Velha Champions, novo Madrid. A primeira noite de Xabi Alonso na maior competição continental foi tudo menos tímida. O treinador decidiu que o Real Madrid começaria o jogo contra o Marselha sufocando o rival, adiantando as linhas e recuperando a bola o mais rápido possível. Logo nos primeiros 15 minutos, os merengues já tinham criado oito chances claras de gol, transformando o Santiago Bernabéu numa verdadeira câmara de pressão. Cada saída de bola francesa era um drama; cada recuperação do Madrid, uma senha para atacar.
Essa postura fez o Marselha praticamente implorar por oxigênio. Rulli, goleiro argentino dos visitantes, teve de fazer 10 defesas só na primeira parte – número que não se via em Chamartín desde 2012. O Madrid defendeu para frente e atacou defendendo. Recuperou 12 bolas no terço final e outras 12 no terço intermediário do campo, uma estatística que explica a sensação de sufoco que o time de De Zerbi sentiu durante boa parte do duelo.
Um erro, uma brecha para o rival
No entanto, até num plano tão bem executado existe espaço para erro. E ele custou caro. Uma saída equivocada de Arda Güler resultou no gol do Marselha, castigando a única brecha aberta na primeira parte. A jogada expôs um ponto que Xabi Alonso ainda precisa resolver: a ausência de um organizador confiável para dar ritmo à equipe. Sem esse perfil, o Madrid depende de ligações diretas e de jogadores ainda verdes para a Champions.
Huijsen, por exemplo, é talentoso, mas inexperiente: tinha só 142 minutos somados na competição antes desse jogo. Tentou compensar com giros rápidos e passes de primeira na intermediária ofensiva, como pediu o técnico, mas ainda assim sentiu a exigência do torneio. Mesmo assim, a defesa seguiu adiantada, com Militao e o próprio Huijsen marcando alto para travar recepções de Aubameyang e O’Riley. Essa coragem manteve os franceses encurralados até o empate de Mbappé de pênalti – um 1 a 1 que poderia facilmente ser um 3 a 1 se os merengues tivessem convertido suas chances.
Intensidade que cobra preço
Depois do intervalo, o cenário mudou um pouco. É impossível manter aquele ritmo insano por 90 minutos. O Madrid perdeu um pouco da nitidez na pressão, cometeu erros e permitiu que o Marselha conseguisse trocar mais passes e chegar algumas vezes. A intensidade inicial se transformou em esforços mais pontuais, sinal do enorme desgaste físico exigido pelo plano de jogo de Xabi. Ainda assim, o time manteve o homem a homem e a recuperação pós-perda como princípios básicos, com o treinador mexendo no banco para tentar refrescar as pernas.
Essa mexida funcionou e teve um líder claro: Tchouaméni. O francês dominou a segunda linha de pressão, antecipando jogadas perto da área rival e cortando tentativas de progressão dos visitantes. Foram cinco interceptações – igualando sozinho o restante do time – e cinco recuperações entre as 49 totais do Madrid, segundo dados da Opta. Não é à toa que Xabi vê nele o pilar para dar equilíbrio a um sistema tão exigente.
Valverde sacrificado, Mbappé transformado
Quem teve uma noite mais discreta foi Valverde. O uruguaio, acostumado a romper linhas lá na frente com suas arrancadas, precisou descer para dar saída na base da jogada. Isso reduziu sua influência ofensiva e o prendeu a tarefas de cobertura, especialmente no lado de Emerson. Mesmo assim, manteve a média de metros percorridos por condução em relação à última Champions, mas agora arrancando mais distante da área adversária e gerando menos perigo direto.
Já Mbappé encarnou como ninguém a ideia de Xabi. Chamado a ser o líder, o francês não ficou só esperando bolas no ataque. Ele foi o primeiro defensor, lembrando o “método Dembélé” que Luis Enrique implantou no PSG para obrigar os atacantes a pressionar. Kylian fez 33,8 ações de pressão no jogo – mais até do que a média de Ousmane Dembélé na última edição do torneio. Depois da partida, o próprio Mbappé admitiu que Xabi pede esse tipo de esforço: recuperar rápido, pressionar alto e transformar roubos de bola em chances.
Um Madrid de Xabi Alonso que começa na frente
Essa é a imagem que ficou do novo Madrid de Xabi Alonso. O time não espera no próprio campo, ele se impõe já no terço final. E sua maior estrela é quem dá o exemplo. Para Mbappé, esse é o caminho para conquistar títulos e prêmios individuais; para o Madrid, é o início de uma nova identidade competitiva na Champions.
O 2 a 1 final contra o Marselha mostrou que ainda há ajustes a fazer – a falta de um armador, a queda física no segundo tempo –, mas também deixou claro que o Bernabéu voltou a ser um caldeirão de pressão. Se Xabi conseguir calibrar esse plano, o Real pode transformar intensidade e sufoco em marca registrada e voltar a ser um candidatp pesado na Europa.