Napoli, De Bruyne, Antonio Conte
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De Bruyne, Lang e o dilema de Conte: o problema do Napoli é o elenco ou o treinador?

Antonio Conte sempre soube usar as palavras certas para enviar recados — mesmo sem citar nomes. Mas, após a goleada sofrida para o PSV Eindhoven, o técnico do Napoli deixou ainda mais evidente algo que vinha sendo dito, de forma velada, desde o início da pré-temporada: ele não está satisfeito com o elenco. As críticas constantes aos novos reforços mostram um desconforto claro, que agora começa a tomar corpo. Com quatro derrotas até o fim de outubro, o Napoli vive um momento de instabilidade, e Conte não esconde a frustração com o rendimento dos recém-chegados.

O treinador parece cada vez mais convicto de que o clube falhou na montagem do grupo. E, embora a diretoria tenha investido pesado no mercado, a resposta em campo tem sido decepcionante. Alguns jogadores, como Noa Lang, já começaram a demonstrar publicamente insatisfação com o tratamento recebido.

O caso Lang e o desafio de encaixar os novos

A insatisfação de Noa Lang era questão de tempo. O atacante, contratado a pedido da diretoria e apontado como substituto ideal para Kvaratskhelia, tem sido figura rara em campo. Apesar de o Napoli ter negociado por meses sua chegada, Lang não parece se encaixar na filosofia de Conte — um treinador que preza pela intensidade, pela disciplina tática e pela entrega física.

Conte, por sua vez, nunca demonstrou total confiança no holandês. Preferiu improvisar McTominay ou Spinazzola na ponta esquerda e tentou, sem sucesso, trazer Dan Ndoye, seu velho conhecido dos tempos de Serie A. Lang, quando entra, é quase sempre em situações desesperadoras, quando o time já está em desvantagem e o jogo praticamente perdido.

Essa falta de espaço virou motivo de frustração para o ex-jogador do PSV, que chegou a questionar publicamente: “Por que não jogo?”. A resposta, aparentemente, passa menos pela qualidade do atleta e mais por uma questão de perfil — o que escancara a dificuldade de Conte em adaptar jogadores que não se encaixam de imediato em seu modelo.

Os novos de Conte: um elenco que ele próprio não confia

O caso de Lang é só a ponta do iceberg. Dos nove reforços contratados nesta temporada, apenas Kevin De Bruyne é titular absoluto — e, curiosamente, um dos que mais têm sido questionados. Milinkovic-Savic começa a ganhar espaço no gol, Beukema só joga por causa das lesões de Rrahmani e Buongiorno, enquanto Miguel Gutiérrez e Marianucci praticamente não foram utilizados.

Lucca, por sua vez, só entra quando Hojlund é poupado, e suas atuações não ajudam a convencer o técnico. A impressão é que Conte não confia em quase ninguém que chegou, e essa resistência em dar oportunidades tem cobrado seu preço em campo.

Na coletiva após o jogo contra o PSV, o treinador desabafou: “Não se pode brincar com o Napoli”. Foi um recado direto à diretoria, mas que também reflete uma rigidez que já começa a gerar tensão interna.

De Bruyne e o enigma tático do Napoli

A chegada de De Bruyne, tratada como o grande golpe de mercado do Napoli, acabou provocando um efeito colateral. O belga desestabilizou um meio-campo que funcionava bem, tirando espaço de McTominay e sobrecarregando Anguissa, que precisa se desdobrar para cobrir os avanços do astro. Até Lobotka, peça-chave na conquista do último Scudetto, tem perdido protagonismo.

O problema é que o De Bruyne do Napoli não é o mesmo do Manchester City. Lá, ele atuava mais avançado, com liberdade para criar; em Nápoles, Conte o transformou em um meia recuado, com obrigações defensivas que claramente não o favorecem. O resultado é um jogador desconfortável, distante de sua melhor forma e de seu melhor papel.

E, ao insistir em mantê-lo em campo a qualquer custo, Conte cria um novo dilema: o time parece refém de um jogador que ainda não se encaixou.

O dilema de Conte: sistema engessado ou falta de elenco?

O ponto central é que Antonio Conte raramente admite erros. Quando o rendimento cai, as explicações recaem sobre o elenco, nunca sobre ele. Mas até que ponto o problema do Napoli é realmente o mercado de transferências — e não a inflexibilidade do treinador?

O técnico reclama que nove reforços dificultam o entrosamento e quebram a harmonia do grupo campeão, mas talvez o verdadeiro obstáculo seja sua incapacidade de adaptar novas peças. A teoria de que “é melhor contratar poucos e bons do que muitos medianos” é válida, mas perde força quando o próprio treinador parece não saber como potencializar os que tem à disposição.

Resta a dúvida: Conte é um técnico feito para construir e evoluir times grandes em várias frentes, ou apenas para transformar elencos limitados em máquinas de resultado, como fez na Juventus e no Inter?

O futuro do Napoli e o peso das escolhas

O tempo, por enquanto, joga contra ele. O Napoli não empolga, os reforços não rendem e o vestiário começa a dar sinais de ruído. De Bruyne, Lang e outros novos contratados representam, em diferentes níveis, o mesmo problema: jogadores talentosos que ainda não encontraram espaço num sistema engessado.

Se Conte quiser transformar esta temporada em algo positivo, terá de rever seus métodos. O Napoli precisa de adaptação, não de rigidez. E talvez, desta vez, o técnico precise admitir que nem sempre o problema está apenas nos outros — mas também em si mesmo.