Futebol Copa do Brasil

Grêmio ainda peca nas conclusões, mas classificação pode ser o que a equipe precisava para reagir

O Grêmio está nas quartas de final da Copa do Brasil. Em uma temporada marcada por atuações irregulares, pressão crescente sobre Luís Castro e uma campanha preocupante no Campeonato Brasileiro, a classificação sobre o Mirassol representa muito mais do que a continuidade em um torneio. Ela compra tempo para um elenco que precisava desesperadamente de um resultado positivo, ainda que o desempenho siga deixando inúmeras dúvidas.

A vitória por 1 a 0 na Arena foi construída graças a um protagonista improvável. Cristian Pavon, talvez o jogador mais criticado pela torcida nos últimos meses, marcou o gol da classificação justamente quando parecia viver mais uma noite de pouca inspiração. O argentino transformou vaias em aplausos, mas sua atuação também resume o momento gremista: um time que consegue sobreviver através de lampejos individuais, sem ainda convencer coletivamente.

Pavon responde às críticas, mas o coletivo continua devendo

Durante boa parte do primeiro tempo, Pavon parecia caminhar para mais uma atuação frustrante. Passes errados, cruzamentos sem direção e dificuldades para criar jogadas fizeram com que o atacante voltasse a ser o principal alvo da impaciência da torcida presente na Arena.

Não era uma reação isolada. Desde sua chegada ao clube, no início de 2024, o argentino convive com cobranças constantes. Ainda assim, algo chama atenção em sua trajetória no Grêmio: independentemente das críticas vindas das arquibancadas, todos os treinadores que passaram pelo clube seguiram confiando nele.

Renato Portaluppi, Gustavo Quinteros, Mano Menezes e agora Luís Castro enxergaram em Pavon características que vão além dos números ofensivos. Sua intensidade na recomposição defensiva, disciplina tática e capacidade física fazem dele uma peça importante em diferentes modelos de jogo.

Contra o Mirassol, essa confiança voltou a ser recompensada. Aos 36 minutos da primeira etapa, Pavon cobrou falta com precisão, surpreendeu o goleiro adversário e marcou o único gol da partida. O lance mudou completamente o ambiente na Arena. O jogador que poucos minutos antes era alvo de protestos passou a ser o responsável por aliviar a enorme pressão que rondava o clube.

Mais do que o gol, Pavon entregou aquilo que Luís Castro parece valorizar acima de tudo: entrega sem bola. Seu comprometimento na marcação ajudou a proteger o lado direito defensivo durante praticamente todo o confronto, justificando novamente sua permanência entre os titulares.

A classificação vale ouro, mas não esconde as limitações do Grêmio

Se o resultado trouxe alívio, o desempenho continua sendo motivo de preocupação. Depois de abrir o placar, o Grêmio adotou uma postura excessivamente reativa. O Mirassol passou a controlar boa parte das ações ofensivas, acumulou finalizações e empurrou os donos da casa para perto da própria área durante praticamente toda a segunda etapa.

É verdade que muitas dessas conclusões aconteceram sem grande perigo, mas o volume ofensivo evidencia uma dificuldade recorrente da equipe de Luís Castro.

O Grêmio ainda demonstra enorme dificuldade para controlar partidas. Em vez de administrar a posse de bola ou construir ataques capazes de diminuir a pressão adversária, o time frequentemente entrega a iniciativa ao rival e aposta exclusivamente na solidez defensiva para sustentar vantagens mínimas.

Esse tipo de estratégia pode funcionar em confrontos eliminatórios, onde o resultado costuma ter peso maior do que a performance. No entanto, torna-se extremamente perigoso ao longo de uma temporada inteira, especialmente para um clube que ocupa posição delicada na tabela do Campeonato Brasileiro.

A classificação evita uma crise ainda maior, mas dificilmente pode ser interpretada como sinal definitivo de evolução. Para que isso aconteça, será necessário apresentar uma sequência consistente de boas atuações, algo que ainda não ocorreu sob o comando de Luís Castro.

Wallace aproveita a oportunidade e pode mudar a defesa gremista

Se Pavon foi o protagonista ofensivo, Wallace talvez tenha sido a principal notícia pensando no futuro da equipe. Contratado junto ao CRB sem grande repercussão, o zagueiro recebeu nova oportunidade entre os titulares e respondeu com uma atuação extremamente segura.

Improvisado pelo lado esquerdo da defesa, mostrou personalidade desde os primeiros minutos. Venceu disputas físicas, antecipou jogadas importantes e transmitiu tranquilidade em um momento no qual o Grêmio passou grande parte do segundo tempo sendo pressionado.

A atuação ganha ainda mais importância pelo contexto. Em um elenco que ainda busca estabilidade defensiva, encontrar uma alternativa confiável representa um ganho significativo para Luís Castro. Wallace mostrou que pode oferecer justamente aquilo que o treinador procura: consistência, segurança e pouca margem para erros.

É cedo para afirmar que conquistou definitivamente a posição, mas sua performance certamente o coloca em vantagem na disputa por uma vaga entre os titulares.

No entanto, talvez a maior vitória gremista tenha acontecido fora das quatro linhas. Uma eliminação para o Mirassol aprofundaria drasticamente a pressão sobre Luís Castro e aumentaria a instabilidade em um momento delicado da temporada.

A classificação interrompe esse cenário. O ambiente ganha um pouco mais de tranquilidade, o treinador conquista tempo para trabalhar e os jogadores recuperam parte da confiança perdida após a sequência sem vitórias.

Mas o desafio verdadeiro continua sendo o Campeonato Brasileiro. O Grêmio permanece próximo da zona de rebaixamento e sabe que atuações como a desta quarta-feira dificilmente serão suficientes para construir uma recuperação consistente.

A equipe ainda produz pouco ofensivamente, sofre para controlar adversários e depende de momentos isolados para decidir partidas.

A Copa do Brasil pode ser o combustível para a recuperação

Em torneios de mata-mata, muitas vezes o desempenho fica em segundo plano quando a classificação é alcançada. O Grêmio cumpriu sua missão e segue vivo na principal competição nacional.

No entanto, a vitória sobre o Mirassol deve ser encarada como um ponto de partida, não como uma confirmação de melhora. O futebol apresentado ainda está distante do esperado para um clube do tamanho do Grêmio. Há dificuldades na criação, pouca imposição ofensiva e uma dependência excessiva da organização defensiva para sobreviver aos jogos.

Ainda assim, noites como essa podem ter um efeito importante sobre o aspecto psicológico do elenco. Pavon reencontrou confiança justamente quando parecia viver seu momento mais delicado. Wallace mostrou que pode se transformar em solução para a defesa. E Luís Castro ganhou um respiro para seguir tentando implementar suas ideias.

Agora, porém, o Grêmio precisa transformar esse alívio em evolução. Porque, assim como aconteceu diante do Mirassol, uma bola parada ou um lance isolado podem resolver um mata-mata. No Campeonato Brasileiro, entretanto, apenas resultados ocasionais dificilmente serão suficientes para tirar a equipe da luta contra o rebaixamento. A classificação vale muito, mas o verdadeiro teste da reação gremista começa agora.

(Foto: Lucas Uebel/Grêmio)