Em 24 de dezembro de 2010, uma notícia sacudiu o futebol de Milão. Massimo Moratti anunciava o seu 15º treinador como presidente da Inter de Milão: Leonardo, ex-jogador e dirigente do Milan. O brasileiro assumia o lugar de Rafa Benítez poucos dias depois da conquista do Mundial de Clubes, em Abu Dhabi. Tal decisão colocou em cheque a figura do brazuca, que era muito identificado com os Rossoneri.
O Mundial de Clubes como “ponto de ruptura” e a chegada de Leonardo

O título mundial da Inter de Milão veio em uma campanha impecável. Na semifinal, a equipe aplicou 3 a 0 sobre o Seongnam, da Coreia do Sul, com gols de Dejan Stankovic, Javier Zanetti e Diego Milito. Na decisão, contra o Mazembe (equipe da qual rendeu péssimas lembranças aos torcedores colorados), o placar da fase anterior se repetiu, só que com Goran Pandev, Samuel Eto’o e Jonathan Biabiany balançando as redes.

Na comemoração, Eto’o apareceu segurando dois sacos plásticos, ideia de Marco Materazzi. A cena fazia referência ao clássico filme italiano L’allenatore nel pallone — uma provocação indireta ao treinador espanhol, cujo desgaste já era público.
Só que Rafa Benítez, diante das alfinetadas, não ficou calado e foi direto ao ponto após o título mundial:
“Sou um profissional sério e mereço respeito pelo meu trabalho. Não é possível continuar assim. Preciso do apoio do clube. Quando cheguei, me prometeram três reforços e nenhum chegou. Agora há três caminhos: o clube faz um projeto e contrata quatro jogadores já em janeiro; seguimos assim, com o treinador como único culpado; ou o presidente fala com meu empresário e encontramos outra solução.” — repudiou, o espanhol.
A resposta de Moratti foi imediata e definitiva: “não era o momento de pedir reforços”. O vínculo com Benítez foi encerrado, e a Inter virou a página apostando em Leonardo — a quem, ironicamente, concedeu quatro contratações na janela de janeiro: Giampaolo Pazzini (vindo da Sampdoria por 18 milhões de euros), Andrea Ranocchia (comprado junto ao Genoa, por 13 milhões), Yuto Nagatomo (Cesena, por 6,5 milhões) e Houssine Kharja (cedido por empréstimo pelo Genoa).
Em sua apresentação, Leonardo tentou equilibrar emoção e pragmatismo:
“Jamais esquecerei o Milan e serei eternamente grato, mas era impossível dizer não a Moratti. Eu não buscava um trabalho, mas um sonho. Não existe desafio maior do que este. Temos 13 pontos para recuperar e dois jogos a menos. Eu acredito no Scudetto.”
A reação veio forte e quase se transformou em virada histórica. Mas o momento decisivo escapou em 2 de abril, no clássico contra o Milan. A derrota por 3 a 0, com ‘doblete’ de Pato — contratado pelos Rossoneri justamente por Leonardo — e Antonio Cassano, de pênalti, abriu caminho para o título do rival. A Inter terminou a Lega Serie A em segundo lugar, seis pontos atrás.
Da noite épica em Munique a um título consolativo da Coppa Italia

Na Champions League, os Nerazzurri viveram uma de suas noites mais memoráveis ao vencer o Bayern de Munique por 3 a 2 fora de casa, nas oitavas de final, com gols de Eto’o, Wesley Sneijder e Pandev. Nas quartas, porém, a campanha terminou diante do Schalke 04, que venceu por 5 a 2 no San Siro, apesar do gol relâmpago e antológico de Stankovic, do meio-campo, que encobriu Manuel Neuer.

Mas, nem tudo foi de todo mal. O consolo veio na Copa da Itália, em que a Inter bateu o Palermo de Josip Ilicic e Javier Pastore por 3 a 1 na final. Na ocasião, com dois gols de Eto’o e um de Milito, os Biscioni encerraram a temporada com um título doméstico, embora aquém das expectativas traçadas no início da season 2010/2011.
Números históricos, uma saída precoce e a chegada de um conhecido nos dias de hoje
Os números ajudam a explicar por que aquele Natal permanece tão marcante. Leonardo encerrou sua passagem com a melhor média de pontos da história da Inter: 2,16 por jogo — à frente de Simone Inzaghi (2,14), José Mourinho (2,12), Antonio Conte (2,11) e Roberto Mancini (2,0).
Em julho, o brasileiro deixou o cargo e assumiu como diretor esportivo do Paris Saint-Germain. Para substituí-lo, Moratti escolheu Gian Piero Gasperini, que durou apenas cinco partidas e entrou para a história como o único técnico da Inter a não vencer um jogo sequer, com média de apenas 0,2 ponto por partida.
Créditos da foto de capa: Vittorio Zunino Celotto/Getty Images



