A Premier League gastou como nunca mais uma vez, mas os gols simplesmente resolveram tirar férias. O verão europeu foi marcado por clubes abrindo o cofre em busca de atacantes capazes de decidir jogos, balançar as redes, serem fatais e incendiar arquibancadas. No total, os times da Premier League investiram £1,92 bilhão apenas em jogadores ofensivos, um recorde absoluto. O problema? A bola não está entrando com a frequência esperada.
E quando até Erling Haaland, o maior símbolo do futebol ofensivo recente da Premier League, começa a sofrer para marcar, o alerta fica ligado.
Nem a Premier League de Haaland escapa da seca
Haaland ainda é um dos poucos atacantes com dois dígitos em gols nesta temporada da Premier League, ao lado de Igor Thiago, do Brentford, e do recém-chegado Antoine Semenyo, do Manchester City. Mesmo assim, o norueguês vive um momento atípico.
Seu jogo apagado contra o Manchester United ampliou uma sequência incômoda: já são cinco partidas seguidas da Premier League sem marcar em jogadas de bola rolando. O pênalti convertido contra o Brighton apenas disfarça um dado ainda mais chamativo, oito jogos consecutivos, em todas as competições, sem gol com bola rolando.
Quando isso acontece no campeonato mais intenso do mundo, a discussão deixa de ser individual e passa a ser estrutural. É claro que dá para olhar para a queda de rendimento do Manchester City nesta altura da temporada, mas o caso não é apenas com o norueguês.
Gyokeres, Sesko e Woltemade sentem o peso da Premier League
Esse caso não atinge apenas Haaland. Viktor Gyökeres, contratado pelo Arsenal como solução ofensiva, marcou um belo gol contra a Inter de Milão, mas está há 10 jogos da Premier League sem marcar com bola rolando, simplesmente irreconhecível dos seus tempos de Sporting. A adaptação do sueco ao ritmo, à fisicalidade e à organização defensiva da liga tem sido tudo, menos simples.
No Manchester United, Benjamin Sesko soma apenas quatro gols em 17 partidas de Premier League, números bem abaixo do esperado para alguém que chegou com status de camisa 9 titular, meio que escolhido a dedo por Ruben Amorim, que hoje já não está mais a frente dos Red Devils. Já Nick Woltemade, no Newcastle, marcou uma vez nos últimos nove jogos da competição.
Casos diferentes, clubes diferentes, mesma dificuldade: marcar gols na Premier League virou missão ingrata para atacantes.
Os números explicam o problema
Os dados ajudam a entender o cenário que os atletas da posição andam vivendo. A média de gols marcados por atacantes na Premier League caiu para 1,36 por jogo, o menor índice da última década. Para comparação, a média foi de 1,58 na temporada passada e 1,69 na anterior.
Além disso, os gols em jogadas de bola rolando estão em queda acentuada. Enquanto isso, cresce a importância das bolas paradas, com zagueiros aparecendo mais dentro da área e atacantes tendo menos liberdade para finalizar. O Arsenal é uma resposta exata pra essas questões, um time que demonstrou o quão importante podem ser os escanteios e as faltas.
Ou seja: o jogo está cada vez menos espontâneo e mais calculado.
Entrar na área adversária na Premier League hoje é como atravessar um congestionamento em horário de pico. O número médio de jogadores dentro da área no momento das finalizações subiu de 8,3 em 2019/20 para 9,4 nesta temporada. Dá para imaginar o esporte nesse país mais próximo do futebol italiano, que sempre chamou atenção pelas suas linhas de cinco, e grande povoamento no meio de campo.
Pode parecer um detalhe pequeno, mas no futebol de alto nível isso muda tudo. Mais jogadores fechando espaço significa menos tempo para pensar, menos ângulo para finalizar e mais bloqueios. O camisa 9 tradicional, que vive de centímetros, sofre e muito.
Compactação defensiva: a nova obsessão da Premier League
Os times da Premier League estão cada vez mais organizados defensivamente, e isso não precisa incluir os remanescentes do G12, dá para falar de forma geral. A compactação virou regra. Hoje, uma equipe leva menos de três segundos para se reorganizar após perder a bola, algo impensável algumas temporadas atrás.
As defesas também estão ficando menos expostas. As situações em que uma linha defensiva fica esticada caíram de cerca de 80 vezes por jogo em 2019/20 para 60 atualmente. Em outras palavras: menos espaço, menos caos, menos gols, e muitas vezes, uma partida mais complicada de ser vista, difícil de ver o confronto se desenrolar numa trocação direta.
Isso ficou evidente na última rodada da Premier League, que terminou com apenas 16 gols em 10 partidas. Não por acaso, a temporada já registra 17 empates sem gols, mais do que em qualquer uma das duas campanhas anteriores.
Mikel Arteta até saiu em defesa de seu atacante, seu reforço tão pedido em inúmeras janelas de transferências. No caso, ele não teve papas na língua para tocar no assunto, com certeza deve ter escutado bastante.
“Vale para todos os camisas 9 da Premier League. É muito difícil jogar nessa posição hoje em dia, pela fisicalidade, pela qualidade dos zagueiros e pela falta de espaço.”
Não é que os atacantes tenham piorado. A Premier League ficou mais inteligente defensivamente.
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