Até outro dia, o Manchester City parecia estar vivendo da mesma forma como atuava em todas as outras temporadas: começava meio largado, desarrumado, observava todo mundo gastar energia e, quando menos se esperava, engatava uma sequência absurda de vitórias e atropelava a concorrência, saindo com o título no final das contas. Só que, desta vez, o roteiro resolveu mudar, e não foi para melhor.
Se a gente rebobinar a fita até 29 de dezembro, o cenário era completamente diferente. O City vinha de seis vitórias consecutivas na Premier League, tinha encostado no Arsenal e reduzido a diferença para apenas dois pontos, enquanto os Gunners estavam cambaleando. A sensação era clara: “lá vem mais uma daquelas runs clássicas do time de Pep Guardiola”. Aquelas que traumatizam meio campeonato.
Depois da vitória suada contra o Nottingham Forest, com gol aos 83 minutos, parecia questão de tempo até os Sky Blues assumirem a liderança. A questão é que, o nível caiu novamente, e esse desejo ficou para depois.
De perseguidor a coadjuvante em tempo recorde
O futebol, cruel como sempre, tratou de virar o jogo rapidamente. Três empates seguidos, contra Sunderland, Chelsea e Brighton, já ligaram o sinal de alerta para Guardiola e Companhia. Mas o golpe mesmo veio no derby contra o Manchester United, em Old Trafford. Derrota feia, atuação pior ainda, e um banho de água fria em qualquer esperança de retomada imediata.
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Hoje, o Manchester City está sete pontos atrás do Arsenal, com apenas 16 rodadas pela frente. Dá para buscar? Em tese, sim. Na prática, com esse futebol, parece uma escalada no Everest de chinelo, com todas as mochilas do mundo se possível.
E se a Premier League já preocupa, a Champions League virou dor de cabeça séria. A derrota por 3 a 1 para o Bodø/Glimt, na Noruega, foi mais um daqueles jogos que entram para a lista do “o que foi isso?”. Mesmo com um time misto em campo, a atuação foi tão ruim que os próprios jogadores decidiram reembolsar os torcedores que viajaram. Quando isso acontece, você sabe que a coisa saiu totalmente do controle.
Uma defesa improvisada… e remendada
Boa parte dos problemas do City passam pela defesa. A lista de desfalques parece boletim médico de hospital: Ruben Dias, John Stones e Josko Gvardiol estão fora. Resultado? Pep foi obrigado a montar uma zaga com Max Alleyne (20 anos) e Abdukodir Khusanov (21), dois jovens que mal tinham rodagem no time principal. São diamantes brutos, nem um pouco lapidados, e foi possível ver isso a olho nu.
Para ter uma ideia do tamanho do problema, essa dupla já é a segunda parceria de zaga mais utilizada na temporada. Não por mérito, mas por pura necessidade. E, convenhamos, tem sido tudo menos confiável. Simplesmente o time quebrou, mesmo com as diversas chegadas nos últimos mercados, ainda não deu vazão.
Claro, é difícil sentir pena de um clube que pode resolver o problema indo ao mercado e contratando Marc Guéhi, do Crystal Palace. Mas isso não apaga o impacto imediato que essa crise defensiva causou no desempenho coletivo, colocando em dúvida a capacidade do técnico espanhol dar volta por cima, e tirar mais um título das mãos de Mikel Arteta e seu Arsenal.
O fantasma chamado Rodri
Se atrás o problema é físico, no meio-campo ele tem nome e sobrenome: Rodri. Desde que rompeu o ligamento cruzado em setembro de 2024, o espanhol nunca mais foi o mesmo. E o Manchester City sente isso, principalmente pelo fato de estar passando por um momento complicado, e precisar de uma liderança mais concreta e forte.
Na temporada passada, sem ele, o clube ficou sem títulos pela primeira vez desde 2016-17. A expectativa era que, após o retorno no fim do último campeonato, Rodri usasse o verão europeu para recuperar forma e voltasse inteiro. Não voltou.
Entre lesões musculares e problemas no joelho, o volante não conseguiu sequência ter uma sequência ao lado do City. E os números assustam: o City venceu apenas 45,5% dos jogos em que Rodri foi titular nesta temporada, contra 74,1% quando ele ficou fora. Um dado impensável há dois anos.
Não é justo jogar a culpa nele, até porque tem sido escalado em jogos pesados, muitas vezes sem estar 100%. Mas o impacto não é mais o mesmo. E o Manchester City sente falta daquele Rodri dominante, que controlava o ritmo dos jogos como se estivesse jogando xadrez enquanto os outros brincavam de dama, simplesmente um pilar que se estivesse em campo, era sinônimo de vitória no final das contas.
Haaland: pane no modo robô
E aí chegamos ao ponto mais sensível: Erling Haaland. O norueguês vive o pior momento desde que chegou ao futebol de elite. Já são oito jogos seguidos sem marcar gol com bola rolando. Algo raríssimo para um atacante que parecia programado para marcar todo santo jogo, não importa como ele se encaminhasse, o Manchester City tinha seu nome como um dos ajudantes na vitória.
O problema não é só a pontaria. É a falta de chances. Nos últimos oito jogos, Haaland teve média de apenas 0,31 xG sem pênalti por 90 minutos. Antes disso, esse número era quase três vezes maior.
O City ficou refém demais do camisa 9. Ele responde por 42,5% do xG sem pênalti da equipe na Premier League. Quando ele some, o ataque inteiro entra em curto-circuito. E aí o ranking de artilheiros do time vira algo meio preocupante: depois de Haaland, aparecem Foden, Reijnders… e até defensores como Gvardiol e Nico O’Reilly. Isso não é exatamente um bom sinal, ainda mais tendo o norueguês com um número avassalador ao comparar com todos.
Crise ou só má fase coletiva no Manchester City?
Phil Foden esfriou, Doku pouco decide, Savinho ainda não engrenou, e Semenyo acabou de chegar, não dá para colocar tudo nas costas dele. É aquele combo clássico: lesões, queda de rendimento e confiança lá embaixo, tudo ao mesmo tempo. Exatamente o que Pep Guardiola tanto desejava para o dia hoje, mas agora, é descobrir como contar essa realidade.
A grande dúvida é se isso é apenas uma fase ruim… ou o começo de algo maior. Pep Guardiola está há quase uma década no clube. Será que o gás acabou? Rodri vai voltar ao nível de antes? Haaland vai religar o modo artilheiro?
Ninguém sabe. O que se sabe é que o tempo está passando, e o Manchester City não pode mais se dar ao luxo de tropeçar, ou ao menos imaginar ficar sem títulos numa nova oportunidade.
Se conseguir ajustar a defesa, recuperar peças-chave e encaixar uma sequência positiva, o aviso está dado: o Arsenal que se cuide. Porque, quando esse City resolve engrenar, todo mundo já sabe como termina.
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