O UFC 324, marcado para inaugurar a nova fase do Ultimate no Paramount+, pode ter uma luta que representa ao mesmo tempo risco, ousadia e estratégia empresarial: Alex “Poatan” Pereira defendendo o cinturão dos meio-pesados contra Carlos Ulberg. A simples possibilidade desse duelo já movimenta o noticiário, porque envolve não apenas o campeão mais carismático e dominante da atualidade, mas também um projeto maior que o UFC tenta construir para sua nova casa de streaming.
O evento é simbolicamente importante, e Dana White sabe disso. A estreia do UFC no Paramount+ precisa de uma luta tão forte quanto um cartão de visitas. Poucos atletas entregam isso como Poatan: campeão duplo, ícone do striking, estrela global, viral nas redes sociais, magnetismo natural e um estilo de luta que praticamente garante espetáculo. Se o UFC quer começar a nova era com impacto imediato, é nele que precisa apostar.
Carlos Ulberg, por sua vez, representa exatamente o que o UFC costuma fazer quando projeta um novo astro: colocar um lutador em ascensão, com estilo explosivo, contra uma figura já consolidada. Membro da City Kickboxing, companheiro de Israel Adesanya e detentor de vitórias rápidas e violentas, Ulberg tem o pacote que atrai tanto o público casual quanto o nicho técnico. Não é exagero dizer que ele é visto internamente como um dos favoritos a disputar o cinturão em um futuro próximo, a questão é apenas quando.
Tecnicamente, o que esperar de Poatan x Ulberg?
O duelo representa uma colisão de estilos que, apesar de parecer semelhante à primeira vista, revela nuances decisivas.
Poatan tem a vantagem da experiência, tanto no MMA quanto no kickboxing de elite. Sua leitura de distância, o tempo de resposta e a inteligência para manipular o ritmo são fatores que Ulberg ainda não enfrentou no mais alto nível. O brasileiro também tem o ponto que decide lutas: poder de nocaute absoluto. Basta um golpe, de qualquer ângulo.
Ulberg, por outro lado, é mais fluido, mais móvel e tem uma dinâmica de golpes em arco e combinações longas que podem complicar Poatan no começo da luta. Ele trabalha muito bem o volume, usa bem entradas e saídas e tem uma noção defensiva superior à que apresentava no início de sua carreira no UFC. Há ainda o fato de que ele tem uma envergadura considerável, algo que historicamente faz diferença contra Poatan, que prefere medir a distância com paciência.
Mas o grande problema de Ulberg é justamente o fator que o torna empolgante: ele se expõe. Ele troca. Ele entra com a guarda aberta buscando impacto. E, contra Poatan, um erro não é apenas uma falha — é uma sentença. É por isso que a luta é arriscada, mas também comercialmente perfeita. O público sabe que, se esse duelo for oficializado, não chega ao fim do quinto round.
A lógica de negócios por trás da escolha
O UFC 324 marca a primeira oportunidade de mostrar ao público que a mudança para o Paramount+ não é apenas um reposicionamento, e sim um salto estratégico da marca. Dana White, historicamente, sempre escolheu grandes campeões para inaugurar fases importantes:
Agora, Alex Poatan é claramente tratado como o rosto imediato dessa nova fase. Ele entrega números, engajamento, viralização e, acima de tudo, nocaute.
Colocá-lo contra Ulberg, um desafiante jovem, talentoso e midiático, faz sentido para o negócio. É a fórmula clássica da organização: um campeão consolidado contra um nome em ascensão que pode se tornar a próxima grande estrela caso surpreenda.
No entanto, o UFC na Casa Branca é a grande complicação. Poatan x Jones seria, possivelmente, a maior luta da história do UFC. A ideia de realizar o duelo na Casa Branca, algo praticamente confirmado, seria um marco sem precedentes, simbólico, político, esportivo e comercial.
Só que essa superluta depende de uma coisa: Poatan continuar campeão. E colocar Carlos Ulberg como próximo desafiante, embora empolgante, representa risco real. Poatan é favorito? Sim. Mas Ulberg é explosivo o suficiente para estragar os planos do UFC.
Se o brasileiro perde, a luta contra Jon Jones perde completamente o apelo. O cinturão dos meio-pesados provavelmente estaria em um cenário confuso, e Jones não teria motivos comerciais para se arriscar contra um lutador que não é campeão. Além disso, a própria narrativa épica que Dana White tenta construir, Jones, o maior de todos os tempos, contra Poatan, o nocauteador mais temido da atualidade evaporaria.
O UFC terá de decidir entre priorizar a estreia no Paramount+ com uma luta perigosa, mas extremamente atrativa, ou preservar Poatan para garantir o combate histórico com Jon Jones, que seria financeiramente ainda mais valioso.
Dana já escolheu o caminho do risco várias vezes. E sempre que apostou pesado em um grande espetáculo, saiu vitorioso. Tudo indica que ele fará o mesmo agora.
(Foto: Zuffa LLC)