O Barcelona voltou a ser o foco do futebol europeu (só que não dá forma como desejam ou almejam), principalmente depois de terem vivido mais um tropeço nesta temporada. O time de Hansi Flick, conhecido por sua linha defensiva ousadamente avançada, vive um dilema que divide opiniões: manter o estilo que o levou ao topo da Espanha ou aceitar que precisa ajustar o seu sistema antes que a confiança, e os resultados, escapem de vez.
Essa realidade voltou a falar mais alto, depois do Barça ter perdido pontos novamente diante do Brugge nesta última rodada de Champions League. E ficou bem evidente, que um dos principais fatores para o jogo ter terminado em 3 a 3, diz respeito ao péssimo trabalho da linha defensiva, correlacionado com falhas do arqueiro presente em campo.
O auge da linha alta do Barcelona
Há pouco mais de um ano, ninguém duvidava da eficácia da linha alta do Barcelona. No inesquecível 4 a 0 sobre o Real Madrid, em outubro de 2024, o time deu uma aula de coordenação, ritmo e controle. O detalhe mais impressionante daquele jogo? Kylian Mbappé foi pego em impedimento oito vezes, sim exatamente isso que você acabou de ler, o maior número em uma partida das grandes ligas europeias desde 2010. Ao todo, o time merengue se encontrou em 12 oportunidades em posição irregular, o recorde do confronto em mais de 20 anos.
Aquela atuação simbolizou o auge do sistema do treinador alemão, que era completamente avassalador quando se deparava com múltiplos adversários. O Barcelona chegava a provocar sete impedimentos por partida, mais do que qualquer outro clube europeu. A sincronia entre defesa e meio-campo era tão precisa que era possível considerar que os jogadores do time inimigo não tinham consciência de como funcionava a regra.
O resultado dessa estratégia foi avassalador: uma equipe dominante, com a tríplice coroa da Espanha e um estilo de jogo que combinava perfeição tática e ousadia. A linha alta, antes vista como arriscada, virou a assinatura do novo Barça de Flick.
Quando a confiança virou dúvida
Tudo mudou rapidamente, de uma hora para outra. O empate por 3 a 3 com o time belga, pela Liga dos Campeões, transformou a linha alta do Barcelona em alvo de críticas. Foram três gols sofridos, todos nascidos de espaços às costas da defesa.
O primeiro gol simbolizou o problema: Jules Koundé permitiu que a jogada não fosse impedida, ao dar posição legal para o seu oponente, no caso, Carlos Forbs acelerou e deixou Nicolò Tresoldi livre para balançar as redes. Após o jogo, Flick reconheceu o que todos viram: “Na temporada passada, esse lance seria impedimento. Agora, estamos sem confiança. Quando não há intensidade, é impossível competir na Champions.”
Essa falta de intensidade virou o principal cara da fase atual do Barcelona. O mesmo padrão se repetiu na goleada sofrida para o Sevilla (4 a 1), com três gols em ataques diretos, e até contra o Elche, quando Rafa Mír aproveitou o espaço para correr o meio campo inteiro e marcar. A linha alta continua lá, mas a pressão no meio já não sustenta a ideia.
O que dizem os números?
Mesmo em crise de confiança, o Barcelona ainda é o time que mais provoca impedimentos nas cinco principais ligas europeias: 54 até agora, média de 4,9 por jogo. É uma queda significativa em relação à temporada passada (7,0 por jogo), mas suficiente para manter o clube no topo desse ranking curioso.
Outro dado relevante: o ponto médio onde ocorrem os impedimentos. Antes, a média era de 33,8 metros da própria meta; agora, caiu para 31,6 metros. Em jogos que precisa pisar fora do seu país, essa linha recua ainda mais, para 22,2 metros, mostrando todos os sinais de que o time espanhol tem uma certa dúvida sobre seu potencial defensivo longe da Espanha.
A questão é que, o problema vai além da altura da defesa. O número de finalizações sofridas em contra-ataques subiu de 1,05 para 1,36 por jogo, e os gols cedidos nessas situações aumentaram de 0,21 para 0,36 por partida. Em resumo: os adversários estão encontrando mais espaço e aproveitando melhor as transições, simplesmente a qualidade defensiva caiu bruscamente, e é difícil colocar a culpa nos desfalques, porque tem sido assim com as principais peças, e mais ainda quando elas não estão disponíveis.
O que mudou no elenco do Barcelona
Parte da explicação está nas peças disponíveis. A saída de Iñigo Martínez deixou um buraco de experiência na zaga, enquanto lesões e suspensões tiraram consistência de jogadores importantes como Raphinha, Lewandowski e o novo camisa 10, Lamine Yamal.
Essas ausências comprometem justamente o que sustenta a linha alta: intensidade e sincronia. Flick exige que o meio-campo pressione de forma constante, para que a defesa mantenha a posição sem ficar exposta. O problema é quando essa movimentação não impõe respeito, não tem intensidade, o que acaba fazendo com que o time esgasgue, e fique travado.
O técnico alemão reconheceu isso após o empate com o Brugge: “No meio-campo, não pressionamos, não vencemos duelos. Quando isso acontece, a última linha fica vulnerável a jogadores rápidos.” Foi uma análise franca, mas que expõe a fragilidade do momento.
Barcelona não vai mudar sua essência
Mesmo diante das críticas, Hansi Flick tem sido categórico: não vai abandonar a filosofia do Barcelona. “Poderíamos nos defender mais atrás e vencer por 1 a 0, mas não é isso que queremos ser”, afirmou recentemente. Alguém que teve a mesma postura, foi Ange Postecoglou no Tottenham, a diferença entre os dois casos, é que o alemão venceu mais títulos importantes, e foi capaz de dominar a sua liga na temporada passada.
A questão é que, é muito difícil fazer com que um profissional renegue suas ideias, ou pelo menos, abra a cabeça para pensar em outras possibilidades.
O treinador entende que o risco faz parte do estilo do clube. Desde os tempos de Guardiola, o Barcelona construiu sua identidade em torno da posse, da pressão e da ousadia. E abrir mão da linha alta seria, em certo sentido, abrir mão de si mesmo, meio que aceitar que está fazendo algo de errado, e é difícil imaginar que isso passe pela cabeça de Hansi Flick.
O desafio do Barcelona: entre a ousadia e o equilíbrio
O dilema do Barcelona pode ser mais psicológico do que tático. A ideia segue a mesma: pressionar, dominar o campo rival e empurrar o adversário para o erro. O que mudou é a confiança, e sem ela, qualquer passo à frente vira risco. Por mais que as linhas defensivas estejam enfraquedicas, é possível notar que Raphinha é um desfalque há bastante tempo para a equipe catalã, assim como Lamine Yamal tem sido um desfalque frequente.
É possível imaginar, ou considerar, que o retorno das principais peças do Barça, e trabalhos em conjunto com mais frequência, voltem a devolver o respeito que o time leva em suas costas. O clube espanhol ainda lidera estatísticas de controle e posse, mas o brilho da temporada passada parece distante. A linha alta, antes símbolo de superioridade, agora reflete uma equipe que busca equilíbrio entre ambição e segurança.
Para Flick e seus jogadores, o desafio está em reencontrar o ritmo e a precisão que transformaram a armadilha do impedimento em arma. O estilo continua inegociável, e talvez por isso, o Barcelona siga sendo um dos times mais fascinantes (e imprevisíveis) do futebol mundial.
Foto: MANAURE QUINTERO / AFP