José Mourinho começou sua nova trajetória no Real Madrid na Champions League com vitória, mas o resultado contra a Inter de Milão esteve longe de representar uma atuação que deixasse o treinador completamente satisfeito. No Santiago Bernabéu, o Real Madrid venceu por 2 a 1, aproveitou erros do adversário, foi extremamente perigoso nos contra-ataques e contou com uma grande atuação de Thibaut Courtois. O problema? O jogo ficou aberto demais para o gosto do português.
E o próprio Mourinho deixou isso claro após a partida.
O Real Madrid teve apenas 35,6% de posse de bola, mesmo atuando em casa, e conseguiu vencer graças a uma estratégia que, em alguns momentos, lembrou bastante os grandes times comandados pelo treinador português. Defesa mais baixa, recuperação da bola e velocidade para atacar espaços. No papel, parecia até uma receita conhecida.
Na prática, porém, o jogo teve muito mais descontrole do que Mourinho gostaria.
Real Madrid abre a Champions com números curiosos
A posse de bola do Real Madrid foi a menor registrada pelo clube em uma partida de fase de grupos ou fase de liga da Champions League no Santiago Bernabéu desde que esse tipo de levantamento começou a ser feito, na temporada 2003-04.
Para qualquer outro técnico no banco merengue, talvez esse dado chamasse ainda mais atenção. Com Mourinho, porém, o número não é exatamente surpreendente.
Ao longo de sua carreira, o português construiu alguns de seus principais times aceitando a ideia de jogar sem a bola. Seus confrontos contra o Barcelona, especialmente, ajudaram a consolidar essa imagem. Mourinho nunca fez questão de dominar a posse apenas por dominar. Para ele, ter a bola não significa necessariamente controlar o jogo.
Contra a Inter, no entanto, houve uma diferença importante.
O Real Madrid conseguiu ser muito perigoso mesmo com pouca posse. Vinícius Júnior, Kylian Mbappé, Brahim Díaz e Jude Bellingham formaram uma linha ofensiva capaz de transformar qualquer recuperação de bola em uma ameaça imediata. Especialmente no segundo tempo, os espaços deixados pela Inter foram explorados com frequência.
Os números mostram isso.
O Real Madrid finalizou cinco vezes após contra-ataques rápidos, uma marca que o clube só superou duas vezes anteriormente em jogos de Champions League desde 2003-04. Além disso, a equipe terminou a partida com 2,9 de gols esperados (xG), mostrando que criou oportunidades suficientes para vencer com uma margem ainda maior.
Gols nasceram de erros da Inter
Os dois gols do Real Madrid também combinaram com uma das ideias frequentemente associadas aos times de Mourinho: aproveitar ao máximo os erros do adversário.
No primeiro gol, Yann Bisseck perdeu a posse de bola, e o Real Madrid precisou de poucos segundos para transformar o erro em ataque. Mbappé apareceu para finalizar e colocar os espanhóis em vantagem.
O segundo foi ainda mais curioso.
Federico Valverde pressionou o goleiro Josep Martínez, conseguiu desarmá-lo e acabou empurrando a bola para o fundo das redes. Um lance que resumiu bem a noite da Inter: quando o adversário errava, o Real Madrid estava pronto para atacar.
Mas seria injusto resumir a atuação merengue apenas aos dois gols.
O Real Madrid criou nove grandes chances durante a partida, seu segundo maior número em um jogo de Champions League. O recorde aconteceu contra o Malmö, em 2015, quando a equipe teve 12 grandes oportunidades.
Ao mesmo tempo, a estatística também revela um problema.
Foram sete grandes chances desperdiçadas, número que igualou o maior registro do clube na competição. Ou seja, o Real Madrid foi extremamente perigoso, mas também bastante desperdiçador. Em uma noite mais eficiente, o placar poderia ter sido muito mais confortável. E talvez justamente aí esteja uma das maiores preocupações para Mourinho.
