A Premier League da temporada 2025/26 está longe de ser apenas mais uma edição do campeonato mais intenso do mundo. Ao ultrapassar a metade do calendário, os números confirmam algo que já vinha sendo sentido a olho nu desde as primeiras rodadas: o futebol inglês está mais direto, mais pragmático e cada vez mais decidido nos detalhes.
Lá em setembro, quando apenas 50 jogos haviam sido disputados, os dados já apontavam para menos passes, mais bolas longas, crescimento brutal das jogadas de bola parada e um uso quase obsessivo dos arremessos laterais longos. A dúvida era se aquilo seria apenas um efeito passageiro de início de temporada ou uma tendência real. Passados 210 jogos, a resposta parece clara.
O estilo não só se manteve como, em alguns aspectos, ficou ainda mais extremo. Mesmo com um leve aumento no número total de passes em relação às primeiras rodadas, a Premier League segue sendo mais direta do que em qualquer outra temporada recente, com impacto direto na forma como os jogos são decididos.
Menos passes, mas não menos intenção
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Um dos dados que mais chamaram atenção no início da temporada foi a queda brusca no número médio de passes por jogo. Em 2023/24, a média era de 941 passes por partida. Na temporada seguinte, caiu para 893. Agora, após 210 jogos em 2025/26, o número está em 873,3.
Isso representa o menor índice desde a temporada 2012/13, mostrando que a Premier League realmente mudou sua dinâmica. Curiosamente, após um início ainda mais radical, quando a média chegou a 849 passes por jogo, houve uma pequena correção ao longo do campeonato, mas não o suficiente para voltar aos padrões antigos.
Alguns gigantes puxaram esse aumento recente. O Manchester City, por exemplo, saiu de uma média de 476 passes nas primeiras rodadas para mais de 570 atualmente. Liverpool e Arsenal seguiram caminho parecido, ajustando seu jogo para controlar mais a bola sem perder agressividade.
Já outros times foram na direção oposta. Tottenham, Chelsea e Nottingham Forest reduziram consideravelmente seus números, especialmente após mudanças de comando e de abordagem tática. No caso do Forest, a chegada de Sean Dyche deixou o estilo ainda mais vertical e físico.
Sequências curtas e velocidade mantida
Mesmo com o aumento recente no total de passes, as sequências continuam curtas. As jogadas duram, em média, apenas 9,5 segundos, praticamente o mesmo tempo registrado no início da temporada e abaixo dos padrões dos últimos anos.
Além disso, a progressão média com a bola segue limitada a cerca de 12 metros por sequência, o que reforça a ideia de um jogo mais fragmentado, com menos posse prolongada e mais tentativas diretas de ganhar território.
O Manchester City é um bom exemplo de adaptação. O time aumentou suas trocas de passes, mas manteve a mesma velocidade vertical de jogo, mostrando que é possível controlar a bola sem abrir mão da intensidade. Outros clubes, porém, ainda parecem buscar esse equilíbrio.
Bola longa segue firme no campeonato
Se alguém esperava que o crescimento recente dos passes diminuísse o uso da bola longa, os números mostram o contrário. A média de lançamentos longos por jogo praticamente não mudou desde setembro: caiu apenas de 99,7 para 99,6.
Isso confirma que os passes adicionais são, em sua maioria, curtos. A bola longa segue sendo uma ferramenta central no jogo inglês, muito mais presente do que na temporada passada, quando a média era de 93,4 por partida.
Individualmente, Marcos Senesi segue como o líder absoluto nesse fundamento entre os jogadores de linha. O defensor do Bournemouth já executou 266 passes longos na temporada, mostrando como a saída direta desde a defesa virou algo normal, até mesmo para zagueiros.
Pressão alta volta a ganhar força
Outro dado interessante envolve as chamadas recuperações altas. No início da temporada, elas estavam em baixa histórica, com apenas 11,5 por jogo. Agora, esse número subiu para 13,3, sinalizando uma retomada gradual da pressão pós-perda.
Embora ainda abaixo da média da temporada passada, o crescimento indica que os times estão se adaptando melhor ao jogo mais direto e encontrando formas de pressionar mesmo com menos posse.
Mais importante ainda é a eficiência dessas recuperações. A porcentagem que termina em finalização voltou a subir e já se aproxima dos níveis anteriores, mostrando que as equipes estão conseguindo transformar pressão em chances reais.
Bolas paradas viram protagonistas absolutos
Se há uma tendência impossível de ignorar em 2025/26, ela atende pelo nome de bola parada. Até aqui, 28,3% dos gols do campeonato saíram de escanteios, faltas ou laterais, excluindo pênaltis. É o maior índice da última década.
Os escanteios lideram esse crescimento. Já são 105 gols originados desse tipo de jogada, com média de um gol a cada dois jogos. Além disso, apenas 11,3% dos escanteios são cobrados curtos, o menor índice em anos.
Até os tiros de meta entraram na onda do jogo direto. Quase metade deles termina no campo de ataque, com goleiros como Martin Dúbravka e Robin Roefs sendo símbolos dessa mudança radical.
O retorno definitivo dos laterais longos
Talvez a imagem mais simbólica dessa nova Premier League seja o retorno em massa dos laterais longos. Aquilo que parecia uma excentricidade virou arma estratégica para vários clubes.
A média saltou de 1,52 arremessos longos por jogo na temporada passada para quase 4 em 2025/26. E o impacto não é apenas visual: já são 18 gols saindo diretamente desse tipo de jogada, com um gol a cada 11,7 partidas.
O Brentford lidera esse quesito, com Michael Kayode sendo praticamente um quarterback em campo. Outros clubes testam a estratégia de forma mais tímida, mas a tendência é de crescimento, especialmente com técnicos e especialistas dedicados a esse fundamento.
Uma Premier League em transformação
A Premier League vive uma mudança clara de identidade. Não é que todos joguem da mesma forma, mas cada vez mais times estão dispostos a abrir mão do controle absoluto da bola em troca de eficiência, físico e aproveitamento máximo das bolas paradas.
O aumento recente nos passes mostra que os grandes clubes estão se adaptando, mas o crescimento contínuo dos gols de escanteio e dos laterais longos indica que esses atalhos para o gol vieram para ficar.
A temporada 2025/26 não é apenas diferente. Ela é um retrato de um campeonato que se reinventa, testa limites e aceita soluções pouco convencionais. E, para quem gosta de analisar futebol além do placar, esse cenário é simplesmente fascinante.
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