O Palmeiras chegou às oitavas de final da Libertadores carregando questionamentos sobre seu desempenho ofensivo. Apesar dos resultados positivos, a equipe vinha enfrentando dificuldades para transformar posse de bola e volume de jogo em gols, especialmente contra defesas fechadas. O técnico Abel Ferreira, conhecido por buscar soluções criativas e testar variações, encontrou na última partida contra o Universitario uma resposta que pode mudar o rumo da temporada: a escalação conjunta de Flaco López e Vitor Roque no comando do ataque.
A vitória por 4 a 0 no Peru não foi apenas mais um triunfo com a marca do Verdão na competição continental. Foi, acima de tudo, um laboratório de sucesso para um esquema que oferece ao Palmeiras novas alternativas de construção e finalização, resgatando a agressividade que parecia ter se diluído em alguns compromissos recentes.
O problema: ataque previsível e excesso de dependência
Nas últimas semanas, Abel Ferreira viu seu time enfrentar obstáculos para abrir o placar e, consequentemente, controlar as partidas como de costume. Em jogos de alto nível, o Palmeiras tem capacidade de transitar rapidamente da defesa para o ataque, mas em confrontos contra rivais que se fecham e marcam com linhas compactas, a equipe se tornava previsível.
Havia uma dependência excessiva de jogadas pelas pontas, e os atacantes isolados acabavam com pouco espaço e poucas oportunidades claras. Além disso, a rotação entre Flaco López e Vitor Roque como centroavantes não conseguia extrair o melhor de ambos — um ficava no banco, enquanto o outro assumia sozinho a responsabilidade de segurar os zagueiros e atacar a última linha.
A ideia: dois perfis complementares no mesmo ataque
Contra o Universitario, Abel Ferreira decidiu colocar os dois em campo juntos. A escolha não foi apenas para surpreender o adversário, mas também como um teste prático para entender se seus estilos poderiam se complementar.
Flaco López, com seu porte físico e capacidade de jogar de costas para o gol, assumiu o papel de referência fixa, atraindo os defensores e abrindo corredores. Vitor Roque, veloz e explosivo, circulou em torno dele, alternando movimentos de profundidade com aproximação para tabelas rápidas.
O resultado foi imediato: participação direta da dupla nos dois primeiros gols, um pivô perfeito para assistência e um deslocamento inteligente para liberar espaço. Abel conseguiu algo que há muito buscava — um ataque que oferece ao adversário dois problemas distintos ao mesmo tempo.
A presença de dois atacantes de área mudou a forma como o Palmeiras se posicionou ofensivamente. Os laterais puderam subir com mais liberdade, já que havia sempre alguém atacando a segunda trave. Piquerez, em especial, aproveitou para oferecer passes longos e inversões rápidas, explorando a velocidade de Roque e a presença física de Flaco.
Maurício e Ramón Sosa encontraram mais opções de passe e menos marcação individual. Com dois jogadores constantemente empurrando a linha defensiva para trás, os pontas tiveram mais tempo para pensar e escolher a jogada, algo que vinha sendo raro. Lucas Evangelista, por sua vez, ocupou mais espaço no campo, sem ter a preocupação constante de pisar na área para dar uma opção ofensiva.
A mudança também gerou mais imprevisibilidade nas transições ofensivas. Em vez de depender de uma única referência, o Palmeiras variou entre lançamentos longos, triangulações curtas e infiltrações em velocidade — um cardápio mais amplo que desgastou a defesa peruana e expôs seus erros.
O que isso significa para o futuro do Palmeiras?
É cedo para dizer se Abel Ferreira adotará a dupla como titular em jogos mais difíceis, especialmente contra adversários brasileiros ou nas fases decisivas da Libertadores, ou quando Raphael Veiga retornar de lesão. Em termos defensivos, atuar com dois atacantes exige mais compactação do meio-campo, e isso pode comprometer o equilíbrio que sempre foi marca registrada do treinador.
No entanto, a partida contra o Universitario mostrou que o Palmeiras pode ter encontrado uma solução para dias de ataque travado. O uso de Flaco e Roque juntos é uma arma especialmente útil contra rivais que marcam alto, deixam espaço nas costas ou não conseguem lidar com a variação entre força física e velocidade pura.
Além disso, a experiência serve para dar mais minutos de jogo a Vitor Roque, que chegou ao clube com status de grande reforço, e para valorizar Flaco López, que vinha sendo questionado por oscilações de desempenho. Juntos, mostraram que podem potencializar um ao outro.
No final, Abel Ferreira transformou uma partida que poderia ter sido mais um confronto protocolar em um teste importante para o futuro do Palmeiras. A dupla Flaco–Roque não é apenas uma alternativa tática, mas uma nova forma de abrir defesas e devolver ao Verdão a agressividade que parecia ter perdido.
Se for lapidada e adaptada a diferentes contextos de jogo, essa combinação pode se tornar um diferencial decisivo nas fases finais da temporada, especialmente na Libertadores, onde pequenas variações táticas podem separar candidatos a campeões de equipes eliminadas precocemente.
O recado está dado: o Palmeiras tem mais de uma forma de atacar — e Abel Ferreira, mais uma vez, mostrou que não tem medo de reinventar sua equipe.
(Foto: Ernesto Benavides/AFP)