Movsar Evloev é um dos grandes talentos da divisão dos penas do UFC. O russo de 30 anos mantém um cartel invicto no MMA, com 19 vitórias em 19 lutas, sendo 9 triunfos seguidos no UFC. Apesar do desempenho incontestável dentro do octógono, a carreira de Evloev tem um problema que começa a preocupar fãs, adversários e o próprio UFC: o excesso de lutas canceladas.
O russo chegou ao seu 11º combate desmarcado no Ultimate após desistir de enfrentar Aaron Pico em Abu Dhabi, alegando problemas de saúde durante o camp. A frequência dos imprevistos chama atenção e gera questionamentos: afinal, por que Evloev luta tão pouco e como isso afeta sua trajetória rumo ao título?
11 lutas canceladas — e o peso da responsabilidade
Desde que estreou no UFC em 2019, Evloev já teve 11 lutas canceladas ou remarcadas. Nem todas por culpa dele — algumas devido a lesões ou problemas de seus adversários. Somente quatro desses cancelamentos foram diretamente provocados pelo próprio lutador, geralmente por lesões ou, mais recentemente, por questões médicas ainda não detalhadas.
A desistência contra Pico, por exemplo, seria um confronto crucial para consolidar sua posição como próximo desafiante ao cinturão dos penas. Pico, estrela em ascensão que brilhou no Bellator, seria um teste importante para Evloev validar sua condição de “invicto ameaçador”. A frustração veio não só para o UFC, que investia na luta como atrativo do card em Abu Dhabi, mas também para os fãs, que veem o russo acumulando expectativas sem continuidade.
Além dessa, outras três lutas foram canceladas por motivos atribuídos a Evloev. No UFC 248, em 2020, Evloev sofreu um acidente de moto pouco antes do evento, cancelando sua luta contra Jamall Emmers. Dois anos depois, o russo saiu do combate contra Bryce Mitchell após lesão durante o treinamento. O cenário voltou a acontecer no ano seguinte, novamente contra Mitchell.
Somados, esses episódios geram um histórico preocupante. Evloev tem talento, técnica e é extremamente dominante quando entra no octógono, mas sua incapacidade de se manter ativo constantemente mina o ritmo necessário para um atleta se consolidar como desafiante em uma divisão tão disputada quanto a dos penas. No entanto, apenas 36% dos cancelamentos foram por conta dele.
As lutas canceladas por fatores externos
Mais do que seus próprios problemas, Evloev foi vítima das circunstâncias. Foram pelo menos sete lutas canceladas por fatores externos, como lesões dos adversários, problemas médicos de última hora ou mesmo dificuldades logísticas.
Em 2019, por exemplo, enfrentaria Mike Grundy no UFC Shenzhen, mas o britânico se lesionou antes da luta. Em 2020, testou positivo para COVID-19, forçando a saída de uma luta contra Nate Landwehr. Outro exemplo ocorreu em 2024, quando enfrentaria Aljamain Sterling, mas o ex-campeão do peso-galo sofreu uma lesão e o combate foi adiado.
Em muitos casos, o UFC tentou substituições, mas a dificuldade em encontrar adversários à altura, especialmente para um lutador com um estilo tão dominante como Evloev, fez com que as lutas fossem simplesmente canceladas.
O impacto na carreira e no ranking de Evloev
O grande problema desses cancelamentos consecutivos é o efeito direto no momentum da carreira de Evloev. Um lutador que vence, convence, mas não consegue manter regularidade competitiva tende a ser ultrapassado por concorrentes que, mesmo menos talentosos, estão em atividade constante.
Um exemplo claro é Diego Lopes. O brasileiro foi derrotado em sua estreia no UFC contra Evloev, mas conseguiu ascender rapidamente dentro dos rankings por conta de sua atividade constante e vitórias consistentes. No começo deste ano, ele disputou o cinturão vago dos penas contra Alexander Volkanovski, enquanto Evloev não foi sequer considerado.
Além disso, há um aspecto psicológico: cada cancelamento reforça a narrativa de que Evloev é “frágil” ou “inseguro fisicamente”, algo que prejudica sua imagem pública. Mesmo que injusta, essa percepção pode influenciar decisões do UFC ao montar cards e lutas por cinturão.
Publicamente, Movsar Evloev já expressou frustração com os cancelamentos e garante que não falta vontade de lutar. Segundo o russo, seu objetivo é claro: ser campeão do UFC. No entanto, admite que as lesões ou problemas de saúde o impedem de completar os camps em condição plena.
Isso reforça um ponto que não pode ser ignorado: o treinamento para o MMA em altíssimo nível é extenuante, e alguns atletas acabam mais suscetíveis a lesões ou complicações. Evloev não parece ser um lutador “frágil” no octógono — sua dominância física em lutas é evidente —, mas o desgaste em treinos, talvez por intensidade ou metodologia, pode estar cobrando um preço elevado.
O que esperar do futuro?
O UFC já sinalizou que pretende remarcar a luta contra Aaron Pico, possivelmente para o final do ano, o que seria uma nova chance para Evloev mostrar que pode se manter saudável e competitivo. Caso consiga vencer Pico, o caminho para o title shot se abre definitivamente — mas o tempo está contra ele. A cada cancelamento, mais o UFC olha para alternativas que podem ser mais confiáveis.
A expectativa é que Evloev, sua equipe e o UFC encontrem um equilíbrio que permita o russo competir regularmente. Caso contrário, o risco é que ele se transforme no clássico caso do “e se”: um talento desperdiçado pela inatividade.
No final, Evloev tem tudo para ser campeão do UFC, mas precisa lutar. Com 19 vitórias, nenhuma derrota e um jogo completo de wrestling, striking e controle, o russo já provou dentro do octógono que está no topo da elite. Agora, o desafio é fora dele: manter o corpo saudável, a mente focada e o calendário ativo. O talento está lá — mas sem lutas, ele não basta para chegar ao título e, principalmente, mantê-lo.
(Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)