A continuidade de Abel Ferreira no Palmeiras foi oficializada nesta quarta-feira (10), o que trouxe diversos sentimentos diferentes para o torcedor alviverde. Agora, com contrato até dezembro de 2027, o técnico português terá a chance de estender seu tempo no Brasil, ao mesmo tempo que buscará deixar para atrás esse ano de 2025, que o Verdão encerrou, sem um título sequer, algo que caminha num sentido contrário aos investimentos por parte da Leila Pereira.
O treinador mais longevo da história recente do clube, e já empatado como maior campeão palmeirense ao lado de Oswaldo Brandão, vai estender um ciclo que já dura seis temporadas e que, para alguns, já flerta com aquele momento em que a série favorita deveria ter acabado na terceira temporada, mas insistiu em continuar.
Abel fica. A pergunta agora é: isso é bom? Depende de quem você pergunta no Allianz Parque.
Um ciclo gigante e já questionado
É impossível ignorar o tamanho de Abel Ferreira no Palmeiras. O português conquistou 10 títulos, incluindo duas Libertadores, dois Brasileirões, Recopa, Supercopa e três Paulistas. Em números e em impacto, ele colocou seu nome no mesmo pedestal de Brandão, e vem há mais de um ano tentando se isolar como maior campeão da história do clube.
Mas 2025 foi o primeiro ano em que Abel saiu zerado. Nada. Nem Paulistão, nem Brasileirão, nem Libertadores. Foram quatro vices consecutivos, o tipo de coisa que, mesmo com currículo pesado, sempre abre espaço para críticas. E elas não foram poucas, ainda mais depois de ter conseguido os reforços que tanto implorava para a diretoria, a questão é que, eles não se apresentaram dentro das quatro linhas.
Há quem diga que o estilo de jogo do time ficou previsível, que faltou renovação tática, que Abel insiste demais em alguns jogadores e demora a mexer quando tudo está dando errado. Outros apontam desgaste no relacionamento com a torcida, entrevistas atravessadas, reclamações constantes com arbitragem e um temperamento que por vezes irrita até quem gosta dele.
E, convenhamos, seis temporadas no comando de um clube brasileiro equivalem a umas três décadas no calendário emocional de qualquer torcedor.
Por que Abel decidiu ficar e por que o Palmeiras quis tanto
Apesar das críticas, o Palmeiras nunca balançou quanto ao desejo de mantê-lo. Leila Pereira tratou como prioridade absoluta a renovação e deixou claro, até nos piores momentos, que Abel era o homem do projeto. Não dá para colocar como descartável, uma peça que se encontra ainda como as principais da posição no continente, sem contar que, o que não anda faltando para Abel Ferreira são propostas, ainda mais do mundo árabe.
O treinador, por sua vez, disse o que muitos já imaginavam: a família se adaptou ao Brasil, ele gosta da cidade, se sente valorizado e entende que o grupo atual finalmente é “a sua cara”. Apesar de não ter performado como era esperado, as peças foram pedidas por ele, logo são importantes para o profissional. Quem dirá que no próximo destino, ele terá a mesma influência que possui no Palmeiras, na necessidade de conquistar todos ao seu redor de novo, trabalhando do zero.
Abel fez questão de ressaltar que a permanência foi uma decisão conjunta com a família. Disse que o Palmeiras virou um “estilo de vida”, que se identificou com os valores do clube e que a estabilidade oferecida por Leila, especialmente após a derrota para o Corinthians na Copa do Brasil, foi determinante. Esse episódio, segundo o próprio técnico, foi marcante porque a diretoria reafirmou confiança num momento que poderia ter sido turbulento. E turbulência, sabemos bem, não falta no futebol brasileiro.
Um ano sem taças, mas cheio de finais
Se não levantou troféus em 2025, Abel Ferreira pelo menos esteve presente em todas as grandes decisões. Chegou à final do Paulista, da Libertadores e dos Brasileiros de 2024 e 2025. Se isso é suficiente para manter um técnico? Para uns sim. Para outros… bem, os debates nas redes sociais mostram que a paciência dessa parte da torcida não é a mais abundante.
Ainda assim, é inegável que o Palmeiras ainda se mantém competitivo. Mesmo zerado na temporada, brigou por tudo até o fim. E isso alimenta o principal argumento dos defensores de Abel: se o pior ano dele foi esse, o nível é muito alto, não há como negar. Também não dá para dizer que ele está tirando leite de pedra, o clube paulista investiu bastante, e hoje, tem conquistado os resultados de certa forma, dentro do esperado.
Hoje, com 365 jogos desde novembro de 2020, Abel é também o técnico que mais disputou finais na história do clube: 13. Ele mudou o Palmeiras, mudou a maneira como o time joga, mudou até o jeito como o torcedor vê o próprio clube. Um impacto assim não se joga fora como se troca treinador depois de dois empates.
Mas então… deveria ter acabado?
Essa é a parte interessante da renovação: dá para defender os dois lados.
Quem acha que o ciclo deveria ter terminado usa argumentos fortes: desgaste natural, falta de evolução tática, ano sem títulos, previsibilidade, atrito com parte da torcida. É verdade que o Palmeiras parece ter menos “faro de gol”, menos intenso e menos explosivo do que em seus melhores momentos.
Por outro lado, quem defende a continuidade enxerga um Abel ainda faminto, valorizado, extremamente identificado e que segue colocando o Palmeiras entre os grandes favoritos em absolutamente todas as competições que disputa. Pode não apresentar o futebol mais bonito de todos, só que ainda sabe muito bem como trabalhar dentro das quatro linhas.
Apesar de que, sofreu bastante quando teve de bater de frente com os melhores times do Brasil, não é atoa que seu repertório com o G8 do Brasileirão foi deplorável para um competidor que tinha em seus planos, ser campeão nacional.
O próprio técnico reconhece que o ciclo está diferente, mas não acabado. Falou de gratidão, de aprendizado, de relação com a torcida e até dos doces típicos que recebe pelos estádios do Brasil. Um Abel mais humano, mais consciente, mas certamente ainda competitivo.
A renovação não encerra o debate, só esquenta
A verdade é que o Palmeiras não só renovou Abel, mas estendeu o debate eterno entre “continuidade necessária” e “ciclo que já poderia ter acabado”. O português segue no comando, convicto de que as lições de 2025 vão fazer o clube vencer em 2026. A diretoria segue firme na aposta. A torcida segue dividida, porque futebol, no fim, é paixão e cobrança.
A única certeza é que o Palmeiras continua com um dos técnicos mais vencedores da história recente da América do Sul. Mas também continua com um treinador que vai precisar mostrar algo novo para provar que o ciclo ainda está vivo, e não virou só memória afetiva de um período vitorioso.



