Jeremy Jacquet Chelsea Liverpool
Futebol Premier League

Liverpool pensa no futuro e deixa Arne Slot exposto no presente

O Liverpool atravessa uma janela de transferências que diz muito mais sobre o futuro do clube do que sobre o momento atual. Em fevereiro, os atuais campeões ingleses ocupam apenas a sexta colocação da Premier League, fora da zona de classificação para a Champions League, e chegam ao fim do mercado tendo feito apenas um movimento: a contratação do zagueiro Jeremy Jacquet por 60 milhões de libras.

O detalhe que torna tudo mais simbólico é que Jacquet só se apresentará no verão europeu. Ou seja, para o segundo semestre. Para agora, nada muda.

A mensagem da diretoria é clara. O Liverpool está disposto a atravessar turbulências no curto prazo para construir um novo ciclo de forma estruturada. Para Arne Slot, porém, isso significa trabalhar sob pressão máxima, tendo que encontrar soluções internas para salvar uma temporada que, até aqui, ficou bem abaixo do esperado.

Liverpool ainda tem uma temporada viva, mas cheia de urgências

Mesmo em meio à instabilidade, o Liverpool ainda está vivo em duas competições de mata-mata, uma doméstica e outra europeia. Existe, portanto, a chance de um desfecho positivo. Um título pode mudar o tom de toda a análise.

Ainda assim, o treinador precisa lidar com problemas imediatos, especialmente no setor defensivo. A fragilidade do elenco nos últimos meses expôs uma falta de profundidade que o mercado de janeiro não corrigiu.

Na lateral direita, Conor Bradley está fora pelo resto da temporada. Jeremie Frimpong convive com problemas físicos recorrentes. Dominik Szoboszlai, um dos destaques do time no ano, precisou ser improvisado fora de posição. Uma investida tardia por Lutsharel Geertruida não avançou.

No miolo da defesa, o cenário também é preocupante. Giovanni Leoni é desfalque de longo prazo. Ryan Gravenberch e Wataru Endo precisaram atuar como zagueiros em determinados momentos. Ibrahima Konate chegou a interromper uma licença por motivos pessoais para reforçar o time contra o Newcastle.

Esse contexto ajuda a explicar por que a frustração com a perda de Marc Guehi ainda dói tanto.

A ferida Guehi e o contraste com o Manchester City

O Liverpool já havia ficado perto de contratar Marc Guehi no verão europeu. O negócio caiu no último dia da janela, gerando frustração nos torcedores. Agora, ver o zagueiro acertar com o Manchester City neste mercado reacendeu a sensação de oportunidade perdida.

O City, aliás, foi elogiado justamente por atacar o presente. Guehi, aos 25 anos, e Antoine Semenyo, aos 26, chegam como jogadores prontos, testados na Premier League e capazes de elevar o nível da equipe de imediato.

É exatamente esse contraste que evidencia o momento do Liverpool. O clube está em transição. E talvez mais profunda do que parecia há alguns meses.

O título que pareceu início e soa como fim

Quando o Liverpool conquistou o título na temporada passada, muitos enxergaram aquilo como o início de uma nova era sob Arne Slot. Com o tempo, essa leitura vem sendo revista. Cada vez mais, aquele troféu soa como o fechamento de um ciclo.

Virgil van Dijk, Mohamed Salah e Alisson renovaram seus contratos, mas os três já têm 33 anos. São ídolos históricos, pilares do time, mas também símbolos de um grupo que se aproxima do fim do auge físico.

A diretoria sabia que precisaria começar a construir o próximo Liverpool. A ideia era fazer isso sem ruptura brusca, aproveitando a força de um elenco campeão para introduzir novas peças.

Contratações com lógica, mas efeito gradual

O planejamento ficou claro nos últimos mercados. Hugo Ekitike, de 23 anos, e Florian Wirtz, de 22, são talentos de altíssimo nível, mas ainda em processo de amadurecimento. Milos Kerkez chegou como sucessor natural de Andy Robertson, quase uma década mais velho, com a expectativa de que a transição fosse gradual.

Esse modelo remete diretamente ao trabalho feito nos primeiros anos de Jurgen Klopp, quando o clube apostou em jogadores que já tinham alguma bagagem, mas ainda estavam longe do auge.

O ex-diretor de pesquisa do clube, Ian Graham, já explicou essa lógica ao lembrar que os principais reforços daquele período tinham entre 23 e 25 anos. Jogadores que já haviam construído uma carreira antes de viver a fase decisiva no Liverpool.

Equilíbrio delicado entre risco e necessidade

A lição daquele período é clara: times vencedores costumam ter um núcleo forte de atletas em idade de pico. Um elenco cheio de jovens promissores e veteranos experientes pode até ter uma média de idade ideal, mas tende a sofrer com oscilações.

O próprio Graham reconhecia que gostava de correr riscos com jogadores jovens, mas admitia que, quando a classificação para a Champions League se torna o mínimo aceitável, o cálculo muda.

É exatamente esse dilema que aparece na contratação de Jeremy Jacquet. O francês é muito bem avaliado, titular no Rennes e adaptado a uma liga física. Ainda assim, chega com apenas 31 jogos na elite. Seu teto é alto, mas o caminho até ele é imprevisível.

Lesões, adaptação, banco de reservas ou perda de ritmo podem alterar completamente a trajetória de um jovem zagueiro.

Slot no limite do curto prazo

Para Arne Slot, pensar em agosto é um luxo que ele não tem. Seu futuro será decidido agora. Sem reforços imediatos, o treinador terá que extrair o máximo de um elenco remendado, lidar com improvisações e manter o Liverpool competitivo em meio a uma temporada irregular.

A frase dita por ele na véspera do fechamento da janela soa quase irônica agora. O Liverpool não se fortaleceu para a segunda metade da temporada. Apostou tudo no planejamento de longo prazo.

Jacquet pode chegar e virar parceiro de Van Dijk, quem sabe até um futuro ídolo de Anfield. A diretoria acredita nisso. Mas, até lá, Slot caminha sobre uma corda bamba.

O Liverpool ainda pode terminar a temporada com um título europeu ou fora da próxima Champions League. Entre promessas futuras e urgências presentes, o destino do clube — e do treinador — será decidido, como sempre, dentro de campo.