O momento do Real Madrid mudou de forma tão brusca que fica até difícil de tentar entender. Há pouco mais de um mês, o time merengue dominava o Barcelona no El Clásico, vencendo por 2 a 1 com autoridade, confiança e aquela sensação de que o projeto de Xabi Alonso tinha finalmente encontrado o rumo. A equipe de Madri chegou a abrir cinco pontos de vantagem na LaLiga e viveu, por alguns dias, o clima de euforia ideal: goleada por 4 a 0 no Valencia, moral nas alturas e a impressão de que a temporada engrenaria como um trem-bala.
Mas, como o torcedor madridista já sabe bem, nada é simples quando o assunto é o Real Madrid. E agora, 35 dias depois, o cenário virou de ponta-cabeça: três empates seguidos, liderança perdida e uma sensação incômoda de que o time estacionou na pior hora possível.
A pressão do Real Madrid perdeu força e isso explica metade da crise
A pressão alta, marca registrada do Real Madrid de Xabi Alonso, simplesmente evaporou, talvez indícios de uma falta de preparamento físico… O time que recuperava bola como poucos e sufocava o adversário perdeu sua maior arma. Diante do Barça e no jogo contra o Valencia, o Real Madrid parecia afiado: 75 recuperações por jogo, mais de 34 pós-perda, presença constante no campo rival.
Após a derrota para o Liverpool em Anfield, tudo desandou. O Real Madrid venceu apenas o Olympiacos desde então e apresentou uma queda visível de intensidade: média de 61 recuperações, queda geral nas pressões e metade das ações no terço ofensivo. O dado não mente, e acaba escancarando que a identidade competitiva sumiu junto com os resultados.
O Real Madrid derrete fora de casa e o calendário não ajudou
Outro ponto crítico: os tropeços recentes aconteceram todos longe do Bernabéu. E o calendário, alterado pela NFL, empurrou o Real Madrid para uma sequência cruel de jogos fora. Enquanto o time é impecável em casa (seis jogos, seis vitórias), fora é um visitante gelado: uma vitória, três empates e uma derrota, é necessário abrir o olho sobre o quão caseiro esse time se apresenta
O contraste é tão gritante que parece que o Real Madrid se transforma quando cruza os limites de Madrid. A última viagem antes de voltar ao Bernabéu será nada menos que San Mamés, o que promete ser mais um teste pesado, com a necessidade de somar pontos para não ver o Barcelona disparar na liderança, e conquistar mais uma La Liga, assim como aconteceu na temporada passada.
Xabi Alonso e o labirinto tático que o Real Madrid ainda não resolveu
A instabilidade tática também vira pauta na equipe merengue. Xabi começou o ano alternando entre o 4-3-3 e formações híbridas. Camavinga brilhou como falso extremo no El Clásico, mas em Anfield o plano simplesmente colapsou, o francês foi completamente engolido dentro das quatro linhas. Um trivote funcionou na Grécia, mas o 4-1-4-1 de Montilivi não engrenou.
Xabi fala sobre flexibilidade como virtude, mas o Real Madrid parece, neste momento, mais um time em busca de identidade do que um time versátil. Muita troca, pouca certeza. Sem contar nas quedas de rendimento de importantes peças do elenco, tendo a necessidade de se encontrarem novamente, caso queiram ter espaço nas mãos do ex-volante.
Bellingham e Güler: o dilema de ouro do Real Madrid
O Real Madrid também encara o desafio de encaixar Jude Bellingham e Arda Güler. Dois talentos gigantes, duas funções parecidas, uma faixa de campo disputada. Güler tem sido o melhor parceiro de Mbappé, autor de sete assistências para o francês. Bellingham, por outro lado, brilhou como o vértice ofensivo do rombo de Ancelotti, foi uma válvula de escape importantíssima no quesito de balançar as redes em 2024/25.
Juntos, funcionam? Às vezes. Mas o Real Madrid ainda não encontrou a receita definitiva. E quando os resultados despencam, dilemas que antes eram “bons problemas” começam a virar questões urgentes, a questão é que, é impossível Xabi Alonso abrir mão de um deles, então, em breve devem conseguir entrar em órbita, seja por bem, ou por mal.
Mbappé é o motor do Real Madrid e os números provam
Kylian Mbappé rejeita a ideia de “Mbappédependência”, mas o Real Madrid diz o contrário: 23 dos 41 gols do time na temporada saíram do camisa 10. São 56%. Mais da metade. Sem ele, a equipe merengue perde poder de fogo, e isso se confirmou nos empates que tiraram a liderança do clube.
Nos jogos recentes longe de casa, Mbappé só marcou em Girona (e de pênalti). Zerou em Vallecas, zerou no Martínez Valero. E quando o artilheiro some, o Real Madrid sente, dando todos os indícios de que a equipe joga em prol do atacante, e isso tem ficado bem explícito, principalmente na última rodada da Champions League. Vinicius Júnior sempre busca por encontrar o francês, assim como todos os outros profissionais do grupo.
Real Madrid precisa reagir, e rápido
Do brilho diante do Barcelona ao tropeço em três estádios diferentes, o Real Madrid atravessa um momento tão instável que parece até estar em duas temporadas simultâneas: uma em casa e outra fora. A perda da liderança não é o fim do mundo, mas o alerta está ativado.
A equipe merengue ainda é fortíssima, ainda está viva em tudo e ainda tem qualidade para recuperar o topo. Mas essa queda nos últimos 35 dias deixou claro: sem intensidade, sem clareza tática e sem Mbappé inspirado, a máquina engasga, precisando de outros caminhos a serem seguidos, caso os objetivos sejam altos.
E num campeonato onde Barça e demais perseguidores não dão trégua, o Real Madrid não pode se dar ao luxo de vacilar muito mais.
Foto: Antonio Villalba (Oviedo)