Ronald Araújo, Liverpool. Foto: Liverpool FC/Liverpool FC via Getty Images
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Ronald Araujo: contratação de emergência ou peça para uma nova era do Liverpool?

Ronald Araujo não era um dos nomes mais cotados para reforçar o Liverpool nesta janela. Ainda assim, o zagueiro uruguaio pode ter chegado a Anfield no momento certo. O negócio, porém, começa a fazer cada vez mais sentido quando analisado com calma.

O Liverpool acertou o empréstimo de Araujo por uma temporada, com opção de compra avaliada em cerca de 47 milhões de libras. A contratação acontece em um momento delicado para a defesa, que perdeu peças importantes por lesão e viu suas opções para a zaga diminuírem consideravelmente.

A necessidade, portanto, é evidente. Mas a escolha de Araujo não parece ter sido apenas uma resposta emergencial.

Aos 27 anos, o uruguaio chega com experiência no mais alto nível. Capitão do Barcelona em diferentes momentos, titular da seleção do Uruguai e acostumado a disputar títulos nacionais e a Champions League ele não precisa de um período de adaptação ao peso de grandes jogos. Portanto, A questão é entender se o Liverpool conseguirá recuperar a melhor versão do jogador.

Um zagueiro feito para apagar incêndios

Ronald Araújo, Barcelona. Foto: David Ramírez/Soccrates/Getty Images.
Ronald Araújo, Barcelona. Foto: David Ramírez/Soccrates/Getty Images.

 

As principais características de Araujo são conhecidas. Forte fisicamente, veloz para um jogador de sua posição e dominante no jogo aéreo, o uruguaio se destaca principalmente quando precisa defender grandes espaços. É o tipo de zagueiro capaz de corrigir um erro coletivo com velocidade e força física.

E esse pode ser um diferencial importante no Liverpool de Andoni Iraola. O treinador espanhol costuma exigir intensidade, pressão alta e uma equipe agressiva sem a bola. O problema de uma proposta tão vertical é conhecido: quando a primeira pressão é quebrada, existe espaço para ser atacado às costas da defesa.

É justamente nesse cenário que Araujo pode ser mais útil. O uruguaio consegue avançar para disputar o duelo, recuperar terreno quando é ultrapassado e cobrir os corredores laterais. Além disso, também pode atuar como lateral-direito, oferecendo uma alternativa importante para um elenco que enfrenta problemas físicos no setor defensivo.

Não por acaso, sua capacidade de jogar em diferentes posições é vista como um dos atrativos da contratação.

Araujo também pode ajudar na saída de bola

Embora não seja um zagueiro conhecido pela capacidade de organizar o jogo como um meio-campista, Araujo possui uma característica que pode ser explorada pelo Liverpool: o transporte da bola.

O uruguaio tem passada longa e não costuma precisar de muitos toques para avançar metros pelo campo. Quando encontra espaço à sua frente, pode carregar a bola até obrigar o adversário a sair de sua estrutura.

Isso gera novas possibilidades. Um meio-campista pode ser obrigado a pressioná-lo. Um defensor precisa abandonar sua posição. Um corredor se abre para outro jogador.

Nem sempre é necessário que a jogada termine em uma assistência ou passe decisivo. Às vezes, simplesmente avançar com a bola já é suficiente para desorganizar a estrutura adversária. Esse é outro aspecto que pode tornar Araujo interessante para Iraola.

O problema que acompanha o uruguaio

É justamente aqui que mora o principal ponto de interrogação da contratação. A capacidade física de Araujo nunca foi questionada. O problema esteve, em alguns momentos, na tomada de decisão.

O uruguaio tem um perfil agressivo e, por vezes, essa característica pode se transformar em um problema. A disposição para antecipar, entrar no duelo e tentar resolver a jogada rapidamente já produziu situações nas quais uma ação controlável acabou se tornando uma oportunidade perigosa para o adversário. Sua trajetória na Champions League, inclusive, oferece alguns exemplos dessa oscilação.

Seria injusto, porém, resumir Araujo aos seus erros. O defensor acumulou mais de 200 partidas pelo Barcelona e passou anos sendo considerado uma das principais promessas defensivas do futebol europeu. Há, portanto, uma amostra grande o suficiente para mostrar que seu potencial está muito acima de um simples jogador para compor elenco.

O desafio do Liverpool é outro: transformar esse potencial em regularidade. Araujo não precisa chegar a Anfield para ser um novo Franco Baresi. Tampouco precisa controlar todas as fases do jogo ou comandar sozinho a estrutura defensiva.

Ele precisa fazer aquilo que sabe fazer melhor: Ganhar duelos, atacar cruzamentos, cobrir os espaços, proteger as costas da defesa e, principalmente, entender o momento certo de entrar no duelo ou quando é melhor esperar. Essa última parte pode determinar o futuro do uruguaio em Anfield.

Iraola pode ter encontrado seu “bombeiro”

Talvez o ponto mais interessante da contratação esteja justamente na combinação entre Araújo e o estilo de Iraola. O treinador não quer uma defesa passiva: seus times precisam ser agressivos, compactos e capazes de defender longe da própria área. Para isso, é fundamental contar com zagueiros que não tenham medo de espaços às suas costas — e o uruguaio se encaixa bem nesse perfil.

Ele não é necessariamente o jogador que precisa controlar todas as ações ao seu redor. Seu maior valor aparece justamente quando algo sai do planejado. Se um atacante consegue escapar da marcação, ele tem velocidade para fazer a cobertura; se um ponta ataca o corredor, consegue acompanhá-lo; e, quando um lançamento encontra espaço nas costas da defesa, sua capacidade de recuperação permite corrigir o problema rapidamente. É como se o Liverpool tivesse contratado um verdadeiro “bombeiro” para a defesa, pronto para apagar os incêndios provocados pela própria agressividade da equipe.

Essa mudança também pode representar uma oportunidade importante para o próprio Araujo. No Barcelona, o uruguaio conviveu durante anos com a pressão de atuar em um dos maiores clubes do mundo e de ser cobrado como um dos pilares da defesa. Agora, terá a chance de começar novamente em um ambiente diferente, com um novo treinador, uma nova liga e exigências táticas distintas.

O formato do negócio também favorece o Liverpool. Caso Araujo recupere a melhor versão de seu futebol, o clube terá a possibilidade de investir cerca de 47 milhões de libras para torná-lo definitivo. Se, por outro lado, os problemas de consistência continuarem ou o defensor não conseguir se adaptar ao futebol inglês, os Reds não estarão presos a um compromisso de longo prazo. É, portanto, uma aposta calculada, que permite ao clube testar o encaixe antes de tomar uma decisão definitiva.

No fim das contas, as necessidades de Liverpool e Araujo parecem convergir. Os Reds precisavam de um zagueiro para solucionar um problema imediato, enquanto o uruguaio precisava de um novo desafio para recuperar o protagonismo que já teve no Barcelona. Iraola, por sua vez, pode ter encontrado um defensor cujas principais características combinam justamente com o futebol que pretende implementar.

Resta saber qual versão de Araujo desembarcará em Anfield. Se conseguir aliar sua força física, velocidade e capacidade nos duelos a uma maior regularidade nas tomadas de decisão, o uruguaio pode deixar de ser apenas uma solução emergencial para a defesa e se transformar em uma das peças importantes da nova era do Liverpool sob o comando de Iraola.

Por enquanto, porém, não há necessidade de pressa. O empréstimo permite que clube e jogador descubram se essa relação realmente funciona antes de transformar a aposta em um compromisso de 47 milhões de libras.

Créditos da foto de capa: Liverpool FC/Liverpool FC via Getty Images