A temporada do Chelsea tem sido uma verdadeira montanha-russa. Depois do empate por 2 a 2 contra o Qarabag, pela Champions League, a principal dúvida entre torcedores e analistas é: será que Enzo Maresca está mexendo demais no time?
O técnico italiano já fez 85 alterações em apenas 16 jogos somando todas as competições — um número absurdo, o maior entre todos os clubes da Premier League. E a dúvida é inevitável: essa busca incessante por um elenco descansado está custando ao time a sua consistência?
Na partida contra o Qarabag, os Blues escaparam de uma derrota que seria vergonhosa. O jovem Estêvão Willian abriu o placar, mas falhas defensivas de Jorrel Hato permitiram que Leandro Andrade e Marko Jankovic virassem o jogo para os azeris — um time avaliado em cerca de 22 milhões de libras, menos de 1 milhão por jogador. No fim, Garnacho saiu do banco e salvou o Chelsea com o gol de empate.
Um Chelsea irreconhecível a cada jogo
Comparado à vitória convincente por 1 a 0 sobre o Tottenham, no fim de semana anterior, o Chelsea parecia outro time em campo. Literalmente. Apenas Robert Sánchez, Reece James, Marc Cucurella e João Pedro foram titulares em ambas as partidas. O restante do time foi completamente modificado.
Foi o quinto jogo seguido em que Maresca faz pelo menos sete trocas no time titular. Ele justificou as mudanças dizendo que “cada plano é pensado com os jogadores certos”, mas a sensação é de que a constante rotação está tirando a identidade do time.
“Começamos bem, marcamos, mas depois sofremos dois gols evitáveis”, disse o treinador após o jogo. “Criamos muito, mas precisamos ser mais decisivos na frente. No segundo tempo fomos melhores, mas cada jogo é uma chance para todos mostrarem porque estão aqui.”
O discurso é compreensível — o técnico tenta manter o elenco motivado e saudável — mas dentro de campo a falta de entrosamento é visível. O time alterna boas atuações contra adversários grandes com apresentações apáticas diante de clubes mais fracos.
A rotação e o impacto das lesões
Parte da explicação para essa instabilidade está nas condições físicas do elenco. Enzo Maresca tem lidado com diversas lesões importantes: Cole Palmer, Levi Colwill, Kai Havertz, Martin Ødegaard e Gabriel Martinelli estão fora, e o recém-contratado Viktor Gyokeres também preocupa. Além disso, jogadores como Caicedo, Enzo Fernández e Liam Delap precisam de cuidados constantes para não se lesionarem.
O treinador também relembrou o desgaste da última temporada, que durou 13 meses por conta do Mundial de Clubes disputado em julho, o que reduziu a pré-temporada a menos de duas semanas. “Precisamos descansar os jogadores. O Mundial afetou muito. Tentamos rodar o time quando vencemos, ninguém fala nada. Mas quando não vencemos, todos criticam”, desabafou Maresca.
Mesmo assim, rivais como Arsenal e Tottenham conseguiram manter um equilíbrio melhor, com menos mudanças e maior consistência de jogo. É aí que surge a principal crítica: a rotação exagerada pode estar custando a coesão do time.
Jovens promessas e velhos problemas
Outro ponto que preocupa é o desempenho dos reservas. Contra o Qarabag, Hato, Jamie Gittens, Tyrique George e Andrey Santos, todos com 21 anos ou menos, mostraram falta de experiência e sofreram diante de um adversário aguerrido.
Para piorar, Roméo Lavia voltou a sentir uma lesão logo aos quatro minutos de jogo. O belga, contratado por 53 milhões de libras em 2023, vive um calvário físico: 10 lesões, 87 jogos perdidos e apenas 29 partidas disputadas desde que chegou. Pior, ele nunca completou 90 minutos em campo pelo Chelsea.
Esses problemas fazem com que Maresca tenha de recorrer constantemente a improvisos e mudanças, o que torna o time imprevisível — e não no bom sentido.
A crítica dos especialistas: “Chelsea não pode jogar assim na Champions”
O comentarista francês Julien Laurens, que analisou o jogo para o Champions League Match of the Day, foi direto: “Essas rotações funcionaram no ano passado, mas a Champions é outro nível. Você não pode jogar com tantas mudanças e esperar o mesmo rendimento.”
Laurens destacou que na temporada anterior, quando o Chelsea disputava a Conference League, era possível rodar o elenco e ainda vencer. Mas agora, enfrentando times mais fortes, a estratégia parece não estar funcionando.
“Mesmo com um elenco caro, os jovens ainda sentem o peso da Champions. Hato e Gittens, por exemplo, estão aprendendo no meio do caos. O resultado é que o Chelsea perde pontos importantes e transmite insegurança”, disse o analista.
Ele ainda comparou Maresca a técnicos como Guardiola e Arteta, que também gerenciam elencos grandes, mas com muito menos trocas. “Até os melhores times do mundo perdem ritmo com tantas mudanças. É contra-produtivo, mesmo para os grandes.”
O desafio de Maresca: encontrar equilíbrio
O Chelsea segue vivo na Champions e na Premier League, mas a oscilação preocupa. O time ainda busca uma identidade sob o comando de Maresca, que tenta equilibrar juventude, desgaste físico e resultados imediatos.
Se o treinador conseguir ajustar o ritmo das rotações, talvez o time encontre consistência para brigar nas duas frentes. Mas, por enquanto, o cenário é claro: o Chelsea corre, muda, experimenta — e continua sem convencer.