Courtois salvou o Real Madrid
Se o ataque criou bastante, a defesa também permitiu que a Inter tivesse suas oportunidades. E muitas.
O time italiano finalizou 21 vezes, o maior número de chutes de uma equipe visitante contra o Real Madrid em um jogo de fase de grupos ou liga da Champions desde outubro de 2004, quando o Dynamo Kyiv conseguiu 22.
É um dado difícil de ignorar. A equipe de Mourinho conseguiu machucar a Inter nos contra-ataques, mas também foi vulnerável demais quando precisou defender. O meio-campo e a defesa tiveram dificuldades para controlar os ataques italianos, e Courtois acabou sendo um dos grandes protagonistas da vitória.
O goleiro belga realizou sete defesas durante a partida. Foi uma de suas atuações mais exigidas pelo Real Madrid em jogos de fase de grupos ou liga da Champions. Courtois só havia feito mais defesas uma vez nesse tipo de confronto pelo clube: contra o Liverpool, quando trabalhou oito vezes em partida disputada em Anfield.
Em outras palavras, o Real Madrid venceu, mas precisou que seu goleiro tivesse uma noite de destaque. Para Mourinho, isso não é exatamente o ideal.
Mourinho não gostou do caos
Após a partida, o treinador português não tentou transformar a vitória em uma obra-prima tática.
Pelo contrário. Mourinho classificou o confronto como uma espécie de loucura e deixou claro que não gosta de jogos tão descontrolados. O português afirmou que prefere uma equipe capaz de marcar cinco, seis ou sete gols, mas mantendo o controle da partida e sem depender de uma atuação extraordinária do goleiro.
A declaração resume perfeitamente o que aconteceu no Bernabéu.
O Real Madrid foi letal em vários momentos, criou oportunidades suficientes para construir uma vitória mais tranquila e mostrou que possui jogadores perfeitos para um estilo baseado em transições rápidas. Vinícius e Mbappé correndo em direção ao gol adversário após uma recuperação de bola é, convenhamos, uma perspectiva assustadora para praticamente qualquer defesa da Europa.
Mas existe um detalhe importante: um time de Mourinho não costuma sobreviver apenas de caos.
Os melhores trabalhos do treinador sempre tiveram uma estrutura defensiva muito forte. Mesmo quando suas equipes jogavam no contra-ataque, existia organização, compactação e controle dos espaços. Contra a Inter, o Real Madrid mostrou a capacidade de atacar rapidamente, mas também deixou claro que ainda precisa evoluir bastante sem a bola.
Vitória importante, mas longe do Real Madrid ideal
A estreia do Real Madrid na Champions League terminou com três pontos, gols, grandes chances e uma atuação decisiva de Courtois. O resultado, portanto, é excelente.
A atuação, nem tanto. Mourinho está há pouco tempo no comando e seria exagero esperar que o time já fosse uma versão completa daquilo que ele deseja construir. Ainda assim, o jogo contra a Inter mostrou claramente os dois lados desse novo Real Madrid.
Na frente, há velocidade, talento e jogadores capazes de destruir qualquer sistema defensivo quando encontram espaço.
Atrás, porém, a equipe ainda parece vulnerável demais.
Se Mourinho conseguir transformar a força dos contra-ataques em uma arma constante e, ao mesmo tempo, tornar o Real Madrid mais sólido no meio-campo e na defesa, o cenário pode ser extremamente promissor. O problema é que, no Santiago Bernabéu, a paciência costuma ser curta e resultados são exigidos imediatamente.
Contra a Inter, algumas estatísticas realmente lembraram uma vitória clássica de José Mourinho. Mas, olhando para os 90 minutos, houve um ingrediente que não combina tanto com os grandes times do português: caos demais.
E, depois de precisar de Courtois para sobreviver a uma enxurrada de ataques, Mourinho provavelmente saiu do Bernabéu com os três pontos no bolso, mas com bastante trabalho pela frente.
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