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UFC aposta no streaming após enfrentar críticas salariais e fuga de estrelas ao boxe

O UFC enfrenta uma encruzilhada complicada em sua história recente: após anos de críticas persistentes por pagar mal seus atletas, a organização começa 2026 com um modelo de negócios renovado que pode alterar profundamente o ecossistema do MMA e responder a várias das queixas mais duras contra ela.

Durante grande parte da última década, o UFC capitalizou enormemente o sistema tradicional de pay-per-view (PPV), no qual fãs pagavam um valor adicional além de suas assinaturas para assistir aos principais eventos. Esse modelo transformou estrelas, como Conor McGregor, em fenômenos globais não apenas dentro do MMA, mas no cenário esportivo em geral, graças aos lucros massivos gerados por buys de PPV.

No entanto, o crescimento do UFC contrastou com um quadro salarial amplamente criticado. Lutadores em posições medianas ou de “undercard— os que lutam nas primeiras posições das cartas — frequentemente recebem quantias modestas em comparação com outros esportes profissionais, e essa disparidade se torna ainda mais aguda quando comparada com os rendimentos de boxeadores de elite ou estrelas de outras ligas esportivas.

A narrativa de que o UFC paga mal não nasceu do nada. Promessas de ganhos extraordinários dependendo de PPV points (participação nos lucros de vendas de pay-per-view) sempre foram uma forma de atrair talentos, mas essas promessas raramente se materializam para quem está fora do topo da hierarquia. Isso tem alimentado descontentamentos públicos e levou até mesmo os atletas mais famosos a direcionar suas atenções ao boxe, onde grandes remunerações e contratos multimilionários parecem mais acessíveis.

O resultado foi um duplo impacto: por um lado, críticas ao modelo de remuneração do UFC; por outro, a visível atração do boxe comercial e midiático para lutadores que buscam maiores recompensas financeiras e exposição global. Essa migração ameaça não apenas a retenção de talentos no MMA, mas também a percepção pública do esporte e seu valor competitivo frente ao boxe.

Resposta

Em resposta a esse cenário, o UFC deu um passo ousado ao reformular seu modelo de distribuição de eventos, assinando um acordo de transmissão de US$ 7,7 bilhões ao longo de sete anos com o serviço de streaming Paramount+. Esse acordo, que entra em vigor em 2026, marca o fim do modelo tradicional de pay-per-view tal como era conhecido, já que todos os eventos passam a ser transmitidos na plataforma como parte da assinatura, sem taxa adicional de PPV.

O impacto dessa transição é multifacetado. Para os fãs, o acesso a eventos do UFC torna-se mais barato e direto — já não é necessário pagar centena de dólares por luta, bastando uma assinatura do serviço de streaming. Isso pode ampliar a base de espectadores, democratizando o acesso e atraindo públicos que eram inibidos pelos altos custos de PPV.

Para os lutadores, as implicações são talvez ainda mais significativas. Daniel Cormier, ex-campeão do UFC e comentarista influente, afirmou que sob o novo sistema de contratos e com a retirada do PPV, muitos atletas já estão ganhando mais do que ganhavam anteriormente, com salários mais garantidos e menos dependência de vendas de pay-per-view. Essa afirmação sugere um movimento rumo a rendimentos mais estáveis e potencialmente mais justos para todo o elenco, não apenas para as megastars.

Esse novo modelo tem o potencial de alterar radicalmente a equação de valor que antes favorecia apenas os grandes nomes do esporte. Desta forma, o UFC pode reter talentos que de outra forma poderiam ser seduzidos por ofertas mais lucrativas no boxe ou em eventos especiais fora do circuito tradicional de MMA.

Desafios

Naturalmente, ainda existem desafios. A sustentabilidade real desse sistema depende de como a receita do contrato com a Paramount será distribuída entre lutadores, promotores e investidores, e se os atletas sentirão que essa mudança realmente se traduziu em melhora financeira real. Além disso, a comparação contínua com os altos salários do boxe profissional manterá o debate sobre compensação em MMA em destaque.

Ainda assim, a virada estratégica em direção a streaming e o fim do modelo antiquado de PPV representa, pelo menos, uma resposta séria às críticas e um passo importante na evolução do esporte. À medida que 2026 se desenrola, será possível avaliar melhor até que ponto essa mudança poderá redefinir a relação entre o UFC, seus lutadores e sua base de fãs.

Foto: Getty Images