A notícia de que Abel Ferreira recusou uma proposta do Nottingham Forest em setembro reacendeu um debate que acompanha o treinador português desde que chegou ao Palmeiras: afinal, o técnico mais vitorioso do futebol brasileiro na atualidade ainda sonha em voltar à Europa, ou já construiu um projeto que o satisfaz plenamente no Brasil?
Segundo a ESPN, Abel foi procurado logo após a demissão de Nuno Espírito Santo. O clube inglês via no comandante alviverde um nome capaz de reorganizar a equipe e trazer o mesmo tipo de impacto que ele promoveu no futebol sul-americano. No entanto, a negativa foi imediata.
Essa resposta surpreendeu parte da imprensa europeia, mas, dentro do Palmeiras, foi vista como um gesto de coerência. Às vésperas de assinar a renovação até dezembro de 2027, Abel Ferreira demonstra que sua prioridade continua sendo o projeto que construiu em São Paulo — e não um retorno apressado ao Velho Continente.
Um técnico em outro estágio da carreira
Abel Ferreira não é mais o jovem treinador que chegou ao Palmeiras em 2020, vindo do PAOK, em busca de afirmação. Aos 46 anos, o português atingiu um patamar raro: é hoje o técnico estrangeiro mais vitorioso da história do Brasil, com 10 títulos conquistados em apenas quatro anos, incluindo duas Libertadores (2020 e 2021), dois Brasileiros (2022 e 2023), uma Copa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa do Brasil.
Esse currículo coloca Abel entre os treinadores mais bem-sucedidos da era moderna do futebol sul-americano. Mas, mais do que os troféus, o português conquistou algo que poucos europeus conseguiram fora do continente: estabilidade e identificação cultural.
Ele transformou o Palmeiras em um clube com identidade tática, mentalidade competitiva e estrutura profissional, algo que até mesmo técnicos renomados no Brasil não conseguiram sustentar por tanto tempo. A sintonia com a diretoria, especialmente com Leila Pereira, e o controle que Abel exerce sobre o ambiente interno explicam parte dessa longevidade.
A recusa ao Nottingham Forest: mais que uma decisão profissional
O Nottingham Forest, embora tenha tradição na Inglaterra — bicampeão europeu nos anos 70 sob Brian Clough —, vive hoje uma realidade completamente diferente. O clube, que estava lutando para se manter na Premier League, deu um salto na temporada passada, conquistando uma vaga na Europa League.
O convite a Abel, portanto, era um desafio arriscado. Sair de um ambiente onde é ídolo, com total respaldo da diretoria e da torcida, para assumir um time em ascensão, em uma liga que demite treinadores com facilidade, não parecia racional. A pressão seria imensa, e ele sabia disso.
Além disso, o português já demonstrou em diversas entrevistas uma postura pragmática em relação à carreira. Vale lembrar que, alguns anos atrás, Abel rejeitou o Benfica, clube do seu país natal, para ficar no Palmeiras A recusa, portanto, foi tanto uma escolha de estabilidade quanto um ato de maturidade profissional. Abel compreende o momento e o contexto — algo que muitos técnicos, ao buscar o “grande salto”, acabam ignorando.
O contexto emocional e o projeto pessoal de Abel
Outro fator essencial é o envolvimento emocional de Abel com o Palmeiras. O técnico sempre destacou que o clube o transformou — não apenas como profissional, mas como pessoa. Desde a estrutura que o clube deu enquanto ele estava longe de sua família, até as conquistas históricas na Libertadores, o português criou laços fortes com o elenco, a comissão técnica e os torcedores.
Sua família se adaptou ao Brasil, e o treinador parece confortável com a rotina e a estrutura de trabalho que o clube oferece. Em um ambiente em que raramente há estabilidade, Abel conseguiu algo raro: um projeto esportivo de longo prazo — com autonomia para desenvolver jogadores, participar de decisões estratégicas e moldar o DNA competitivo do time.
A renovação contratual até 2027 reforça esse compromisso, mas com um detalhe curioso: sem multa rescisória para nenhum dos lados. Isso significa que tanto Abel quanto o Palmeiras poderão encerrar a parceria sem penalidades financeiras — uma prova de confiança mútua e maturidade institucional.
A escolha de quem sabe o próprio tamanho
No final, a recusa ao Nottingham Forest não é sinal de desinteresse pela Europa, mas de lucidez. Abel Ferreira sabe que, para dar o próximo passo, precisa que o projeto seja compatível com o nível de estabilidade e ambição que alcançou no Palmeiras.
Por ora, não há nada que o atraia mais do que o clube que o transformou em lenda. E, enquanto isso, o futebol brasileiro segue sendo o grande beneficiado por um técnico que decidiu ficar — não por comodismo, mas por convicção.
Abel Ferreira rejeitou a Europa, mas não por falta de capacidade. Rejeitou porque entendeu algo que muitos treinadores ainda buscam descobrir: a verdadeira grandeza está em saber o momento certo de partir — e, mais ainda, o de ficar.
(Foto: Cesar Greco/Palmeiras)



