Florian Wirtz finalmente teve a possibilidade derespirar. E o torcedor do Liverpool também. O meia alemão, tão criticado nos últimos meses por ainda não ter marcado ou dado assistência na Premier League, resolveu aparecer com tudo logo na partida que o time mais precisava. E fez isso com estilo: dominando o meio-campo, acumulando funções, distribuindo passes com a frieza de quem joga uma pelada na quadra do bairro e, principalmente, mostrando por que os Reds abriram os cofres até o fundo para pagar 136 milhões de euros, o segundo maior investimento da história do futebol inglês.
E não sou eu que estou dizendo, nem o torcedor emocionado com o triunfo. Foi simplesmente Jamie Carragher, uma das vozes mais influentes e sinceras de Liverpool: “Com diferença, sua melhor atuação com o Liverpool”. E pelo que Wirtz fez no London Stadium contra o West Ham, fica difícil discordar.
O dia em que Wirtz virou o motor do Liverpool
Nada de números chamativos no placar pessoal: zero gol, zero assistência. E ainda assim, um impacto gigantesco. Wirtz foi coroado como o MVP da partida por um motivo simples: ele foi o próprio ritmo do jogo. Com Mohamed Salah no banco, coube ao alemão ocupar a grande espaço do ataque e transformar o corredor central no seu quintal, sendo um belo ponto de ligação com Alexander Isak.
A cada toque, um charme. A cada giro, um desequilíbrio no West Ham. A cada passe, uma possibilidade nova. Quando Wirtz está confortável, o jogo parece correr em câmera lenta para ele e em 2x para quem tenta marcá-lo. E isso ficou claro no 2 a 0 do Liverpool, valendo lembrar que estavam com um a mais, após a expulsão de Lucas Paquetá ainda na primeira etapa.
O primeiro gol começa nele, num passe progressivo que desmonta a linha londrina e prepara o terreno para Gakpo servir Isak. E não, o alemão ainda não colocou números no currículo da Premier League, mas começa a ficar evidente que isso diz muito mais sobre a falta de pontaria dos companheiros do que sobre as suas decisões dentro das quatro linhas.
Ele mesmo quase abriu o placar num mano a mano com Aréola no primeiro tempo. Mas o goleiro francês estava inspirado. Nem isso foi capaz de diminuir o ritmo de Wirtz: terminou os primeiros 45 minutos com 97% de acerto nos passes. Fechou os 90 com 95%. Números de videogame.
Sem Salah, Wirtz vira protagonista, coincidência? Slot diz que sim
O melhor jogo de Wirtz na Champions também veio sem Salah, contra o Eintracht Frankfurt, quando ele distribuiu duas assistências brilhantes. Agora, na Premier League, o roteiro se repetiu. Coincidência? Muita gente aponta que sim, outros juram que não.
Arne Slot, claro, correu para esfriar a teoria:
“Me fazem essa pergunta sempre que eu não coloco Wirtz, Isak, Ekitiké ou Salah. Todos são jogadores excepcionais. Mo teve uma carreira incrível aqui e continuará sendo fundamental”.
Diplomático. Mas fato é: sem Salah ocupando o mesmo espaço, Wirtz encontrou mais liberdade para respirar, pensar e executar. Os melhores momentos do Liverpool passaram por ele, e para isso, será necessário um maior entrosamento, porque não dá para considerar viável contar com um, enquanto o outro se encontrar no banco de reservas.
A transformação física que já começa a aparecer
O próprio Wirtz admitiu que a Premier League está sendo um choque. Não tático. Não técnico. Mas físico. Segundo o The Times, ele confessou que o ritmo inglês é algo que ele nunca havia experimentado. A resposta? Mais trabalho. Muito mais.
O alemão ganhou 2,5 kg de massa muscular desde que chegou na Inglaterra, graças a uma rotina intensa de treinos e academia. E isso se reflete em campo: ele está mais resistente nos duelos, mais firme nos giros e mais preparado para a pancadaria que a Premier exige, para isso, precisou se abster de alguns confrontos, ficar no banco de reservas em certas ocasiões.
Nas duas derrotas que o Liverpool sofreu sem ele, PSV e Nottingham Forest, ficou claro o quanto o time sentiu sua ausência. A volta contra o West Ham reacendeu o ataque e organizou o meio-campo como Arne Slot tanto queria, deixando para trás uma pressão enorme que pairava nas costas do técnico holandês.
Um Wirtz mais solto, mais confiante e muito mais Liverpool
Dimitar Berbatov já dizia semanas atrás: “Wirtz vai ser incrível, só precisa de tempo”. Kun Agüero repetiu: “Grandes jogadores sempre se adaptam”. E agora, no jogo em que mais parecia confortável com a camisa dos Reds, Wirtz mostrou que estava só aquecendo, apesar de ter precisado de um tempo interessante para tal.
Foram 75 minutos de domínio, de técnica fina, de visão de jogo e de liderança silenciosa. Aquelas coisas que não aparecem nos números, mas mudam completamente a forma como o Liverpool se movimenta e cria.
Arne Slot precisa dessa versão do camisa 7. O Liverpool precisa dessa versão do alemão. E, se ela realmente veio para ficar, os Reds ganham não só um organizador, mas um protagonista que pode recolocar o time na briga pela Champions e quem sabe até por algo maior.
Porque se este Wirtz está “quebrando a maldição”, como dizem, então o Liverpool acaba de ganhar uma das suas melhores notícias da temporada, sem esquecer do fato de Isak ter balançado as redes neste fim de semana também.
Foto: Getty Images