considerável, autonomia parcial e um projeto já estruturado. É como começar um game no modo difícil, mas com todos os recursos desbloqueados. Se ele souber usar bem a base deixada por Alonso e agregar a sua filosofia sem repetir os autoritarismos do United, o Leverkusen pode se manter competitivo e até brigar de novo com o Bayern.
Mas se ele insistir nos velhos erros — teimosia tática, gestão complicada de grupo e contratações questionáveis —, o castelo pode desmoronar rápido. A paciência do futebol alemão não é muito diferente da inglesa, principalmente depois de um ano tão bom como foi o último.
A verdade é que esse verão europeu será um divisor de águas na carreira de Ten Hag. Se ele conseguir montar um time à altura da expectativa — e do legado de Xabi Alonso —, pode reacender sua reputação entre os grandes técnicos da Europa. Se fracassar, pode muito bem ser o último capítulo dele em um clube de elite.
No fim das contas, a reconstrução do Leverkusen vai ser uma prova de fogo. Não só para o clube, mas principalmente para o próprio Ten Hag. E o mundo do futebol tá assistindo de camarote.