Flamengo x Racing
Futebol Libertadores

Flamengo resiste, segura empate contra o Racing com um a menos e vai à final da Libertadores

O Flamengo viveu uma noite de drama, tensão e devoção no estádio Presidente Perón, o famoso Cilindro de Avellaneda. Em um jogo que colocou à prova a resistência emocional e tática do time, o Rubro-Negro segurou o empate sem gols contra o Racing mesmo com um jogador a menos por mais de 30 minutos e conquistou a vaga na grande decisão da Libertadores. O herói da noite foi o goleiro Agustín Rossi, que se agigantou sob as luzes argentinas e garantiu o 0 a 0 que valeu a classificação.

Foi um daqueles confrontos em que o Flamengo precisou muito mais de fibra do que de brilho. A equipe mostrou organização tática diante de um adversário intenso e empurrado por um estádio lotado. A missão era simples no papel, mas o enredo se transformou em um épico de resistência.

Na final, o Flamengo terá pela frente o vencedor de LDU e Palmeiras, que se enfrentam no Allianz Parque pelo segundo jogo da outra semifinal da competição. No Equador, a Liga de Quito venceu por 3 a 0.

O jogo

O Flamengo começou o jogo com postura madura, consciente da pressão que enfrentaria. A equipe rubro-negra optou por uma saída de bola segura, evitando riscos na construção curta e, quando necessário, recorrendo à ligação direta para escapar da marcação alta do Racing. Essa escolha, embora pragmática, mostrou que o time estava disposto a se adaptar ao contexto, uma virtude nem sempre presente em atuações recentes.

No ataque, o Flamengo mostrou mobilidade e certa leveza nos primeiros minutos. Luiz Araújo arriscou de fora da área e obrigou o goleiro Cambeses a uma boa defesa logo aos dez minutos. A resposta argentina veio em seguida: Conechny apareceu na área e testou Rossi, que começou ali sua noite inspirada com uma defesa à queima-roupa.

O duelo seguiu equilibrado. O Flamengo tentava controlar o ritmo com Jorginho e Arrascaeta, enquanto o Racing explorava as costas da defesa com Solari e Almendra. Em uma dessas jogadas, Solari escapou de Varela e quase marcou, mas o chute cruzado saiu rente à trave.

O Rubro-Negro respondeu à altura. Após boa recuperação de Léo Ortiz no meio, Arrascaeta avançou com categoria, limpou a defesa e ficou cara a cara com o goleiro. Faltou apenas capricho: o uruguaio chutou forte, mas acertou o rosto de Cambeses. Era o retrato do primeiro tempo: o Flamengo tinha as ideias, o Racing tinha a intensidade, e o gol parecia teimar em não sair.

O segundo tempo começou com um golpe que poderia ter sido fatal. Aos dez minutos, Gonzalo Plata se desentendeu com Rojo e, em um gesto impensado, tentou atingir o argentino com o braço. O toque foi leve, mas o árbitro interpretou como agressão e mostrou o cartão vermelho direto. O Flamengo, que já enfrentava um ambiente hostil, passou a lutar também contra o relógio e o cansaço.

O Racing, empurrado por sua torcida, aumentou a pressão. Foram cruzamentos de todos os lados, chutes de fora da área e um bombardeio que transformou Rossi em protagonista. O goleiro argentino, atuando em seu país, respondeu com defesas seguras e saídas firmes. Aos 32 minutos, salvou em dois tempos uma finalização perigosa de Hauche. Nos acréscimos, fez a defesa da noite: Vietto pegou uma sobra na área e finalizou forte, mas Rossi voou para espalmar e manter o 0 a 0.

Cada defesa era comemorada como um gol pelos jogadores e pela torcida que acompanhava do outro lado do continente. Quando o árbitro encerrou a partida, o Flamengo comemorou como se tivesse vencido por goleada. Era, afinal, uma vitória da coragem e da fé.

Maturidade e alma que só o Flamengo tem

O empate sem gols pode parecer um resultado modesto, mas o contexto transforma o feito em um marco. O Flamengo mostrou algo que lhe faltava em eliminatórias recentes: equilíbrio emocional. O time, tantas vezes vulnerável diante da pressão, foi capaz de se reorganizar, segurar o ímpeto do adversário e jogar com inteligência.

Filipe Luís, ainda no início de sua trajetória como treinador principal, demonstrou leitura apurada do jogo. Ao reestruturar o sistema defensivo após a expulsão, blindou o time pelos lados e limitou o Racing a bolas alçadas na área. A defesa, com Léo Ortiz, Léo Pereira e Danilo, teve atuação impecável.

No ataque, Bruno Henrique entrou para dar fôlego, mas pouco conseguiu produzir. Ainda assim, sua presença ajudou a segurar a defesa rival e aliviar a pressão. O Flamengo praticamente não criou após a expulsão, mas mostrou maturidade ao entender que, naquela noite, o gol não era prioridade, a sobrevivência, sim.

Do lado argentino, o Racing foi valente, mas previsível. O time teve volume e controle territorial, mas pecou na criatividade. Limitou-se aos cruzamentos e chutes de fora, esbarrando sempre em Rossi, o nome do jogo.

Foi uma noite de fé e resistência, de pedir ajuda a São Judas Tadeu e confiar em Rossi. Um empate que vale por uma vitória, e uma classificação que reacende a alma rubro-negra no continente. O Cilindro tentou engolir o Flamengo. Mas o Flamengo saiu dele vivo, mais forte e pronto para brigar por mais uma taça da América.

(Foto: Juan Mabromata/AFP)