Ancelotti, Bayern de Munique
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A ferida aberta deixada em Ancelotti

Carlo Ancelotti é conhecido por seu estilo calmo, quase paternal, e por um currículo recheado de conquistas. Mas, mesmo para um treinador habituado a grandes clubes e altos níveis de exigência, há experiências que deixam marcas profundas. Uma delas foi sua curta e turbulenta passagem pelo Bayern de Munique, entre 2016 e 2017. No livro “El sueño: cómo ganar la Champions League”, que será lançado em 1º de outubro, o técnico italiano revisita sua trajetória no futebol e reserva algumas das páginas mais ácidas para o período na Baviera.

O Bayern, ao contrário do Milan e do Real Madrid — que ganham capítulos próprios no livro — não recebeu um capítulo exclusivo. Ancelotti prefere encaixar seu depoimento sobre os alemães em trechos dispersos, quase como desabafos. O motivo fica claro: ele ainda sente como uma ferida aberta o que chama de “o despedimento mais despiadado” de sua carreira.

Conquistas não bastaram para Ancelotti

Ancelotti chegou ao Bayern em 2016 para suceder Pep Guardiola. Em sua primeira temporada conquistou a Bundesliga com folga, abrindo 15 pontos para o vice, além de levantar duas Supercopas da Alemanha. No papel, era um desempenho impecável, inclusive superior em números ao que Guardiola conseguira nas duas temporadas anteriores. Mas, segundo ele, esse sucesso foi encarado como “o mínimo esperado” pelos dirigentes.

O treinador também encontrou um ambiente de trabalho completamente diferente dos clubes onde havia estado. Acostumado a lidar com um presidente forte ou um proprietário carismático, de repente passou a responder a um conselho formado por múltiplas figuras históricas do futebol alemão. “Era responsável diante de várias pessoas ao mesmo tempo. Me custava decidir quem tinha mais poder”, escreve. Num episódio emblemático, conta que chegou a pedir opinião ao então capitão Philipp Lahm sobre como lidar com essa rede de influências.

Choque de culturas e listas de regras

O relacionamento começou a azedar no vestiário. Ancelotti descreve que recebeu uma “lista de cinco pontos” elaborada pela diretoria para impor mais disciplina aos jogadores. Para um técnico que valoriza autonomia e diálogo com atletas de alto nível, aquilo soava como um insulto. “Me pus diante do time, tirei o papel do bolso e disse: ‘Tenho ordens da diretoria para ler esta lista’. Essa foi minha forma de me distanciar da tarefa”, recorda.

Ele não cita os nomes dos dirigentes envolvidos, mas deixa claro que a mudança de presidente, com o retorno de Uli Hoeness e a presença marcante de Karl-Heinz Rummenigge na diretoria, criou um clima de interferência difícil de administrar. “Fiz todo o possível para manter minha independência”, escreve. Mas a relação parecia cada vez mais tensa.

A noite de Paris

O estopim veio em 27 de setembro de 2017, no Parque dos Príncipes. O Bayern foi atropelado pelo Paris Saint-Germain de Neymar e Mbappé por 3 a 0, a derrota mais pesada do clube na Champions em 21 anos. Logo após a partida, Rummenigge declarou publicamente que “o que vimos esta noite não foi o Bayern de Munique” e prometeu “consequências”.

Para Ancelotti, aquele foi o sinal de que a corda havia estourado. Menos de 24 horas depois, ele estava fora. “Essa experiência me mostrou que não é preciso um presidente errático ou um dono imprevisível para que te demitam. Os acionistas de uma empresa também podem fazê-lo”, diz. Para alguém acostumado à elite europeia, não era novidade ser desligado — ele já havia passado por Juventus, Chelsea e Real Madrid — mas, segundo confessa no livro, “essa foi a demissão mais despiadada” da carreira.

Heynckes, Real Madrid e um ciclo que se fecha

Após sua saída, Jupp Heynckes assumiu o comando e levou o Bayern às semifinais da Champions League, onde caiu justamente para o Real Madrid — clube que Ancelotti havia dirigido antes de chegar à Alemanha. O italiano não esconde o sabor amargo dessa ironia.

Hoje, anos depois, ele prefere tratar o episódio como aprendizado. Revela que trabalhar num clube sem um “dono” ou um “líder único” foi um choque cultural e que talvez tenha subestimado a força das estruturas internas do Bayern. Ao mesmo tempo, deixa evidente que, em sua visão, a forma como foi cobrado e demitido extrapolou os limites do profissionalismo.

Um técnico vitorioso, mas não imune a mágoas no Bayern

O livro “El sueño” dedica seis capítulos ao Milan e cinco ao Real Madrid, clubes onde Ancelotti construiu laços afetivos e títulos incontestáveis. O Bayern aparece apenas nas entrelinhas, como um trauma. Mesmo assim, há um fio de gratidão nas palavras do treinador: ele reconhece a qualidade do elenco, cita jogadores lendários e admite que a Bundesliga vencida foi um marco importante.

Mas a mensagem predominante é outra. Para um técnico que coleciona Champions League e é respeitado por sua gestão de grupos, a passagem por Munique é um lembrete de que nem sempre resultados e currículo garantem estabilidade. E que, no futebol de alto nível, mesmo um “Mister” como Ancelotti pode sair pela porta dos fundos.