O Flamengo viveu, em 2025, uma temporada digna de epopeia. Entre momentos de instabilidade, decisões políticas, reformulação interna e afirmação em campo, o Rubro-Negro conquistou uma tríplice coroa e pintou o Rio de Janeiro, o Brasil e a América do Sul de vermelho e preto. Sob o comando de Filipe Luís, o clube encontrou identidade, resiliência e voltou a dominar o cenário continental.
O ano seguinte à conquista da Copa do Brasil de 2024 prometia ser desgastante, mas carregado de expectativa. Mesmo com pouco tempo como treinador, Filipe Luís demonstrou profundo conhecimento do elenco, aliando estudo tático, gestão humana e leitura de jogo para extrair o melhor de cada atleta. O resultado foi um futebol eficiente e competitivo, que inevitavelmente passou a ser comparado ao histórico Flamengo de Jorge Jesus, em 2019.
Antes da bola rolar, porém, o clube enfrentaria turbulências fora de campo.
Nova gestão, novas diretrizes

A temporada começou com a eleição presidencial no Flamengo. Entre Luiz Eduardo Baptista, o Bap; Rodrigo Dunshee; e Maurício Gomes de Mattos, a torcida escolheu Bap, que iniciou sua gestão com decisões claras: a manutenção de Filipe Luís no comando técnico e a contratação do português José Boto como diretor de futebol.
A escolha se mostraria determinante para o rumo do ano.
Blindagem interna e o primeiro título do ano

Após um 2024 frustrante em alguns aspectos, o clube optou por ajustes estruturais em vez de uma reformulação radical. José Boto promoveu mudanças profundas nos bastidores, especialmente na política de comunicação e no controle de acesso ao CT. O objetivo era claro: “distração zero”.
O impacto foi imediato. Vazamentos internos cessaram, escalações passaram a ser mantidas em sigilo e o Flamengo tornou-se mais imprevisível para os adversários.
Dentro de campo, o ano começou com o Carioca. Enquanto o elenco principal descansava, os Garotos do Ninho assumiram as primeiras rodadas. As atuações irregulares renderam críticas, mas o foco estava na experiência e no desenvolvimento.
Paralelamente, chegaram os primeiros reforços: Juninho, fruto do scouting, e Danilo, multicampeão europeu que realizou o sonho de vestir o clube do coração. Ambos estiveram presentes na conquista da Supercopa Rei, em Belém, com vitória por 3 a 1 sobre o Botafogo, sob um verdadeiro dilúvio no Mangueirão.
O domínio rubro-negro chamou atenção. O Flamengo passou a ditar o ritmo dos jogos, com solidez defensiva e eficiência ofensiva. O resultado foi a conquista do Campeonato Carioca sobre o Fluminense, sem grandes sustos.
Libertadores e Brasileirão: vitórias sem brilho e pressão crescente
As duas grandes prioridades do ano começaram quase simultaneamente. No Brasileirão, o Flamengo empatou por 1 a 1 com o Internacional, no Maracanã, em atuação apagada. Na Libertadores, venceu o Deportivo Táchira fora de casa por 1 a 0, com gol de Juninho, mas sem convencer.
O alerta virou alarme com a derrota em casa para o Central Córdoba, estreante na competição continental. O revés expôs fragilidades e gerou cobranças por postura e intensidade.
A resposta veio rápido: vitória sobre o Grêmio, na Arena, goleada contra o Juventude e, sobretudo, um triunfo marcante sobre o Palmeiras, no Allianz Parque — partida que apresentou Wallace Yan ao grande público.
A sequência positiva, porém, seria interrompida em razão da pausa para a disputa do Mundial de Clubes.
Mundial: vitória histórica sobre ingleses e queda para os alemães
No grupo com Espérance, LAFC e Chelsea, o Flamengo começou bem. A vitória sobre os tunisianos foi segura, mas o grande momento veio contra o Chelsea. Assim como em 1981, o Rubro-Negro colocou os ingleses na roda e venceu por 3 a 1, em atuação histórica.
Um nome se destacou nesse período: Jorginho. O italo-brasileiro encaixou perfeitamente no meio-campo, oferecendo controle, qualidade no passe e saída sob pressão.
Na última rodada, empate com o LAFC, com Wallace Yan novamente decisivo. Classificado, o Flamengo enfrentou o Bayern de Munique nas oitavas. Apesar do placar de 4 a 2, os alemães controlaram o jogo e deixaram claro que ainda havia um caminho longo a percorrer para o Rubro-Negro no cenário mundial.
Reforços de peso, saídas dolorosas e ajustes no elenco

De volta ao Brasil, enquanto o Fluminense brilhava no Mundial, o Flamengo foi ao mercado. Chegaram Samuel Lino, Saúl Ñíguez, Emerson Royal e Jorge Carrascal. Em contrapartida, Gerson deixou o clube de forma melancólica, encerrando um ciclo de idolatria.
A equipe encontrou equilíbrio. A defesa ganhou consistência, o meio-campo passou a girar em torno de Jorginho e, principalmente, de Arrascaeta, que viveu uma de suas melhores temporadas, assumindo papel letal entre linhas.
No ataque, as opções eram variadas: Pedro, Bruno Henrique, Plata, Luiz Araújo, Samuel Lino e Everton Cebolinha. Pedro, porém, viveu um período conturbado, com postura questionada internamente — situação que Filipe Luís não hesitou em expor publicamente.
Wallace Yan também enfrentou dificuldades fora das quatro linhas. Problemas disciplinares, expulsão evitável e um pênalti perdido contra o Atlético-MG, nas oitavas da Copa do Brasil, marcaram um processo de amadurecimento doloroso, mas necessário.
O Brasil e a América novamente pintados de vermelho e preto

A retomada da confiança foi decisiva. O Flamengo terminou o Brasileirão com números históricos: melhor ataque, melhor defesa, uma das campanhas defensivas mais sólidas da era dos pontos corridos e um desempenho quase perfeito como mandante.
Quando a defesa era vazada, Agustín Rossi aparecia. O argentino foi protagonista absoluto na Libertadores, garantindo classificações decisivas nos pênaltis contra o Estudiantes e com atuação monumental diante do Racing, na semifinal.
Na final continental, em Lima, o Flamengo escreveu mais um capítulo dourado. Contra o Palmeiras, Danilo subiu mais alto que todos para marcar o gol do título, levando o clube ao tetra da Libertadores e ao posto de maior campeão brasileiro da competição.
No Brasileirão, o gol decisivo foi de Samuel Lino, herói improvável em uma campanha que consolidou o Flamengo como nove vezes campeão nacional e quatro vezes campeão da América.
A derrota para o PSG no Intercontinental não apaga a temporada, mas indica que a distância para o topo mundial diminuiu — ainda que o desafio siga enorme.
Olhos em 2026: continuidade e renovação
O Flamengo já trabalha na renovação de peças-chave, como Filipe Luís e Everton Cebolinha, enquanto se prepara para um processo natural de rejuvenescimento do elenco, especialmente diante da aposentadoria iminente de Bruno Henrique.
Os desafios seguem altos, mas a expectativa permanece intacta: manter o domínio nacional, seguir competitivo na América e, quem sabe, voltar a sonhar com o mundo.
Créditos da foto de capa: Divulgação / AGIF