Para os grandes amantes da Serie A, é muito fácil de notar que existem pontos semelhantes em diversos jogos da competição, o esquema 3-5-2. Pisa, Cremonese, Verona, Torino, Parma, Milan, Genoa, Fiorentina, Udinese, Inter e Cagliari, praticamente metade da liga gosta de montar seu time desta forma, e na última rodada não foi diferente. Um verdadeiro desfile tático que começou com Mazzarri no Napoli há quase 15 anos e ganhou força com Antonio Conte, chegando a dominar praticamente todas as equipes italianas. Mas será que esse amor pelo 3-5-2 está ajudando o futebol italiano ou apenas criando uma sensação de déjà-vu constante?
A resposta não é simples. Historicamente, a Itália sempre deu grande valor à defesa organizada, ao controle do espaço e ao equilíbrio em campo. Nesse sentido, o 3-5-2 parece um sonho: uma defesa com três zagueiros sólida, sendo que eles são capazes de ditar os primeiros passes da jogada, dois alas que viram “quintos defensivos” quando a equipe não tem a bola, sem esquecer do papel ofensivo deles com ela, e três meio-campistas centrais capazes de dominar o meio de campo.
É um esquema que resolve problemas defensivos quase de imediato. Para técnicos italianos, é como se aquele restaurante que você gosta muito, e tem o interesse de levar uma menina num encontro. O famoso feijão com arroz, onde simplesmente é muito difícil de ter erro.
A força e o limite do 3-5-2
O problema é que, quando se fala em criatividade ofensiva, o 3-5-2 pode ser um verdadeiro problema para alguns talentos. As alas ofensivas, por exemplo, têm um trabalho absurdo, são as estrelas do prato: correr, atacar, marcar, apoiar e voltar para a defesa. Muito se fala sobre o crescimento dos profissionais depois de um tempo na Serie A, porque conquistam resistência física de sobra, mas às vezes pouco brilho técnico. Quer ver um verdadeiro extremo de pura habilidade? Difícil. Quer um lateral-esquerdo ou direito de origem com qualidade de drible e visão de jogo? Melhor esperar sentado.
Além disso, na construção de jogo, o 3-5-2 muitas vezes se torna rígido e previsível. Os alas sobem, mas raramente ajudam na ligação entre defesa e ataque; os zagueiros centrais passam a bola verticalmente com pouca variação; e o meio-campo, mesmo cheio, nem sempre consegue dominar ou acelerar a transição, deixando de lado as vezes que a ausência de uma camisa 10 é fortemente sentida, mais fácil ver isso na Premier League, do que na Serie A.
O exemplo de Antonio Conte no Tottenham é excelente, quando foi perguntado sobre a possibilidade de contratar James Maddison, quando o mesmo estava no Leicester, negou. Um 10 não se encaixa muito bem no seu estilo, melhor, um atleta com essas características, nenhum pouco combativo, e sem capacidades de defesa não tem espaço no elenco dele. Agora, pergunta sobre Scott McTominay…
Um ciclo difícil de quebrar na Serie A
A ironia dessa questão na Serie A é que o 3-5-2 cria um círculo vicioso: buscam atuar assim porque não há alas ou zagueiros tecnicamente excepcionais, mas jogando sempre assim, esses perfis raramente se desenvolvem. É como tentar aprender a nadar em uma piscina rasa: você nunca vai se aprofundar. A Serie A, que já foi celeiro de ideias táticas, hoje parece engessada, com criatividade subordinada à funcionalidade e ao resultado imediato. E isso se reflete até na Seleção Italiana: poucos extremos puros, poucos laterais criativos, e um futebol mais previsível.
O esquema tem pontos positivos claros: segurança defensiva, controle de meio-campo e consistência para times médios ou pequenos. Mas, no ataque, a limitação é evidente. Se o adversário é mais rápido, dinâmico ou tecnicamente superior, o 3-5-2 não protege nem gera soluções rápidas. Por isso, enquanto alguns técnicos continuam inovando com variações, como Gasperini com seu 3-4-2-1, a maior parte da liga se mantém fiel ao velho 3-5-2, quase como se fosse uma tradição inquestionável.
Na maioria das vezes, quem tem mais dinheiro na Serie A ou material bruto, se destaca ao utilizar o esquema. Só pegar o ataque da Inter de Milão e comparar com o do Pisa, é impossível considerar a possibilidade de terem resultados semelhantes, isso que acaba distanciando um do outro.
O futebol italiano entre tradição e estagnação
O que vemos, na prática, é que o 3-5-2 se tornou uma espécie de prisão tática. Ele é capaz de proteger os times de erros defensivos, mas sufoca a ofensividade e o desenvolvimento de jovens talentos criativos. A Serie A ainda brilha pela organização, pela intensidade defensiva e pela disciplina tática, mas perde pontos em inventividade e espetáculo.
É como aquele prato clássico que você ama: interessante, confiável, gostoso, mas que você já comeu tantas vezes que começa a sentir falta de algo novo. A Itália, que já foi uma incubadora de ideias e talentos excepcionais, hoje parece refém de um esquema confortável, que entrega resultados defensivos mas limita a evolução do jogo. Esse pode ser um dos fortes motivos para o declínio da relevância, o passar do tempo logo levará por inteiro, tudo o que a Serie A já criou um dia.
Se queremos que Serie A volte a encantar, talvez seja hora de colocar o 3-5-2 contra a parede, desafiá-lo, ousar nos extremos, experimentar formações e apostar em talentos mais técnicos. Até lá, continuaremos vendo times italianos… fiéis ao 3-5-2, correndo e correndo, mas presos a um esquema que domina mais a cabeça do treinador do que a bola no campo.
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